Em tradução (visibilia)

Caetano Galindo

Pra mim, tudo começou com Péricles Eugênio da Silva Ramos.

Pode ter a ver com o nome sonoro, pode ter a ver com o peso das coisas que ele traduziu (Shakespeare, Melville…). Mas o fato é que ele foi o primeiro tradutor cujo nome eu guardei, e que começou a me servir de "garantia", da qualidade do que eu estava pra ler. 

Todo leitor mais "sério" passa por esse momento, em que se dá conta de que os tradutores existem, e inclusive percebe que de certa maneira um tradutor pode até ser uma certeza de "qualidade" mais confiável do que um autor…? Afinal, se você pensar no mundo de hoje, por exemplo, pode muito bem saber que a tradutora X, que trabalha apenas pra editoras legais (como esta casa) e sempre produziu textos limpos e bem acabados, não estaria envolvida num projeto totalmente furado.

É verdade mais-que-cansada, no entanto, que historicamente os tradutores têm a reclamar de certa "invisibilidade". No nosso caso, isso inclusive se choca com o fato de que se pode muito bem argumentar que a própria literatura brasileira começa com um ato de tradução (Anchieta e seus autos escritos na língua geral da costa), e que o primeiro monumento do português europeu, a Demanda do Santo Graal, também era uma tradução.

(Aliás, essa história é ainda mais divertida, porque o original francês se perdeu, e a nossa tradução, provavelmente feita no século XIII, ganhou ainda mais valor histórico. Além disso, o tradutor ou a tradutora da Demanda para o português era a maior figura, e acabou produzindo o que hoje a gente quase chamaria de uma meta-tradução, ao comentar o original e, vez por outra, até dar uma cutucadas na qualidade do texto que vertia…)

Hoje o cenário está um pouco mudado. Especialmente entre as pessoas que lidam com (e leem) literatura de qualidade. Este mesmo espaço aqui (e especialmente a coluna do Érico, mais antiga que a minha, e muito melhor!) pode contribuir um pouquinho, trazendo à tona o trabalho dessa galera que vive e trabalha nos bastidores.

Iniciativas como o Ditra, como o volume “Conversas com tradutores”, organizado por Adail Sobral e Ivone Benedetti lá em 2003, como o lindo documentário “Quem é Primavera das Neves”, de Jorge Furtado, como o site Poesia Traduzida no Brasil, de Marlova Aseff… isso tudo vem criando leitores mais atentos e, esperemos também, mais exigentes no que se refere à tradução literária.

E não é pouco.

Afinal você provavelmente leu mais tradutores que escritores na vida…

Agora, quem assistiu o documentário sobre Primavera das Neves e ficou lendo os créditos até o final (provavelmente o mesmo tipo de nerd que olha nome de tradutor em tudo que é livro… meu tipo de nerd!), encontrou lá entre outros um agradecimento a Denise Bottmann. Gente com melhor memória, ou QUALQUER um ligado ao mundo do livro no Brasil, conhece a Denise como tradutora mais do que competente, premiada e produtivíssima. Muita gente FORA do mundo do livro pode lembrar do nome dela como a pessoa que desmontou o esquema de "plágio" que permitia que editoras ordinárias republicassem traduções antigas com créditos forjados. Mas nem todo mundo conhece plenamente o site Não Gosto de Plágio, que, apesar de já no seu nome lembrar o escândalo e os processos em que ela se envolveu depois de apontar a peladice de certos reis editoriais, é muito… mas muito mais que isso.

Pra um exército de uma mulher só, aquilo é atordoante.

Não fosse essa mulher a Denise, a gente podia rezar pela saúde dela! Mas ela dá conta.

Dá conta de fazer levantamentos exaustivos de história da tradução. Deste autor. Desta tradutora. Desta editora. Daquele título… E de ir disponibilizando tudo, de graça, pra todos, online.

Há anos.

No meu mundo (fosse eu tradutor ou não), ela mereceria um prêmio e uma bolsa pra fazer isso. No mundo de você, que está lendo, ela certamente merece uma visita, na qual vai ter bem mais a te oferecer que um bolo e um cafezinho.

Vai lá.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James JoyceDavid Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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