Feliz desaniversário! (Parte 2)

Por Lilia Moritz Schwarcz

eufrasia

Eufrásia Teixeira Leite. 

Na semana passada publiquei, aqui no Blog da Companhia, a primeira parte desta celebração de “feliz desaniversário das mulheres”, na tradição de Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas. A ideia é que todo dia é hora de festejar e de se lembrar delas. Naquela ocasião, aleguei que o momento era bom para nos perguntarmos sobre alguns silêncios da história. Repito a questão: por que existem tão poucas mulheres com protagonismo ou que não tomam parte dos nossos compêndios de história do Brasil? No dia 11 de março publicamos uma primeira relação, referente a algumas mulheres que atuaram no período colonial. Hoje, damos continuidade ao post, com uma relação de figuras femininas que tiveram destaque na época do Império. São poucos nomes, apenas exemplares, de uma lista que pode crescer ainda mais. Semana que vem tem mais: será a vez das mulheres da Primeira República. Me aguardem... PERÍODO IMPERIAL*

  • Abigail de Andrade (1864- 1890) — Pintora e desenhista, artista da Academia Imperial de Belas Artes numa época em que a escola contava com poucas alunas mulheres, destacou-se por pintar sobretudo naturezas-mortas — gênero muito valorizado à época.

 

  • Adélia Sigaud ( 1840-?) — Carioca de nascimento, é considerada a primeira brasileira a ler pelo sistema Braille. Cega desde criança, aprendeu o método com um professor que havia conhecido a técnica no Instituto Nacional dos Jovens Cegos, em Paris. No ano de 1851, o pai de Adélia, um médico do círculo de Pedro II, contou que sua filha lia com as mãos e o imperador manifestou interesse em conhecê-la. Desse encontro resultou, em 1854, a fundação do Instituto Benjamin Constant, destinado ao ensino de crianças e jovens cegos. A própria Adélia foi aluna do Instituto e acabou se tornando a primeira professora da escola.

 

  • Ana Néri (1814-1880) — Nasceu no interior da Bahia, aos 23 anos casou-se com Isidoro Antônio Néri, capitão de fragata da Marinha. Ficou viúva com três filhos pequenos para cuidar aos 29 anos. Em 1865, quando estoura a Guerra do Paraguai, teve os três filhos convocados. Então, solicita em ofício um trabalho como enfermeira no cenário da guerra. Sem esperar resposta, vai para o Rio Grande do Sul e lá aprende as primeiras noções de enfermagem. Ana montou uma enfermaria-modelo em Assunção, capital paraguaia, sitiada pelo Exército brasileiro. No final da guerra, em 1870, Ana volta ao Brasil e é homenageada com a Medalha Geral de Campanha e a Medalha Humanitária de Primeira Classe. D. Pedro II lhe concede uma pensão vitalícia por decreto.

 

  • Albertina Diniz (século XIX) — Nasceu na cidade de São João del Rei, em Minas Gerais, foi jornalista e educadora. Diniz, começou a trabalhar no jornal O Sexo Feminino, criado pela sua mãe, Francisca Senhorinha da Motta Diniz. Mais tarde, começou sua carreira como educadora no Rio de Janeiro, no Colégio Santa Isabel, também fundado e dirigido por sua mãe. Pregou pela abolição da escravatura na imprensa e em manifestações públicas. Escreveu poesias para a publicação lisboeta Almanaque das Senhoras e traduziu versos franceses para O Sexo Feminino. Em coautoria com a mãe, escreveu A judia Rachel.

 

  • Anita Garibaldi (1821-49) — Catarinense, começou a participar dos movimentos republicanos no Rio Grande do Sul. Participou com seu marido, Giuseppe Garibaldi, de várias batalhas, inclusive acompanhando-o à Itália para lutar contra a invasão austríaca.
  • Beralda Iselinga Pereira (século XIX) — Viveu nos arredores de São Paulo exercendo o ofício de tropeira, atividade tipicamente masculina e da maior importância para a distribuição e circulação de mercadorias e gêneros, sempre em lombo de burro.

 

  • Brandina (século XIX) — Proprietária de uma pequena pensão, investia seus parcos ganhos em comida, fumo e remédio para os negros que se refugiavam na Baixada Santista. Colaborou também com os cabos abolicionistas e com Santos Garrafão, organizador de um dos grandes quilombos da região.

