Entrevista: George Saunders (Parte 1)

Por João Lourenço

George Saunders é um dos principais nomes da literatura norte-americana atual, principalmente quando falamos de contos. Em Dez de dezembro, lançado no Brasil em 2014, seus dez textos formam um vasto painel da vida contemporânea, apresentando nossas neuroses, comédias de erros, relações amorosas e outros traços da realidade do século XXI. Premiado e aclamado por sua prosa breve — ele é professor na oficina de escrita criativa da Universidade de Syracuse, uma das mais respeitadas do país —, Saunders lançou no início de 2017 seu primeiro romance, Lincoln in the Bardo, que deve chegar às livrarias brasileiras em outubro. A seguir, leia a primeira parte da entrevista com o autor. 

* * *

Ainda sem levantar da cama, me arrependo de ter aceitado as doses de vodca e tequila que o Sam Shepard tinha me oferecido na noite anterior, em um speakeasy perto da Broadway. Após muito esforço, me levanto, me arrumo e pego um táxi para a Madison Avenue. A cidade ainda está vazia. A ameaça do furacão Joaquin parece ter expulsado as pessoas das ruas — e a ventania quase leva o meu Fedora. No caminho, penso que só mesmo um autor como George Saunders, autor de Dez de dezembro, para me tirar da cama em um domingo de manhã. Chego ao hotel em que ele está hospedado e fico aliviado em perceber que não sou o único que está de ressaca. Nos encontramos no lobby. Saunders me cumprimenta como se fôssemos amigos de longa data. Ele elogia o meu chapéu e diz que está pensando em comprar um parecido. Seguindo para o restaurante do hotel, conta sobre o show de rock alternativo que assistira no sábado à noite. Pedimos café e começamos a conversar sobre música, assunto que ele afirma ser uma de suas maiores inspirações. “O problema é que quando encontro um artista de que gosto muito eu não consigo ouvir mais nada. Quando comecei como escritor, tinha em mente que talvez algumas bandas que idolatrava poderiam um dia ler meus livros. Isso era um incentivo, pois não queria decepcionar esses futuros leitores. Tive um longo affair à distância com a banda Wilco. Sempre gostei muito do som deles, então tinha a esperança de escrever algo que um dia eles iriam ler e gostar.”

Saunders conta sobre outras obras que tiveram bastante influência em sua ficção, como a canção "On the Transmigration of Souls", assinada pelo compositor John Adams, em homenagem às vítimas do atentado de 11 de setembro. Já estamos no segundo café e o assunto sobre música continua. Ele faz um comentário sobre a canção que está tocando no restaurante. Diz que música em espaços públicos deve ter uma função além de simplesmente mascarar o vazio. Concordo com o comentário dele, mas percebo que se continuarmos naquele ritmo não vamos conseguir chegar à entrevista. Então, sugiro um lugar mais tranquilo e voltamos para o lobby com nossas xícaras de café. O problema é que Saunders já tinha feito o check out e o clima lá fora não estava nada convidativo. Descemos uma escada em formato de caracol sem saber para onde ela iria nos levar. Tudo estava escuro, mas com o auxílio da lanterna do celular achamos o interruptor e, diante de nós, tinha uma sala de eventos vazia, pronta para ser usada. Finalmente, quase uma hora após nos encontrarmos, começamos a entrevista.

Você nasceu no Texas, mas foi criado em Chicago, durante um período em que a cidade passava por várias mudanças políticas e sociais. Naquele tempo, quem ou o que teve maior impacto criativo na sua formação? 

Foi uma combinação. Meu pai, por exemplo, não frequentou a universidade, mas era um leitor voraz. Quando eu tinha 10 anos, ele me presenteou com uma cópia de O príncipe, do Maquiavel. A partir de então, meu pai foi aquela pessoa que me apresentou a todos os tipos de leitura e literatura. Ele costumava deixar livros espalhados pela minha cama. Ele também era um ótimo contador de histórias. Várias pessoas da minha família se sentavam ao redor dele só para ouvir as suas histórias. Esse foi um dos momentos em que percebi o quanto a linguagem é poderosa. 

