Elas por elas: Luisa Geisler

Por João Lourenço

Foto: Andressa Andrade

No último domingo, a atriz Frances McDormand levou o Oscar de Melhor Atriz pelo filme Três anúncios para um crime. Naquele que foi o discurso mais memorável da noite, ela convidou todas as mulheres indicadas a levantarem. “Olhem ao redor, nós estamos aqui e temos histórias para contar”.

O lembrete de McDormand também vale para a literatura. Olhem ao redor, as mulheres têm histórias para contar. Foi pensando nisso que a jornalista Joanna Walsh decidiu levantar a bandeira feminista com a campanha #ReadWomen. Em seguida, a hashtag chegou no Brasil como #LeiaMulheres, pelas mãos de Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques.

Além de divulgar e promover a literatura produzida por mulheres, o projeto pretende acabar com o preconceito que persegue a “literatura feminina”. Afinal, estamos em 2018. Quem disse que mulher só escreve sobre problemas de “mulherzinha”? Talvez você precise conhecer novas vozes. Olhe o exemplo de Hillary Mantel que, na maioria de seus livros, escreve com perfeição sobre homens e "assuntos masculinos" — mas esse é um assunto para outra discussão.

Para celebrar a semana do Dia Internacional da Mulher, conversamos com quatro escritoras. Além de compartilhar suas descobertas mais recentes, elas também falam sobre mulheres inspiradoras e o papel da mulher na ficção.

Hoje, confira o papo com Luisa Geisler, autora de Luzes de emergência se acenderão automaticamente.

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Na década de 1970, Joyce Carol Oates disse em entrevista à Paris Review que existem algumas desvantagens para mulheres na ficção. Ela disse, por exemplo, que pelo simples fato de ser mulher ela não é levada a sério pelos críticos do sexo oposto. Para você, a afirmação de Oates permanece verdadeira? Quais as vantagens e desvantagens em ser uma escritora de ficção?

Permanece, sim. E não é algo que todos os homens líderes do patriarcado se sentaram ao redor de uma mesa e decidiram rir malignamente e boicotar as mulheres. São expectativas, são perspectivas diferentes, que vêm de outros âmbitos da sociedade. Por exemplo, se uma mulher escreve um livro sobre uma mulher tendo revelações após uma série de relacionamentos amorosos frustrados, isso pode ser quase considerado “chick lit”, uma literatura menor. Espera-se que a mulher seja “intimista”, sentimental, cheia de adjetivos, até. Enquanto se um homem escreve um livro sobre um homem tendo revelações após uma série de relacionamentos amorosos frustrados, isso é considerado profundo, é uma exploração de sentimentos. É claro que isso tem mudado muito nos últimos tempos, mas ainda é assim. Não vejo muita vantagem em ser escritora mulher, para ser honesta, não agora. Sim, há menos mulheres escrevendo em relação a homens. 70% dos escritores hoje são homens, entende? A lógica seria de que há menor concorrência, mas mulheres precisam ocupar esses espaços. Elas muitas vezes não os ocupam por falta de acesso. Então, quando uma ganha um espaço a mais, todas ganham.

 

Qual sua personagem fictícia favorita?

Provavelmente Capitu, de Dom Casmurro. Sim, sim, ela é vista do ponto de vista de um homem com um autor homem. Mas foi ela quem primeiro começou a me mostrar o desequilíbrio da balança. Em uma aula, tivemos um “julgamento” de Capitu. Na época, eu não ligava ou sabia muito de feminismo, mas fiquei furiosa. Não tínhamos como julgar uma personagem que não aparecia do próprio ponto de vista. E relendo, pensando neste julgamento, comecei a notar o quanto ela estava submetida ao ponto de vista de Bentinho, o quanto muito do que ela fazia era basicamente interpretado por ele como evidência de traição, de comportamentos desviantes. Aquilo me marcou e começou a me conscientizar em relação a personagens femininos. Acabei nunca esquecendo, e foi essencial para minha formação hoje.

 

Se você tivesse que escolher um livro para figurar em todas as bibliotecas da rede pública, qual seria?

Qualquer um, desde que de fato houvesse bibliotecas em toda a rede pública.

 

Durante sua formação, qual escritora mais te impactou? Você recomenda algum livro especifico da autora?

Depende. Talvez Elvira Vigna tenha me impactado por ser uma autora que eu sempre tinha uma ideia de “quero ser que nem ela quando crescer”, como pessoa, como autora. Foi o primeiro exemplo realmente próximo, não-imaginário. Destaco dela o Como se estivéssemos em palimpsesto de putas e O que deu pra fazer em matéria de história de amor. Mas eu poderia ficar falando por horas. Cada momento formativo teve uma influência diferente. Eu poderia falar de J.K. Rowling e Harry Potter, por exemplo, que foram essenciais. Virginia Woolf teve um papel grande também, em especial com o Um teto todo seu. Até mesmo a quadrinista Alison Bechdel me abriu a cabeça pra diversas discussões de gênero possíveis. Muitas vezes leio apenas um livro de uma autora e é o suficiente pra me deixar pensando por horas, que é o caso dos Argonautas, de Maggie Nelson. Xinran e seus As boas mulheres da China, é um livro que me faz chorar só de lembrar. Ao mesmo tempo, temos Um útero é do tamanho de um punho, da Angélica Freitas, que estou sempre relendo sem nem ter uma explicação: eu amo esse livro como se fosse um bichinho de pelúcia que me dá segurança ao dormir abraçada. Então me repito pra enfatizar que é uma pergunta difícil de responder.

 

Qual foi a sua última grande descoberta literária?

Já falei dela algumas vezes, mas estou encantada com Lydia Davis. Devorei a bibliografia dela durante o ano passado e até agora não consegui terminar totalmente (ou parar).

 

Literatura feminina. Às vezes, esse termo soa excludente, ruim, quase como um subnível de literatura. Além das razões comerciais, você acredita que essa divisão em gêneros ainda é importante?

Acho uma subdivisão tão útil quanto “escritores de cabelo castanho” ou “escritores com miopia”.

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João Lourenço é editor at large da revista semestral *ffwMAG* e escreve sobre cinema, literatura, música e comportamento para publicações como Harper’s BazaarABD Conceitual. Atualmente, ele planeja lançar uma revista literária independente nos EUA e está terminando de escrever uma coletânea de contos.

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