Em tradução (o que eu não posso dizer)

Caetano Galindo

A respeito daquilo que não se pode dizer, deve-se fazer silêncio.

Essa é a minha tradução (improvisada: fiz agora, ok?) da última sentença do Tractatus Logico-Philosophicus de Ludwig Wittgenstein, um dos livros mais importantes que eu li na vida. Veja lá.

Só que não. Só que hoje não.

Hoje eu estou aqui precisamente pra (não) falar de coisas de que eu não posso falar. Tipo coisas que eu fico perguntando pra Taize todo mês: e aí, já pode comentar lá no blog?

E ela não.

E ela nem.

E ela nunca.

:)

Coitada, claro que a culpa está longe de ser dela. Claro, também, que nem há grandes culpas envolvidas no problema todo. A coisa é do jogo. A coisa é da vida.

Eu, que não tenho mais o que fazer da mesma (vida), aparentemente, quero porque quero começar a escrever um monte de colunas aqui neste (blog) sobre um projeto de tradução com o qual eu vou me manter envolvido por meses e meses a fio. Só que, apesar de as negociações entre a Companhia das Letras e os representantes do autor que eu vou traduzir estarem encaminhadíssimas e "definidas", o último contrato ainda precisa ser assinado. 

E, enquanto isso, calemo-nos. 

Calado. 

Caluda.

Wittgenstein estava, claro, pensando num "inefável" que era da ordem do filosófico, quase do místico. Aqui, eu estou às voltas com um "indizível" da ordem do jurídico. (Poucas dimensões mais claras da distância entre a minha esfera sub-granítica e os céus do velho Ludovico…) Mas o fato é que eu não posso falar das coisas de que não posso falar ainda. 

E é da vida. É do jogo.

Isso de botar dois dedinhos do pé esquerdo no mundo editorial faz você ver um belo pedaço (nem sempre "belo", aliás, como em qualquer profissão!) dos bastidores do mundo do livro. Faz você entender melhor como as coisas acontecem, como podem e não podem acontecer. Faz você, inclusive (como diz uma colega a respeito dos cargos administrativos na universidade), parar de reclamar de coisas que agora entende mais completamente (e, não, não eram tão simples quanto a tua vã vaidade em vão supunha!).

Faz você trocar "cartas" com escritores que admira.

Faz você ler vários livros ANTES de eles serem publicados LÁ FORA!

Faz você compreender as minúcias e as mecânicas da produção de livros, da apresentação e da seleção de originais.

Faz você valorizar demais coisas que antes nem sabia que existiam.

Faz você começar a contar os pontos de costura numa dada brochura e os pontos e picas (!) das fontes em uso.

É um grande prazer.

Mas é também saber que escrever livros, traduzir livros (e como!), editar e produzir livros, por mais que possam parecer atividades glamurosas (traduzir? ah tá…), são coisas realmente duras, complicadas, lentas, pragmaticamente bolorentas, ainda que vivas e saltitantes.

E é também saber que (como eu sempre digo aos alunos) que a tradução do título do romance que você tanto adora pode ser uma escolha tanto comercial quanto artística. E que DEVE ser assim. E saber que cumprir prazo é tão importante quanto dar tratos à bola e limadas no verso. E saber que o preço do livro pode ser consequência da produção; mas que também a produção pode decorrer de uma decisão de (teto de) preço.

É saber que há coisas bem maravilhosentas por trás da quarta-capa, lá onde moram os livros não encarnados, onde eles saltitam pelados na garoa fina das campinas do paraíso das letras, felizes como uma ninfa ruiva no primeiro dia da primavera, jubilosos qual viking no cio… 

Mas que se você quiser ver um pedacinho do jardim, por vezes vai ter que assinar um papel que te proíbe de dizer se a grama do vizinho é verdinha mais que a tua!

Mês que vem?

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James JoyceDavid Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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