Em seguida, fui para uma escola católica e, lá, encontrei uma freira por quem me apaixonei. Ela também foi uma grande influência. Certo dia, isso ainda na terceira série do fundamental, ela me deu um livro chamado Johnny Tremain, um YA sofisticado, lembro que tinha uma linguagem diferente de tudo que estava acostumado a ler. Ela me disse: “Esse é um livro complicado, mas acho que você vai dar conta”. Lembro que queria ler e entender a história para impressionar a minha professora, afinal, eu estava apaixonado. De fato, foi um livro difícil de ler, não me interessei pelo enredo, mas pela linguagem. Acredito que se você tem o cérebro ligado para a linguagem, mais cedo ou mais tarde vai se deparar com os mecanismos da língua. Às vezes, você tem que procurar, enquanto em outros casos isso é mais natural. 

Hoje, ensino escrita criativa na Universidade de Syracuse e percebo que alguns alunos saíram daquelas escolas incríveis da Ivy League com um ótimo background e outros não chegam com muita bagagem — geralmente são pessoas que lutaram muito para entrar no programa. Acho interessante essa mistura de pessoas. De certa forma é um experimento, pois cada ano escolhemos apenas seis pessoas para o nosso curso e elas podem vir de qualquer lugar: primeira geração de americanos, de famílias quebradas etc. No fim, nada disso importa. O que importa para mim e para os meus alunos é a linguagem, aperfeiçoar a linguagem e ser capaz de contar uma boa história, e essa paixão pela língua eu devo ao meu pai.  

Além dele, minha mãe também foi uma grande influência. Ela era do Texas, muito gentil e generosa. Meus pais se conheceram e se mudaram para Chicago. Lincoln in the Bardo, meu primeiro romance, carrega as características dos meus pais: as piadas de humor negro dele e a paciência e a compaixão dela. Tive muita sorte. Eu estava em Chicago, no lado sul da cidade, onde vivia a classe média trabalhadora. Chicago ainda era a grande cidade americana. Tenho que admitir que, após a terceira série, mesmo com as influências da professora por quem fui apaixonado, parei de ler por bastante tempo. Voltei a ler na adolescência, mas nada muito sério. Não queria ir para a universidade, não pensava em ler clássicos, nada disso. Eu queria mesmo era tocar em uma banda. Ainda toco guitarra.

Antes de chegar em Syracuse, você passou pela Escola de Minas do Colorado, onde se especializou em Geofísica. Como isso aconteceu?

Quando estava terminando o colégio, decidi que não iria para a universidade e, então, parei de ler e me preocupar com os estudos. Porém, um professor viu algo em mim e, por conta dele, ao invés de ficar insistindo em uma banda de rock fracassada, fui para Denver estudar engenharia e outros assuntos em que nunca tive muito interesse. Ainda não sei como isso aconteceu. No entanto, essa mudança de cenário ajudou a abrir minha mente, percebi o quanto eu era um adolescente preguiçoso e egoísta. E, de repente, lá estava eu em um curso competitivo, longe de casa, estudando uma matéria que até hoje não é algo natural para mim.

Após a faculdade, você foi trabalhar em um campo de petróleo na Ásia. Como foi essa experiência?

Foi ótimo. Até então nunca tinha deixado o país. De certa forma, estava tentando ser como Hemingway, explorando lugares desconhecidos, longe da minha realidade. Porém, foi no tempo que passei trabalhando como geofísico, em Sumatra, que voltei a ler com seriedade. Não tinha muito o que fazer, afinal, estávamos no meio do nada e tínhamos que trabalhar por quatro semanas seguidas. Era como uma prisão. Então, voltava do trabalho e me trancava no meu bunker e lia tudo que encontrava pela frente, coisas que não teria lido em outras circunstâncias. Foi um período de educação sentimental e intelectual. Além da literatura, abri os olhos para tudo que estava acontecendo naquele canto do mundo. Depois de trabalhar por quatro semanas, tirava férias e viajava para lugares ainda mais remotos. Fiz muita besteira, como, por exemplo, tentar atravessar as fronteiras do Afeganistão e Vietnã. No fundo, não sabia o que estava fazendo. Era uma mistura de tédio e insatisfação, um sentimento de que estava desperdiçando meu potencial. Entre trabalho e férias intensas, fiquei muito doente e voltei para os EUA.

