Em busca da alma dos arquivos

Por Plínio Fraga

Tancredo em comício em Capelinha (MG) - 1982

Os arquivos têm alma. Ainda que isso só seja lembrado pelos investigadores solenes de coisas fúteis. A definição de Fernando Pessoa, no poema “A passagem das horas”, do heterônimo Álvaro de Campos, acompanhou-me durante horas e horas de buscas em arquivos no Brasil e no exterior, quando preparava a biografia Tancredo Neves, o príncipe civil (Objetiva).

Essa ideia pode parecer um exagero. Mas, quando se está imerso em um intenso trabalho de pesquisa, estabelecendo um diálogo silencioso com papéis, fichas, registros de computador, os arquivos ganham aura sobrenatural.

Exausto, em meio a buscas que parecem infrutíferas, volta e meia um documento relevante surge à frente, como se o arquivo pedisse para que não desistisse dele. É uma espécie de cordial retribuição que a alma do arquivo faz à intrépida espécie do “investigador de coisas fúteis”. Aqui, três exemplos de cortesias que recebi de arquivos que consultei.

O ARQUIVO DE J.W.F DULLES E OS FANTASMAS DE TANCREDO (clique para baixar o arquivo completo)

“Eu nunca serei ditador do Brasil, mesmo que por um dia!”, disse João Goulart a Tancredo Neves. Essa declaração foi repassada por Tancredo ao historiador norte-americano J.W.F. Dulles em 1965. Permanecia inédita até o lançamento da biografia Tancredo Neves, o príncipe civil. A frase consta de um relatório datilografado de oito páginas encontrado nos arquivos do historiador, mantidos sob a guarda da Universidade do Texas, em Austin. Dulles acentuou em seu relatório que Tancredo tinha de fato se convencido do compromisso do presidente João Goulart com a normalidade democrática.

Tancredo revelou a Dulles que Vargas queria fazer do ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha, seu sucessor. Achava Juscelino Kubitschek muito jovem para a presidência. A UDN esperava ficar muito tempo no poder depois do suicídio de Vargas, mas a vitória de JK e a renúncia de Jânio atrapalharam esse plano.

Dulles questionou Tancredo sobre as razões que o levaram a abandonar o famoso comício da Central do Brasil em 13 de março de 1964. “Era contrário às minhas convicções”, respondeu Tancredo. O comício foi um dos fatores que levaram à intervenção militar em 31 de março, com a consequente deposição de João Goulart.

Engenheiro de mineração, historiador, autor e professor, John W. F. Dulles nasceu em 1913 em Auburn, Nova York. Dulles recebeu graus de bacharel de Princeton (1935) e da Universidade do Arizona (1937), e um M.B.A. da Universidade de Harvard (1943). Ele ocupou cargos de engenharia e executivos com empresas mineiras mexicanas e brasileiras. Viveu no Brasil entre 1959 e 1962.

O ARQUIVO DE ULYSSES E A QUEDA DE BRAÇO (Com reprodução de anotações de Ulysses)

Após a eleição no colégio eleitoral em janeiro de 1985, Tancredo Neves e o deputado federal Ulysses Guimarães, presidente do PMDB, fizeram da montagem da equipe ministerial um jogo de xadrez político. Tancredo, presidente eleito, tinha as pedras brancas, cabendo sempre a ele o primeiro movimento. Ulysses tentava adivinhar os movimentos de Tancredo, mas volta e meia se surpreendia com as jogadas de mestre do amigo. Anotação de Ulysses durante reunião com Tancredo traz à tona as querelas entre os dois. “A revolução não faz ministros”, escreveu o presidente do PMDB. Ulysses chamou de “continuísmo” a escolha de Francisco Dornelles para a Fazenda e reclamou que a nomeação de Antônio Carlos Magalhães iria “escandalizar as esquerdas”. Nas três questões, os pontos de vista de Tancredo prevaleceram, num xeque-mate costurado em silêncio e jamais comemorado.

OS ARQUIVOS DA CIA E A SAÚDE DE TANCREDO (Com reprodução de documento da CIA)

A doença que impediu a posse de Tancredo Neves à presidência surpreendeu o país e até o serviço de espionagem mais famoso do mundo.

A um mês da posse, a CIA enviou ao presidente Ronald Reagan documento em que afirmava que Tancredo aparentava estar “em boa saúde aos 74 anos” e qualificava como “precário” o inglês do presidente eleito. Quinze dias depois, o presidente foi internado às pressas em razão de um tumor benigno no intestino. Morreria em 21 de abril de 1985, após complicações operatórias.

Meses antes, o SNI registrara dois eventos públicos nos quais Tancredo precisou de amparo, sinalizando que estava doente. Um parlamentar chegara a avistar Tancredo entrando às escondidas no serviço médico da Câmara para atendimento de emergência. Saiu correndo para contar ao adversário, Paulo Maluf, quase seis meses antes da internação que se mostraria fatal. Os intrigueiros brasileiros estavam mais bem informados do que a CIA. 

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Tancredo Neves, o príncipe civil, será lançado no dia 27 de abril em São Paulo. O evento, realizado em parceria com a Folha de S. Paulo, terá bate-papo com o aturo Plínio Fraga, o jornalista Marcelo Tas e o embaixador Rubens Ricupero, e acontece às 19h30 na Livraria Cultura do Shopping Bourbon. Saiba mais

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Plínio Fraga é jornalista há quase trinta anos. Foi editor de política, repórter especial e secretário de redação da sucursal do Rio de Janeiro da Folha de S. Paulo, editor de política do Jornal do Brasil e repórter de O Globo e da revista Piauí. Lança agora pela Editora Objetiva a biografia Tancredo Neves, o príncipe civil.

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