Escuridão e luz

Raquel Toledo

Por Raquel Toledo

Quando comecei a estudar russo, ouvi uma história bem emblemática que envolvia Liév Tolstói e Vladimir Nabokov e nunca mais me esqueci. Até hoje não sei se o que vou contar aqui é verdade, mas a verossimilhança me basta: numa de suas aulas sobre literatura russa em universidades americanas, o professor Nabokov aguardava os alunos com as luzes da sala de aula apagadas e as janelas cobertas por tecidos. Depois que os alunos se sentaram, ele, aos poucos, começou a citar escritores: “Púchkin”, e descortinou uma pequena parte da janela. Pouca iluminação chegou aos alunos. “Gógol” – arrancou mais um tecidinho e a sala ainda estava escura. “Turguêniev”, “Dostoiévski”, “Tchekhov”, e o procedimento se repetia, mas a sala ainda não estava iluminada. Finalmente, o professor retirou de uma vez o grande tecido que restava, iluminando toda a sala, fazendo com que os alunos retraíssem os olhos, como quando somos acordados com a luz do sol na cara: “Isto é Tolstói”.

Nabokov não foi o único que demonstrou fascinação diante do gênio de Tolstói. Recentemente, Mario Vargas Llosa publicou um artigo no El País em que comentava sua releitura de Guerra e paz, um dos livros mais importantes do autor russo.

Guerra e paz assemelha-se ao que há de mais clássico nas narrativas: uma epopeia em torno de núcleos familiares. As epopeias exemplares da história da literatura preocupam-se, antes de tudo, com a valorização do herói. Tolstói, claro, não repete os modelos homéricos do gênero e escreve, de 1863 a 1869, um livro que transita entre a ficção e a pesquisa histórica sem enaltecer os heróis famosos da trama, como Napoleão Bonaparte, que é personagem fundamental no enredo. Mas vamos abrir uma matriochka de cada vez.

 A obra nos apresenta especialmente três famílias, os Rostóv, os Bolkonski e os Bezúkhov, cujos herdeiros serão os personagens centrais: os irmãos Nikolai Rostóv e Natacha Rostova (sim, em russo os sobrenomes têm variações masculinas e femininas), Andrei Bolkonski e Pierre Bezúkhov, todos fruto da imaginação de Tolstói, e que vivem no Império Russo durante o período das invasões do Império Francês. No bojo da longuíssima pesquisa histórica sobre a qual o autor se debruçou, personagens e acontecimentos reais do período fazem parte do enredo, entre eles o já citado Napoleão, o general russo Mikhail Kutúzov e o czar Alexandre I. Também conflitos históricos são descritos, como a batalha de Austerlitz e a invasão malsucedida das tropas napoleônicas à Moscou devastada em pleno inverno russo.

Justamente com esse misto de história e ficção, Tolstói nos envolve através de seus personagens bem elaborados, obrigando-nos, curiosos, a avançar na leitura sem perceber que já chegamos à milésima página, literalmente. Como os americanos costumam dizer, é um verdadeiro page-turner, porém, do século XIX.

A faceta de exímio contador de histórias é só uma das características de Tolstói que brilham em Guerra e paz. Rubens Figueiredo, tradutor incomparável e inesgotável, nos conta em sua apresentação que o autor se dedicou a pesquisar detalhes do período napoleônico para escrever o enredo. Tanto pesquisou que decidiu que discordava da forma como a historiografia tratava os assuntos do passado europeu. E então um Tolstói contestador aparece. Guerra e paz é também a defesa de uma visão histórica: líderes perfeitos, como os historiadores do século XIX faziam questão de retratar, são substituídos no enredo por homens reais, com falhas e acertos, homens que são apenas parte de um todo. O curso da história humana não é, para Tolstói, fruto das ações de grandes líderes, mas a conjunção das vontades de muitos homens e mulheres comuns.  

Contestador é um dos adjetivos que mais gosto de ligar a Tolstói. Ele enfrentou os cânones da educação na Rússia quando abriu escolas para camponeses em sua propriedade. Em vez de despejar o conteúdo tradicional em seus alunos, deu a eles papel, lápis e liberdade de criação. Enfrentou a Igreja Ortodoxa, da qual foi excomungado em 1901. Enfrentou até a própria esposa, quando decidiu abrir mão dos royalties da venda de sua obra. Ainda assim, como os personagens que retratou em Guerra e paz, Liév Tolstói não era um deus repleto de toda sabedoria, como nos mostram seus ensaios que deram margem ao “tolstoísmo”, e até seu comportamento, como quando fugiu de casa aos 82 anos sem demonstrar muita sensatez.

Se nem santo e nem homem comum, talvez a melhor forma de explicar a grandeza deste escritor e de sua obra seja mesmo pela metáfora performática de Nabokov, pois deixar-se envolver por textos de Tolstói – sejam eles quais forem, mas principalmente seus grandes romances – é como, depois de tanta escuridão, voltar a enxergar.

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Raquel Toledo é paulistana, professora e editora. Trabalha também com formação de leitores adolescentes em escolas da capital paulista, afinal acredita que ler Tchekhov resolve 99% dos problemas da humanidade. Fascinada pela Rússia e, principalmente, sua literatura, tornou-se mestre em literatura russa pela Universidade de São Paulo.

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