Em tradução (The Pale King)

Caetano Galindo

Eu mencionei, mês passado, a ideia de que a estética de David Foster Wallace era baseada no fracasso… Claro que tomei pancada de uns wallaceanos por aí. Nem esperava coisa diferente!

Claro, também, que eu, com todo o devido respeito FÃ OFICIAL #1 do caboclo (quer contestar meu título? quer?), não estava exatamente pensando em falar mal dele. Pelo contrário. O que me interessa, e tem me interessado cada vez mais, na lida com o Wallace, com o Finnegans Wake, são esses momentos de investigação estética séria, fodida mesmo, que envolvem como possibilidade real o fracasso mais retumbante.

O próprio Wallace falou disso em vida, dessa ideia de que em certo sentido a noção de vanguarda estava descaracterizada, na medida em que se você só produz pra uma panelinha de “pares”, a aceitação está garantida, o risco é mínimo. E ele queria risco. Queria fazer algo que não fosse seguro.

Eu gosto muito dessa ideia.

E acho, curiosamente, que é também por isso que eu me interesso por “gêneros” menos “nobres” como comédia e terror: são estradas estreitas, em que um erro aniquila TODO o efeito. É fácil emocionar, tocar, irritar… assustar e fazer rir dependem de precisão milimétrica… e, lógico, podem (e costumam) falhar.

Acho, também, que é por isso que me interessam as obras inacabadas. A arte da fuga, de Bach…

Mas, ainda mais interessante e poderoso é ver um puta escritor que decide se dedicar a um projeto onde não apenas há o risco do fracasso, mas onde o fracasso é quase uma certeza. Ver o camarada se dedicar a “tentar”, a abordar o que nunca foi abordado, a usar técnicas que nunca foram testadas. Ver ele entrar num terreno minado (metafórico! metafórico!) impossível de se entender.

Joyce fez isso no Finnegans Wake e talvez tenha fracassado. Como não podia deixar de ser.

Beckett fez isso na sua obra inteira. E talvez tenha fracassado, apesar de tentar, como ele mesmo disse, sempre fracassar cada vez melhor.

E esses fracassos são gloriosos. Mais do que qualquer sucesso sem pretensão.

Wallace fez isso em toda a sua produção, na tentativa talvez inglória de unir todo o arsenal da mais alta literatura de ficção aos interesses e às abordagens da mais direta filosofia moral, pessoal, humana. Autoajuda e matemática abstrata. Sinceridade e artifício turbinado.

Não deixa de ser sedutor pensar que seu suicídio possa ter tido algo a ver com a percepção desse fracasso, dessa impossibilidade, da imensidão da tarefa a que se propunha nesse seu romance final, The Pale King, que a gente deve lançar ano que vem. Mas pode ser simplório, e especialmente pode ser equivocado.

Eu tenho um quase vício por ver no YouTube vídeos de um escalador chamado Alex Honnold, que sobe sem equipamento, mãos limpas, as paredes mais difíceis. Tenho uma foto dele numa montanha como papel de parede do computador.

Gosto de lembrar, quando vejo, de uma conversa do Amyr Klink, no 100 dias entre céu e mar, que explicava que essas “aventuras” na verdade são empreendidas por gente preocupada não em “se arriscar”, mas em prever e contornar milimetricamente os riscos inevitáveis. Honnold só troca um ponto de apoio na certeza de estar seguro; calculado, cada gesto é preciso e triplamente conferido. Ou ele cai. Ele morre.

Wallace não pulou da montanha.

Honnold um dia pode cair, mas vai ser enquanto tentava uma rota segura numa parede que só ele achava que era possível.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

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