 

  • Carolina Josefa Leopoldina de Habsburgo-Lorena (imperatriz Maria Leopoldina) (1797-1826) — A arquiduquesa da Áustria e primeira imperatriz do Brasil teve grande influência no processo de independência do país, atuando com José Bonifácio e mandando cartas a d. Pedro. Seu papel também foi fundamental na consolidação dos estudos naturalistas no Brasil.

 

  • Luísa Margarida de Barros Portugal (Condessa de Barral) (1816-91) — Filha de Domingos Borges de Barros, o visconde de Pedra Branca, viveu entre a França e o Brasil, se casou com Eugène de Barral, conde de Barral, primo em quinto grau da imperatriz do Brasil e segunda esposa de d. Pedro I, a imperatriz Amélia de Leuchtenberg. Foi amiga de d. Francisca de Bragança, irmã de d. Pedro II. Mais tarde, foi indicada preceptora das duas filhas de d. Pedro II e dama de companhia da imperatriz Teresa Cristina. Também foi amiga de intelectuais da época, como Franz Liszt e o conde de Gobineau e ainda serviu de intermediária entre o imperador e muitas dessas personalidades. A condessa transformou-se em amiga íntima de Pedro II e sua amante, segundo boa parte dos historiadores.

 

  • Eufrásia Teixeira Leite (1850-1930) — Era filha do dr. Joaquim José Teixeira Leite e de Ana Esméria Correia e Castro, neta do barão de Itambé e do barão de Campo Belo, sobrinha do barão de Vassouras e sobrinha-neta do barão de Aiuruoca. Seu pai e seu tio fundaram a empresa “Casa Teixeira Leite & Sobrinhos”, que emprestava dinheiro a juros e realizava intermediações financeiras com os prósperos fazendeiros de café do Vale do Paraíba. Já a família de sua mãe era composta por ricos plantadores de café. Em 1872, Eufrásia e sua irmã herdaram, com a morte de seus pais, uma verdadeira fortuna, que equivalia na época à dotação pessoal do imperador d. Pedro II ou a 5% das exportações brasileiras. Na época, a região de Vassouras entrava em decadência, e as duas irmãs venderam ações, títulos e a casa e partiram, em 1873, para Paris. Eufrásia conheceu o estadista Joaquim Nabuco na viagem e começaram a namorar. Ela tinha interesses financeiros e negócios pelo mundo afora; ele, ambições políticas no Brasil. O romance durou de 1872 até 1886. Dois anos depois, ele se casou com Evelina Torres Soares Ribeiro. Eufrásia nunca se casou e se tornou a maior empresária que o Império conheceu.

 

  • Francisca Edwiges Neves Gonzaga ou Chiquinha Gonzaga (1847-1935) — Compositora e maestrina carioca, lutou por uma profissão inédita para a mulher numa sociedade patriarcal como a nossa. Causou escândalo em seu tempo. Atuando no ambiente musical do Rio de Janeiro, no qual imperavam polcas, tangos e valsas, Chiquinha Gonzaga traduziu para o seu piano toda a diversidade cultural que encontrou. Ao mesmo tempo, educada para ser dama de salão, aos 16 anos se casou com o promissor empresário Jacinto Ribeiro do Amaral, escolhido por seu pai. Continuou se dedicando ao piano, enquanto seu marido encarava o instrumento como rival. Determinada, decidiu abandonar o casamento, passando a viver com o engenheiro João Batista de Carvalho. O escândalo resultou em ação judicial de divórcio perpétuo movida pelo marido.

 

  • Germana (1819-?) — Vivia em Salvador com o marido, um escravo alforriado. Em 1879, entrou na Justiça para ganhar sua liberdade. Doente e com uma idade avançada, já tinha tido quinze filhos.

 

  • Justina (século XIX) — Apelidada de “A Medeia Negra”, a escrava, temendo ser vendida e separada de seus filhos, tomou uma atitude radical e de oposição ao sistema escravocrata: afogou suas crianças e tentou se suicidar cortando a garganta. Foi presa e condenada a 42 anos de prisão.