Por que a ficção? Quando você decidiu ir atrás de transformar essa paixão juvenil em profissão? 

Após minha viagem para a Ásia, voltei para os EUA e estava um pouco perdido. Fiquei viajando pelo país sem saber direito aonde ir. Passei um tempo em Los Angeles, mas não conseguia escrever nada muito sério. Logo, percebi que a minha formação e experiência de vida não iriam sustentar meus sonhos. Foi um período de bastante medo e incerteza. Acabei voltando para Chicago e fui morar com uma tia. Tudo parecia desmoronar, afinal, eu tinha 25 anos, um diploma universitário e estava trabalhando como ajudante de obras — basicamente eu era responsável pela manutenção de telhados. Confesso que tinha um pouco de vergonha de estar fazendo aquilo, longe das minhas ambições. Alguns anos depois, levei uma daquelas rasteiras da vida, aquele momento em que você não pode mais fugir do que tem que fazer. E a minha opção, a única opção, era escrever. 

Em seguida, você foi aceito no programa de escrita criativa de Syracuse, um dos mais competitivos do país. Fale um pouco sobre esse período. 

Foi uma adaptação difícil. Cheguei lá acreditando que os alunos e professores iriam estar interessados em minhas histórias, mas estava enganado. Antes de ir para Syracuse, passei um um tempo em uma cidadezinha do Texas chamada Emerald, que é basicamente um lugar no meio do nada que só tinha frigoríficos. De repente, lá estava eu em Syracuse, aceito em um programa concorrido, ao lado de estudantes melhores do que eu. Em comparação a eles, minha leitura estava atrasada, eu era um amador rodeado por pessoas que tinham diplomas em letras e literatura. No começo, foi um pouco vergonhoso, mas o bom de não ter tido essa base é que eu tinha muito mais liberdade na hora de criar, pois não cheguei lá com uma voz, sabendo qual era meu material. Então, apesar do choque inicial, acredito que consegui brincar muito mais com as minhas possibilidades do que aqueles que já chegaram lá quase prontos. 

Nomes como Raymond Carver e Tobias Wolff ajudaram a elevar o nome do programa de escrita criativa de Syracuse. Hoje, além de Dana Spiotta e Mary Karr, o programa costuma ser associado ao seu nome. Em geral, como Syracuse ajudou na sua formação como escritor?

Entrei no programa por meio de um conto engraçado. Logo, fiquei preso ao rótulo de escritor engraçado, porém, não me enxergava daquela forma, não sabia como fazer o rótulo funcionar. Então, tive a sorte de conhecer o escritor Tobias Wolff. Além de um grande escritor, ele é um grande homem. Melhor do que ninguém, ele entendeu meu deslocamento e percebeu as direções que eu estava tentando tomar. Foi ele quem colocou os livros certos em minhas mãos e também quem me ajudou a perceber que ser engraçado não significa ser menos sério. Antes desse conselho, ainda acreditava que literatura precisava ser exclusivamente séria. A verdade é que não tinha lido o suficiente para entender que, na verdade, ser engraçado requer muito trabalho e dedicação. A maior revelação que tive também foi por meio do generoso Tobias. 

