Era uma vez uma mulher

Por Raquel Toledo

Liudmila Petruchévskaia pode não ser o primeiro nome que vem à mente quando a conversa envereda para o mundo da literatura russa, mas isso está prestes a mudar. Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha, coletânea de contos de Petruchévskaia lançada na Rússia em 2009, é publicada agora pela primeira vez no Brasil (em ótima tradução de Cecília Rosas), e nos mostra porque ela é considerada a maior escritora russa viva desde Aleksandr Soljenítsin e um nome importantíssimo da literatura contemporânea mundial.

Se até agora você nunca havia ouvido falar dela, não se sinta mal. A triste verdade é que não estamos acostumados com mulheres escritoras quando se trata de prosa do leste da Europa. Todavia, não se engane: as prosadoras russas sempre existiram e estão começando a aparecer no Ocidente, como no caso evidente de Svetlana Aleksiévich. Mas isso é tema para outro texto.

Nascida em Moscou em 1938, no seio de uma família de bolcheviques dissidentes, Petruchévskaia conheceu desde cedo as privações do período stalinista. Precisou se mudar algumas vezes na primeira infância, mas voltou definitivamente a Moscou aos nove anos. Começou a escrever ficção aos 32 anos, publicando em revistas e em samizdat, publicações clandestinas, muitas vezes caseiras e até manuscritas, que circulavam driblando a censura. Liudmila fez sucesso entre os leitores e chamou a atenção dos censores, que a perseguiram e a impediram de publicar. Dedicou-se então à dramaturgia, pois, segundo a própria autora, no teatro a reprimenda era mais branda. Apesar disso, nunca deixou de escrever contos e novelas inspirados nas histórias que ouvia, nas conversas com amigos, e foi guardando tudo para um momento de liberdade. Esse tão esperado momento só veio bem depois, com a glasnost e a perestroika, aberturas que possibilitaram a reabilitação de vários escritores até então proibidos, como a própria Petruchévskaia e o autor de Doutor Jivago, Boris Pasternak.

Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha reúne alguns desses contos, narrativas curtas, intensas e assustadoras. A mistura de elementos místicos e alegóricos a uma prosa refinada ilumina as condições sombrias da Rússia soviética e pós-soviética. O ambiente claustrofóbico da floresta coberta de neve ou dos minúsculos apartamentos urbanos coletivos, divididos entre famílias e gatos, é povoado por órfãos, viúvas, pessoas de luto, inconformados, desajustados de todo tipo. Observe os personagens de perto, sua complexidade: há perda, infelicidade, azar, falta de recursos, porém há também resiliência, total clareza diante da realidade social (“essas coisas acontecem: a pessoa desaparece”, já diria o narrador de “A sombra da vida” ao nos contar de uma garotinha cuja mãe sumiu). E há, máxime, uma decisão por sobreviver e insistir, marca tão distintiva do caráter do povo russo. Existe certa força lá, algo único, como na personagem do conto “Tem alguém em casa”. Nele, uma mulher cujo nome não sabemos mora sozinha numa grande cidade e decide colocar a casa abaixo ao desconfiar da existência de um poltergeist em seu apartamentinho, assustando sua gata Lialka. Não resta pedra sobre pedra: memórias da mãe, do trabalho, do ex, a televisão outrora tão amada. Sobra essa mulher, a gata, uns discos, um armarinho cheio de livros que ela mesma não sabia que tinha. Sobram os próprios pensamentos: acabar logo com tudo ou recomeçar?

O brilho humano se destaca diante da crueza do cotidiano.

A raiz da ficção de Petruchévskaia está no mais profundo e mágico imaginário russo e segue a tradição dos grandes escritores: saber ouvir e saber enxergar as nuances do comportamento humano, o detalhe que faz toda a diferença num conto, a criação de um personagem tão real que se faz próximo do leitor, mesmo quando se lê hoje, aqui, numa realidade tão diferente da soviética/pós-soviética (será?). E tudo isso sem esquecer a riqueza da tradição: os contos de fadas, as florestas encantadas, os entes que voltam do mundo dos mortos para consolar os que choram são pano de fundo para que se conheça a época em que os contos foram escritos. A literatura russa, de seu período clássico até hoje, é como uma corrente cheia de elos que se espalham nas mais diferentes direções. Petruchévskaia colocou o seu elo ao lado de grandes nomes do conto, como Anton Tchékhov, e do gênero fantástico, como Nikolai Gógol.

A grandeza de Petruchévskaia é evidente nessa coletânea, que é um ótimo caminho para conhecer a literatura russa, e a própria Rússia, de agora.

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Participe dos eventos de lançamento de Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha: 

Rio de Janeiro - Quinta-feira, 18 de janeiro, às 17h30 - Livraria da Travessa Botafogo (Rua Voluntários da Pátria, nº 97)

São Paulo - Sexta-feira, 19 de janeiro, às 19h - Teatro Eva Herz na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073)

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Raquel Toledo é paulistana, professora e editora. Trabalha também com formação de leitores adolescentes em escolas da capital paulista, afinal acredita que ler Tchekhov resolve 99% dos problemas da humanidade. Fascinada pela Rússia e, principalmente, sua literatura, tornou-se mestre em literatura russa pela Universidade de São Paulo. No ano da Copa na Rússia, escreve mensalmente para o Blog da Companhia sobre literatura russa. 

 

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