Em tradução (Bob Dylan)

Caetano Galindo

Eu nunca fui fã de Bob Dylan.

Acuma!?

(Pausa dramática)

É. Mas… calma. Qualifiquemos.

Primeiro eu tenho que dizer o que o grande Michel Faber, em entrevista pós-Nobel, já andou adiantando: eu sou músico, e o que me atrai, desde sempre, no mundo da música pop é a música de músicos: não a de poetas, não a de ideólogos, não a de poses e atitudes, não a de contestação, não a de lirismo…. etc.

Resumo: eu sou McCartney acima de Lennon. Imagina Dylan.

Outra: eu aprendi inglês, o inglês que eu tenha podido aprender, beeeem tarde na vida. Ou seja, se quando ouço música, mesmo em português, eu tendo a nem prestar tanta atenção nas letras, quando a coisa é boa… imagina o que eu pude ouvir de Dylan durante os meus anos de formação… naquela janela ali entre os 12 e os 22, em que teus gostos de música pop tendem a cristalizar. Só um cara fanho soprando mal um gaitinha em cima de harmonias folk não exatamente surpreendentes.

* * *

Agora, a essas alturas quem se interessa por Dylan aqui no Brasil já pode até saber que a tarefa de traduzir todas as letras da carreira dele coube justamente a mim.

Acuma!?

(Pausa pausática)

Mas e não rola um cafrito de interesse!?

Não. Na verdade não.

Eu sempre disse que traduzir coisas de que você não gosta é um suplício. Um suplício pelo qual eu passei só uma vez na vida, bem no começo da carreira. Mas trabalhando com uma editora como esta casa cá, você sabe que sempre virão coisas boas. E aí rola disso. Pode vir uma coisa boa com a qual você não tinha tanta afinidade antes. E aí?

Bom, eu pensei até em termos de “oportunidade”. 

Porque agora eu sei inglês. E teria uma chance bem detida de dar uma olhada numa produção poética que muita gente bem maior que eu, bem mais capaz que eu, e bem mais merecedora do meu respeito que eu (!!) vinha há anos me dizendo que eu devia conferir.

Entre os músicos, no meu tempo de conservatório, tinha essa referência comum, essa coisa que dizia que você sempre gosta das peças que um dia estudou, tocou. Ela, afinal, teve que passar por dentro de você. Você teve que se responsabilizar por ela, descobrir o que ela tinha de bom pra mostrar, realçar essas partes… 

E, no mundo da música clássica, onde o repertório que a gente explora em geral foi filtrado por décadas, por séculos de crítica e de análise, ora, o que sobrou tende a ser bom. Tende a ser você o errado, simplesmente porque não tinha prestado atenção direito naquela peça.

Dylan, pra mim, foi isso.

O primeiro volume das Letras (com a produção dos anos 60 e 70) está entregue, deve ser publicado no começo do primeiro semestre, e foi um trabalho que eu fiz com grande dedicação, interesse e, muitas vezes, pasmo.

Fiquei encantado com certas coisas (talvez acima de tudo com Visions of Johanna), fascinado por outras, mas acima de tudo espantado com a variedade e a coerência das mudanças de rumo e de estilos pelas quais ele passou nesses vinte anos.

Amadurecimento.

Apostas.

Mudanças.

Achados, desvios e sucessos.

Uma carreira de letrista diferente de qualquer outra, um comprometimento com o aspecto verbal, literário das canções que definitivamente abriu uma trilha nova nessa produção.

De minha parte, extremamente curioso pra começar a ver o que ele produziu entre 1980 e o dia de hoje.

De tua parte, ora, tomara que agrade. Tomara que não agrida, tomara que não frustre expectativas. Porque o que a gente decidiu fazer foi NÃO uma tradução poética (metro e rima etc), NÃO uma tradução para performance (pra ser cantada), mas uma tradução literária, que transmitisse o “o quê” mais do que o “como”, sem no entanto abrir mão de recursos rítmicos e sonoros, de certa “sofisticação” literária.

Você vai poder ler as letras sem a música. E foi assim que elas foram traduzidas. Como documentos literários.

Vejamos…

(Por mim, até a música teve seu momento de “fazer as pazes” na hora que eu catei meu violão de cordas de aço e botei “Hurricane” pra tocar no youtube e saí tocando junto, feliz da vida….)

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

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