Em tradução ("Cidade em chamas")

Caetano Galindo

Por Caetano Galindo

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Os últimos meses foram movimentados aqui na oficina Galindo de tradução de horas vagas (nem vos conto, oh leitores, do que andou rolando na Universidade nesse intervalo…).

Entre o dia 15 de outubro de 2015 e o primeiro de abril, agora há pouco, foram quatro romances entregues… Ou seja, depois daquela primeira entrega, dá mais ou menos um a cada dois meses.

O mais recente de Ali Smith, Como ser as duas coisas, foi entregue no dia 27 de novembro. Um retrato do artista quando jovem foi no dia 2 de fevereiro, aniversário de James Joyce. E agora, sem mentira, no primeiro de abril foi O livro de Aron, de Jim Shepard, que nem estava nos planos.

Isso tudo além do lançamento (o que inclui revisões finais e tal) de Sim, eu digo sim, a nossa “visita guiada” ao Ulysses, de Joyce.

Se tudo der certo, dou um tempo nas traduções até o segundo semestre, quando preciso finalizar O rei pálido, de David Foster Wallace. Tenho umas publicações universitárias precisando da minha atenção. Desculpa.

Mas se eu pude fazer tudo isso nesse tempo, por outro lado (poroutroladissimamente!), entre 23 de abril de 2015 e aquele 15 de outubro, quase seis meses redondos, essas minhas horas “vagas” só respiraram Cidade em chamas, só serviram aos esforços de trazer o grande Garth Risk Hallberg até o leitor brasileiro.

Agora, o livro está em produção, e tem lançamento previsto pro dia 29 de abril.

São 1040 páginas de um passeio fascinante pela cidade de Nova York em seu grande momento de crise, antes da retomada de crescimento econômico e da “limpeza” promovida por Ed Koch, Giuliani e Cia Ltda. Punks, arte de rua, decadência.

Muita música, muita ideologia radical, muita angústia adolescente.

Um mundo que era a semente de muito o que nós seríamos hoje, e que ainda por isso nos parece radicalmente estranho (ou deveria). O mundo dos Ramones, de Patti Smith, Lou Reed e das fitas piratas do Clash. Mas o mundo também dos falanstérios, das comunidades alternativas apocalíptico/anárquicas. Um mundo de leitores de Foucault e seguidores de Johnny Rotten.

E ao mesmo tempo um mundo em que os grandes conglomerados estão, como na literatura de Pynchon, de DeLillo, de David Foster Wallace, literalmente comprando a cidade, alterando sua paisagem, e um cenário onde o profeta do caos e da redenção pode ser um radialista chapado que tem um programa de madrugada onde vocifera para a cidade ir para as ruas e recobrar o que é seu.

Eu vivi seis meses com a família Hamilton-Sweeney (diga-se de passagem, há VÁRIAS referências a Sweeney Todd no romance: foi até um aluno meu [oi, Guilherme!] quem me fez ver que mesmo o título vem de uma canção do musical…). Eu passei seis meses com a angústia de William, o herdeiro milionário que prefere virar artista plástico marginal, de Regan, a irmã mais velha, personagem mais profunda do livro. Passei meio ano com Charlie, o adolescente obcecado pela antiga banda de William, com Samantha, o mito por trás de tudo. Passei meio ano com a história dos fogos de artifício, dos Estados Unidos, da música pop e da grande literatura americana.

Agora fica com vocês.

 

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

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