Certa noite, ele me convidou para acompanhá-lo em uma leitura que iria fazer diante de um grande público. Ele escolheu ler a Trilogia do Amor. Eu já tinha lido Tchekhov, mas acho que até então não tinha entendido muito bem. Então, Tobias chega nesse lugar lotado e lê o texto com uma voz tão carregada de nuances. Tobias leu de uma forma tão engraçada. O público foi ao delírio, todo mundo rindo e aplaudindo. Essa foi uma das experiências mais marcantes que já tive. Eles estão rindo, pensei em voz alta. Então, finalmente entendi que literatura pode ser engraçada e relevante ao mesmo tempo. Naquela noite, cheguei à conclusão de que a literatura é, sim, a melhor forma de entretenimento, aquela que mexe com sentimentos que talvez você nem saiba que existam.

Além de todas as descobertas que Syracuse te proporcionou, foi lá que você conheceu Paula Redick, com quem se casou e teve duas filhas. Tudo aconteceu muito rápido, foram apenas algumas semanas entre o primeiro encontro e o casamento…

Foi ótimo! Lembro que, antes de chegar em Syracuse, tinha um plano todo detalhado. Não iria namorar ou pensar em casamento ou muito menos criar família. A ideia era chegar no programa e trabalhar no meu primeiro livro. Então, chego lá e em três semanas já estava noivo da Paula. Foi tudo inesperado, ainda é difícil encontrar palavras para descrever como tudo aconteceu. Lembra aquele filme do Tom Cruise (Jerry Maguire), em que ele fala: “You complete me”? Foi mais ao menos como aquilo, foi uma grande troca. Tinha coisas que precisávamos aprender um com o outro. Quando a conheci, ela tinha saído recentemente de um casamento com um homem muito rico. Paula tinha um tipo de sofisticação e classe que era bastante intimidador para mim, afinal, eu era o oposto da sofisticação. Nos conhecemos no mesmo programa de escrita e, desde então, nunca mais nos desgrudamos. Na verdade, essa é a primeira vez, em 27 anos de casamento, em que estamos passando um tempo separados geograficamente, porque enquanto ela está na Califórnia, eu estou em Syracuse, e estamos tentando terminar nossos livros.

Assim como você, Paula Redick escreve e ministra aulas e workshops de ficção. Como funciona essa dinâmica?

Parece bobo dizer isso, mas ela é uma grande fonte de inspiração. Quando estou trabalhando em um novo conto, tenho a tendência de tentar impressionar. Assim, às vezes abuso de sentimentos baratos. É assim que a Paula entra em cena, puxa minha orelha e aponta para o que sente que está errado. Muitas vezes eu ouvi ela dizer: “O fim desse conto é uma grande mentira.” Fico decepcionado comigo mesmo, claro, porém é essa troca que me faz ser um escritor melhor. Ela me conhece muito bem e sabe o que funciona e também aponta os defeitos. No entanto, ela não edita nada do que escrevo, são apenas comentários que me ajudam muito, pois se o que estou querendo dizer no papel causa emoção nela, então sei que estou no caminho certo. 

Além da literatura, ela é responsável por ter ajudado a me transformar em um ser um humano mais decente. Olho em retrospecto e percebo como era uma pessoa egoísta quando a conheci. Ela também me ajudou a entender melhor minhas visões políticas. De certa forma, ela sempre funcionou como líder dentro de nossa casa. Sem querer soar como um velho meloso, o que tenho com a Paula é bastante raro. Hoje, vivemos em um tempo de muito materialismo, onde as trocas costumam ser rasas, como “estou com você só até cansar”. Infelizmente, quando era mais novo ninguém me disse que monogamia pode ser incrivelmente erótico e recompensador. É excitante e espero que minhas filhas tenham a mesma sorte que nós tivemos. Nada é mais intenso do que dizer: “apenas você pelo resto da minha vida”. Ok, agora acho que isso soou muito meloso, mas você entendeu. 

* * *

Leia a segunda parte da entrevista com George Saunders. 

* * *

João Lourenço é editor at large da revista semestral *ffwMAG* e escreve sobre cinema, literatura, música e comportamento para publicações como Harper’s Bazaar, ABD Conceitual. Atualmente, ele planeja lançar uma revista literária independente nos EUA e está terminando de escrever uma coletânea de contos.

 

Neste post