Em tradução (Thomas Pynchon)

Caetano Galindo

Eu só traduzi um romance de Thomas Pynchon. Aquele. Justo aquele que virou filme. Vício inerente.

É um dos escritores que mais me impressionaram na vida. Era, claro, um dos maiores desejos (in-)confessos de tradução. E fiquei mais do que saltitante quando soube que iria lidar com aquele romance, uma felicidade que só fez se confirmar durante o trabalho com o texto: primoroso, encantador, grotesco, imaginativo, delicado, bizarro, patusco, na-veia… Pynchon.

Me orgulho demais de ter feito aquele livro.

Mas ao mesmo tempo tenho que dizer que espero nunca mais traduzir um romance dele.

Como assim? Dá muito trabalho, é?

Dá. Mas a gente gostcha….

Tradutor literário é uma raça meia-burra em termos de ganhar dinheiro, sabe? A gente curte as coisas mais difíceis, que custam mais tempo, mas pagam a mesma lauda…? A gente fica diiiias revisando-revisando-revisando o texto final, apesar de isso não mexer o valor da lauda…? A gente fica em geral “cortando” durante a revisão, o que no fundo DIMINUI a quantidade de laudas pela qual a gente vai ser pago…?

(Claro que no fundo é bem esse zelo, esse cuidado que, se tudo der certo, vai fazer você ter uma carreira mais sólida e, de tabela, receber mais… Mas vale a piada.)

Então, não é pelo trabalho. Adoraria lidar com as dificuldades de um novo Pynchon.

Ah… então é porque você acha que ele não vai mais escrever?

Não! Na verdade torço muito pra que ele publique muito mais. E logo! Ninguém, ninguém mesmo, tem mais capacidade de ler os Estados Unidos da era Trump. Só ele é capaz de fazer aquilo fazer sentido.

E olha lá!

Estou com muita curiosidade pra saber o que ele anda pensando/aprontando.

Mas então, qualé?

É o seguinte. É que além de tradutor, e antes de tradutor, eu sou leitor. E além de tudo sou “fã” de Pynchon.

E nessas duas condições, meu maior desejo é pela fortuna dele. Pelo seu sucesso. E o tradutor “normal” de Pynchon aqui entre nós tem sido ninguém menos que Paulo Henriques Britto. O homem: o Mito. O melhor tradutor de prosa literária que esse país já teve. De longe. E um cara que adora Pynchon e entende demais aquela prosa, aquele mundo.

Via de regra já é mais do que recomendável ter o bom senso de ceder a vez a quem é melhor, maior que você. Quando o cara em questão é monstruosamente maior que todo mundo… Eu só posso é torcer pra que Pynchon continue chegando até nós pela melhor das mãos. Melhor das vias.

(Na época do Vício inerente o Paulo estava ocupado, sem agenda…)

Eu me considero um “seguidor” dele. 

Dias desses, num evento aqui na UFPR, vi uma palestra de uma colega tradutora que estudou também com ele na PUC/RJ. E foi genial, porque na medida em que ela ia projetando os exemplos das traduções, eu ia “vendo”, “enxergando” o Paulo. As ideias dele, as posturas, as sugestões.

Somos, eu e ela, crias do monstro. E, tanto eu quanto ela, propagamos as ideias, tentamos criar novas crias.

Tomara que dê certo. O tamanho do talento do Paulo dá pra ainda umas duas gerações.

E pra mais uma pancada de livros do Pynchon!

* * *

Antes de ontem o senhor Thomas Ruggles Pynchon completou 80 anos. Parabéns, esteja onde estiver. E que fique ainda muitos anos entre nós tentando nos fazer ter ideia do tamanho da barafunda que é este mundo.

Quer entrar no espírito? Ainda este ano sai a reedição da tradução do Paulo de O arco-íris da gravidade, obra máxima do cabra. E agora, já em junho, chega O último grito, romance mais recente do mestrão, de novo pela mão do Brittão!

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James JoyceDavid Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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