Entrevista: George Saunders (Parte 2)

Por João Lourenço

Na última semana, publicamos aqui no Blog da Companhia a primeira parte da entrevista com o escritor George Saunders, autor da coletânea de contos Dez de dezembroSaunders lançou no início do ano Lincoln in the Bardo, seu primeiro romance, que está previsto para chegar no Brasil em outubro. Na primeira parte, Saunders falou sobre o início da carreira como escritor e sua experiência na oficina de escrita criativa da Universidade de Syracuse. A seguir, confira a segunda parte desta conversa.

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Certa vez, Don DeLillo me disse que escrevia para a página em branco. Disse que é importante não pensar em um leitor específico enquanto escreve. E você, para quem escreve? 

É engraçado como os escritores costumam dizer a mesma coisa de formas diferentes. Para mim, esse é o modelo que funciona. Escrevo pensando em me surpreender. Quando releio o que escrevo, tento fingir que não sei de nada do que está acontecendo. No começo é difícil, mas logo você começa a acreditar que aquilo não é seu. Então, uma energia te atinge, como se você tivesse um medidor que começa a mapear o texto, o que ajuda, então, a compreender os pontos positivos e negativos da história. Esse medidor também é importante para distinguir se aquele texto é mesmo você ou uma reprodução de algo que gostou. 

Escrevo pensando em minhas preferências pessoais, mas tenho em mente que aquilo também possa ser interessante para o leitor. Quando melhoro o texto, espero que o leitor perceba mesmo não tendo conhecimento do que foi melhorado. Trata-se de uma comunicação invisível entre eu e o leitor. 

Antes da próxima questão, Sanders pergunta se estou interessado em ouvir um acontecimento que exemplifica a sua visão sobre a relação entre autor e leitor. 

Não tenho como escrever para você, pois não te conheço, mas posso escrever para a minha melhor versão. Veja só, outro dia estava em um restaurante tailandês e um homem entrou bêbado, andando por todos os lados. Ele tropeçou e quase derrubou uma grande estátua de Buda. Todo mundo ficou chocado e sem saber o que fazer. Em seguida, o gerente apareceu, mas, ao contrário do que costuma acontecer nessas situações, ele foi gentil e tentou ajudar o homem que, naquele momento, já estava em um estado deplorável. O gerente o acompanhou até a porta do banheiro e ficou esperando sem demonstrar qualquer desconforto. Em seguida, ele acompanhou o sujeito calmamente até a saída do restaurante. Em casos assim, o gerente poderia ter feito uma grande cena, chamado a polícia ou os seguranças do local. O que quero dizer com esse acontecimento é que quando o gerente manifestou esse grande nível de humanidade e respeito, todo mundo no restaurante se apaixonou por ele. Escrever é mais ou menos assim: quando reviso inúmeras vezes o texto e identifico as qualidades e defeitos, mais cedo ou mais tarde vou manifestar a minha melhor versão e, então, espero que a melhor versão do leitor também venha à tona.

Ao contrário da relação com o leitor, o contato com os alunos é mais direto e imediato. Quais as vantagens e desafios em ser um professor de "ficção"? 

O convívio com meus alunos me ajuda a ser uma pessoa melhor, mais feliz. É contagiante estar em contato direto com jovens talentos. Não vejo talento como algo físico. Geralmente, pessoas da minha geração costumam reclamar de pessoas da sua idade — olha, estamos aqui, você tem 25 anos, tenho idade para ser seu pai, mas estou adorando esse momento. O que quero dizer é que há um espírito maior que nos une, algo além da idade. Mesmo após todos esses anos, estar em sala de aula ainda é um mistério para mim. Tento lembrar que não posso encaixar as aulas em um determinado sistema. Não há como pensar em regras quando um aluno chega com uma história extremamente pessoal. Então não posso interferir com muitas concepções e regras. Escrever não é uma ciência exata. Tudo funciona de um modo mais holístico. Tento entender a pessoa, o individual, antes de ajudar o aluno ou o escritor em formação. Faço perguntas sobre a infância, peço para imitarem o jeito de falar da mãe, do pai, dos tios, irmão etc. Não tem como julgar ou auxiliar o trabalho de um aluno quando não entendo as suas origens.

