Em tradução (a tradução alheia)

Caetano Galindo

Agora nas férias eu tirei um tempo, totalmente na marra, pra ler coisas que estavam na fila por vezes tinha meses. Meses mesmo.

Até que rolou.

Por sorte (sorte?) eu leio escandalosamente rápido. O que, por outro lado, sempre acarreta também certa "leviandade". E é bem por isso, na verdade, que eu gosto de traduzir literatura boa. Porque a tradução tem lá seu tempo, e tem toda uma necessidade de "responsabilização" que simplesmente anula a minha possibilidade de ler de relâmpago, sem parar pra pensar direito.

Traduzir me ensinou pacas a ler.

Mas, nas férias, desculpa. Foi veloz.

Mas uma dessas leituras foi, de um lado, mais veloz que as outras. E, de outro, dona de uma temporalidade toda sua.

Quando eu estava terminando o livro, últimas telas do Kindle, a minha mulher olhou pra mim e se assustou com a minha cara. 

Ok, a minha "cara-de-concentração" tende a ser, normalmente, uma coisa horrorosa de se ver. As pessoas por vezes ficam comentando como é bom ter concentração etc… Uma olhada na minha "cara-de-trabalho" mais do que demonstra que, ao menos pra mim, concentração é tudo menos "dom"... capacidade... a minha é simplesmente resultado de força bruta. Aplicada.

Mas a Sandra tá acostumada com isso. Eu preciso me exceder na feiura pra ela se espantar desse jeito.

E aquelas últimas páginas de Lincoln in the Bardo (Lincoln no limbo, em tradução de Jorio Dauster prevista para 2018), de George Saunders, estavam me colocando num estado de profunda perturbação. Eu queria ler, correndo, queria que nada me interrompesse, sentia que se me perdesse ali, se perdesse aquele passo, aquele ritmo, teria perdido algo grandioso demais. Lindo demais. 

E dolorido.

Doloroso demais.

Assim que terminei, e assim que me refiz, escrevi aqui pra editora perguntando com toda delicadeza (ok… nem foi tão elegantemente assim…) se o livro estava comprado, e se tinha tradutor. Assim. Se oferecendo. Descaradamente. Bullying editorial. (Eu posso ser muito, mas muito chato…)

Mas o negócio é que, depois da correria motivada pelo próprio passo da narrativa, pela quantidade de "branco" entre as falas e pela empolgação absurda, pelo gigantesco triunfo técnico e humano que é aquele livro, eu já estava pensando na bênção que seria "ter" que ler tudo de novo, mi-nu-ci-o-sa-men-te… 

Eu, que sempre comparo tradutores literários a intérpretes de música clássica, era como um pianista que ouviu uma peça nova, linda, e sai correndo comprar a partitura pra poder estudar sozinho em casa.

Porque, acredite em mim.

Se literatura fosse como Ginástica Artística, onde as apresentações têm uma nota de partida e saem perdendo pontos, Saunders inventou um romance com uma nota de partida absurdamente alta. Aquilo tinha TODA chance de sair pela culatra de maneiras gloriosas e tonitruantes. Aquilo podia ter dado MUITO errado.

Fantasmas conversando num limbo budista?

Abraham Lincoln abraçando o cadáver do filho?

Mistura de citações acadêmicas e diálogos beckettianos?

E no entanto ele sai galunfante e galhardo da selva selvagem que se inventou. Carrega o leitor no colo e o livro nas costas até aquelas últimas páginas atordoantes. Resolve uma história pessoal excruciante e toda uma imagem política dos Estados Unidos na Guerra Civil. Incorpora (literalmente!) os negros e os oprimidos na figura daquele presidente inapreensível (ninguém chega a um acordo nem sobre a cor dos olhos do cabra!).

Mas, acima de tudo, o livro de Saunders é um dos maiores triunfos da experiência empática, compassiva, na literatura. 

Acima de tudo e, não se esqueça, além de tudo. Pois ele se inventou os maiores desafios formais e ainda conseguiu imbuir aquilo tudo de uma densidade de sentimento, de humanidade, que a gente demora pra encontrar por aí.

Pra mim, até aqui, livro das férias, livro do ano, livro da década.

Mas eu não vou traduzir, ok?

:)

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James JoyceDavid Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
Twitter

 

Neste post