 

  • Maria Curupaiti (século XIX) — Maria Francisca da Conceição, natural de Pajeú das Flores, em Pernambuco, casou aos treze anos com um militar do Exército. Quando o marido foi destacado para um ataque ao forte de Curuzu, ela decidiu acompanhá-lo, mesmo com a proibição da presença de mulheres na expedição. Maria não teve dúvidas: cortou os cabelos, vestiu um uniforme masculino, colocou um boné e partiu. Viu o marido cair ao seu lado, mas continuou lutando com a baioneta. Ao final da batalha, sepultou seu marido e foi internada ferida no hospital. Quando descobriram seu disfarce, ela recebeu então o nome de Maria Curupaiti.

 

  • Maria do Egito ( 1828-?) — Em 1858 processou seu senhor, Evaristo José Santana, nos seguintes termos: “sob promessa de se libertar deixou-se levar de sua virgindade por amor único de gozar esse bem maior […] a Liberdade”. Passada a carta de alforria, seu senhor ainda “a teve por barregã por mais de catorze anos”.

 

  • Maria Felipa de Oliveira (?-1873) — Em 1824, a negra Maria Felipa lutou, na Ilha de Itaparica, na Bahia, pela independência do Brasil. Liderou um grupo contra portugueses que invadiram a ilha após a declaração de independência, em 1822. O grupo de Maria Felipa dominou o acampamento do Exército português, atacou os guardas e ateou fogo às embarcações.

 

  • Maria Firmina dos Reis (1825-1917) — Nasceu em São Luís, no Maranhão, e foi considerada a primeira romancista brasileira. Foi também a primeira professora concursada de seu Estado. Seu romance Úrsula, publicado em 1859, foi o primeiro romance abolicionista escrito por uma mulher negra e brasileira. Em 1887, a escritora publicou o livro A escrava, reforçando sua postura antiescravista. Ao aposentar-se, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita.

 

  • Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-85) — Educadora, escritora e poetisa, em 1832, aos 22 anos, publicou no Rio Grande do Norte “Direitos das mulheres e injustiças dos homens”, primeiro artigo que trata dos limites entre os espaços público e privado, exigindo o direito de igualdade e educação para todas as mulheres. Escreveu livros sobre os direitos das mulheres, incluindo indígenas e escravizadas. Pode-se dizer que foi uma das precursoras do feminismo no Brasil.

 

  • Olegarinha da Gama Carneiro da Cunha (1859-98) — Natural de Recife, participou ativamente do movimento abolicionista de Pernambuco. Trabalhou na organização do Clube do Cupim e em diversos movimentos de alforria e libertação de escravos. No dia de sua morte o povo da cidade tomou as ruas em sua homenagem.

 

  • Princesa Isabel (1846-1921) — Recebeu o título de princesa imperial pela Constituição do Império. Foi a primeira mulher a administrar o país e assinou a Lei Áurea, que libertava os cativos. Mesmo assim, a história “conta” que ela só foi responsável pelo ato pois seu pai, Pedro II, estava em viagem ao exterior. Também sabemos que a intenção seria garantir um Terceiro Reinado.

 

  • Violante Atalipa Ximenes Bivar e Velasco ( 1816-74) — Pioneira do jornalismo, nasceu em Salvador. Filha de um conselheiro do Império, recebeu educação diferenciada e traduziu uma peça, o que lhe valeu o ingresso no Conservatório Dramático de Música. Passou a colaborar no primeiro jornal de mulheres, O Jornal das Senhoras, seis meses depois passava a dirigi-lo.

 

  • Zeferina (século XIX) — Em 1826, participou de uma revolta no Quilombo do Urubu, nos arredores de Salvador, na Bahia. Liderou um grupo de escravos refugiados contra as tropas do governo imperial.

 

* Vale a pena olhar o livro Dicionário mulheres do Brasil: De 1500 até a atualidade, organizado por Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil (Rio de Janeiro: Zahar, 2000) e ainda o projeto “Mulher 500 anos atrás dos panos” (Disponível em: www.mulher500.org.br), de onde tirei parte das informações. Agradeço mais uma vez ao pessoal do Projeto República (UFMG), que vem me ajudando na pesquisa, e a Adriane Piscitelli, que confere tudo e não deixa nada de errado passar.

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lançou com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.

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