Nos EUA, o mercado de revistas literárias é muito grande. Recentemente, percebi que até títulos de gastronomia e moda têm espaço para contos de novos autores. No Brasil, a situação é diferente — não temos muitas opções de revistas literárias. Além disso, contos, em geral, não são um formato muito popular. Mesmo em países em que o nível dos leitores é elevado, como Inglaterra e França, não vejo muitos autores trabalhando em contos. A ideia de conto contemporâneo está muito ligada ao mercado americano. O que você tem a dizer sobre isso?

Concordo com esse argumento. Não vejo muitos autores estrangeiros trabalhando em coletânea de contos. Com exceção da Irlanda, não consigo pensar em outro lugar com autores que se dedicam muito a esse formato. A ideia de conto que temos hoje é um formato bem americano. Assim como existe uma grande demanda por música pop aqui nos EUA, o mesmo acontece com esse formato de narrativa curta. Assim, temos programas de escrita criativa espalhados por todos os cantos do país. Em alguns lugares, os alunos recebem dinheiro, além de incentivos como moradia, para estudar por cerca de três anos. Ao contrário do romance, o conto pode ser aprendido e discutido em sala de aula. Isso não quer dizer que o conto é um estilo menor, mas simplesmente mais fácil de ser trabalhado — seria estranho trabalhar a criação de um romance em sala de aula.

Quais contos você recomendaria para aqueles que ainda torcem o nariz para esse tipo de narrativa?

Uma forma de prestar atenção em contos é pensar neles como uma canção. Em uma canção você geralmente não tem acesso a toda história. Ou seja, você não espera seguir os personagens nas próximas faixas do disco. Não tem como saber o que aconteceu com eles e o mesmo acontece com os contos. Ao invés de seguir toda uma trajetória, você acompanha apenas um momento interessante na vida dessas pessoas. Diria que o conto é uma dessas coisas que você precisa fazer um esforço no começo para, depois, entender e se apaixonar. Conto é meio como o jazz, você não se acostuma com aquele som logo na primeira vez que ouve. Para quem não costuma ler contos, recomendo qualquer coisa do Tchekhov, com destaque para a Trilogia do Amor, e um conto chamado "Lady With The Pet Dog". Tobias Wolff tem uma história pequena, "Bullet In The Brain", que costuma agradar a todos. Denis Johnson também é outro mestre da forma, porém, alguns de seus contos são muito experimentais para quem não está acostumado ou não gosta de contos, mas recomendo muito o "Jesus’s Son". Não pode faltar uma mulher e, claro, tem que ser Alice Munro — procure pela primeira coleção de contos que ela lançou, Dance with the Happy Shades. Essa é uma boa questão e já que estou aqui nessa missão de tentar converter alguém, não posso deixar de mencionar a bíblia, os contos de Cathedral, do Raymond Carver.

Lincoln in the Bardo é o seu primeiro romance. Até então você apenas tinha publicado coletâneas de contos e um livro infantil. De contos para romance, como foi essa transição?

Foi prazeroso ficar tanto tempo no mesmo projeto. Trabalhei quatro anos em Lincoln in the Bardo, mas, na verdade, a história já borbulhava em meus pensamentos há mais de 20 anos. Durante esse longo projeto, tive a oportunidade de brincar com diferentes estilos, estruturas, então foi como resolver um problema pela primeira vez — em alguns momentos, senti que tinha 28 anos novamente, quando comecei a escrever contos seriamente. O livro se passa durante a Guerra Civil Americana, mas, entre os personagens, há fantasmas, então é uma mistura de sci-fi com romance histórico tradicional. O bom de fazer algo diferente é que, nesse ponto da minha vida, corro aquele risco de ficar muito satisfeito comigo mesmo, aquela coisa da zona de conforto, pois, às vezes, não tem como escapar disso. Após muito tempo repetindo a mesma coisa, entramos em uma rotina e seguimos as mesmas regras e isso não é arte. A boa arte é aquela em que não sabemos exatamente onde vamos chegar — e Lincoln in the Bardo me proporcionou esse sentimento. Ao terminar o romance, percebi que a grande diferença é que quando escrevo um conto eu só consigo acompanhar os personagens até a estação, enquanto que, no romance, tenho a possibilidade de embarcar com eles no trem e espero que o leitor embarque comigo. 

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João Lourenço é editor at large da revista semestral *ffwMAG* e escreve sobre cinema, literatura, música e comportamento para publicações como Harper’s BazaarABD Conceitual. Atualmente, ele planeja lançar uma revista literária independente nos EUA e está terminando de escrever uma coletânea de contos.

 

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