Fantasmas na Antártida

Claudio Angelo

por Claudio Angelo

Uma presença constante e discreta na base brasileira na Antártida é um cidadão inglês conhecido como Johnny. De estatura média e cabelos claros, ele não frequenta as listas de pesquisadores, nem integra os grupamentos militares que se revezam anualmente no local. Mas está lá todo ano, o ano todo. E “presença” é mais ou menos o termo: Johnny é um fantasma.

Trata-se, dizem, de um dos quatro britânicos que morreram no século passado no lugar onde foi construída a estação Comandante Ferraz. Ali funcionava uma base inglesa com o sugestivo nome de Ponto G. Três dos bretões cujas cruzes até hoje adornam a vizinhança da base aparentemente desencarnaram em paz e foram tomar gim noutro plano. Johnny ficou. Deve preferir caipirinha.

Vários cientistas e militares da Marinha já tiveram encontros com o espectro. Não se sabe se há alguma relação com o nome antigo da base, mas fato a maior parte dos relatos vem de mulheres. Uma pesquisadora jurou que certa vez dormiu sozinha em um dos módulos montados na península que abriga a estação – e acordou com a certeza de estar com um homem loiro em sua cama. Johnny sabe das coisas. Decerto não queria passar frio.

Pelo andar da carruagem moto de neve, em breve Johnny não será mais o único espectro a frequentar aquelas bandas do sexto continente. A pesquisa polar brasileira, como o restante da ciência no país, anda morre-não-morre.

A recessão e a total falta de prioridade para a ciência e tecnologia do governo federal desde 2011 vêm produzindo corte orçamentário após corte orçamentário em todas as áreas de pesquisa. Há institutos que não repõem máquinas quebradas; há institutos sem condição de manter animais de laboratório; há institutos cujos professores fazem vaquinha todo mês para pagar a conta da internet; e há a ciência antártica.

Uma carta enviada em março por 17 líderes científicos do Programa Antártico Brasileiro (Proantar) ao ministro da Ciência e das Comunicações, Gilberto Kassab, resume a situação: há zero real para projetos de investigação na Antártida no ano de 2019. Há zero real para a manutenção do módulo automatizado instalado pelo Brasil no interior do continente, a mil quilômetros do polo Sul. O último edital lançado para bancar estudos polares é de 2013. Quando o último laboratório usar a raspa do tacho dessa grana para comprar o último tubinho de reagente, zéfini.

E, se sobrar algum troco no fundo do pote, será por uma razão perversa: há cada vez menos gente fazendo pesquisa, porque não há dinheiro para as bolsas. Somente o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, um consórcio de instituições dedicadas ao estudo das regiões geladas do mundo, já perdeu quatro pós-doutorandos para instituições no exterior e precisou, neste ano, dispensar dez estudantes.

FOTO: Colin Rex / Unsplash

A situação fica ainda mais bizarra quando se considera que, em março do ano que vem, o Brasil vai inaugurar sua nova estação Comandante Ferraz. O complexo substituirá a antiga base, totalmente arrasada num incêndio em 2012. São instalações de última geração, construídas por uma empresa chinesa por R$ 300 milhões. Se a situação orçamentária do Programa Antártico não se resolver, e há poucos sinais de resolução no horizonte – o melífluo Kassab prometeu pingar R$ 7 milhões no programa, um terço do que os cientistas dizem ser necessário –, vamos inaugurar uma base-fantasma.

Eu estive no local da estação destruída em 2014, e reconstituí o drama do incêndio, que matou duas pessoas, em meu livro A espiral da morte, de 2016. Lá tento fazer uma defesa da ciência polar brasileira, que é bem mais do que um artigo de luxo num país onde as pessoas não têm o que comer.

Na sua origem, em 1982, a pesquisa antártica de fato era um passo enorme para o país da dívida externa impagável e da hiperinflação. Mas precisávamos fazer ciência ali para mantermos o direito de participar do clube de nações que compartilham a gerência do continente branco. E precisávamos participar desse condomínio por interesses pecuniários: achava-se que a Antártida guardasse reservas de petróleo, minérios e pescado que seriam úteis algum dia.

A promessa de um novo manancial de riquezas nunca se cumpriu e, em 1994, quando o Brasil enfim derrotou a inflação, a Antártida virou um santuário ambiental. Mas acabamos descobrindo no caminho muita coisa sobre o continente e suas relações com a América do Sul. Uma delas bate à sua porta sempre nesta época do ano: a Antártida controla parte do clima no Brasil. Massas de ar frio que sopram do oceano Austral ajudam a formar as chuvas no Centro-Sul que garantem, por exemplo, o PIB do agronegócio e os reservatórios das hidrelétricas.

Ou garantiam, já que o clima está mais variável como consequência, entre outras coisas, do aquecimento da Terra. Entender como as mudanças globais afetam a Antártida e como isso, por sua vez, perturba o clima sul-americano é de interesse direto dos nossos fazendeiros e dos nossos planejadores energéticos.

Mas não só: cada um dos 7 bilhões de seres humanos é acionista do imenso manto de gelo que recobre a Antártida. Se uma parte que seja desse colosso derreter, a elevação do nível do mar resultante terá entre suas primeiras vítimas várias cidades do litoral do Brasil. Entender a região polar é, portanto, de interesse também de urbanistas, empreiteiras e seguradoras.

Infelizmente, empresas como a Amaggi, a Eletrobras e o Bradesco não põem um centavo no programa antártico (surpresa zero num país cujo setor empresarial sempre foi cevado a subsídio público e não tem tradição de investir em ciência). E a verba federal é o que é: tudo o que o Brasil gastou com ciência no Proantar em mais de 30 anos, somado, não paga nem metade do mais barato dos estádios da Copa de 2014.

Reconstruir Ferraz por R$ 300 milhões foi uma ousadia necessária. Mas é só metade do trabalho. Uma linda estação sem cientistas seria mais uma confirmação da vocação do Brasil para o fracasso. Fora que Johnny se sentiria muito, muito sozinho.

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Claudio Angelo nasceu em Salvador, em 1975. Foi editor de ciência do jornal Folha de S.Paulo de 2004 a 2010 e colaborou em publicações como Nature, Scientific American e Época. Foi bolsista Knight de jornalismo científico no MIT, nos Estados Unidos. Lançou em 2016 pela Companhia das Letras o livro A espiral da morte, sobre os efeitos do aquecimento global, ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática.

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