Fica o escrito por não escrito -- ou o casamento do editor com o autor, até que a literatura os separe

Luiz Schwarcz

Por Luiz Schwarcz

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

A partir desta semana, a coluna Livre-Editar passa a ser quinzenal.

livre42A relação entre editor e autor, em muitos casos, só pode ser comparada com as relações amorosas ou familiares. Max Perkins, cuja história já citei em outro post, dizia que Thomas Wolfe era como o filho que nunca teve. No entanto, a relação dos dois misturava o paternalismo que Perkins citava com alguns aspectos da relação típica de um casal. Assim, o fim do relacionamento entre os dois pode tanto parecer a história de um filho querendo se libertar do pai, como a de um amante buscando se livrar do seu par, de quem tanto depende ou dependeu. Embora Perkins tenha tido uma participação fundamental na vida e na obra de Scott Fitzgerald e de Ernest Hemingway, além de muitos outros autores, nenhuma se compara com o vínculo que o grande editor desenvolveu com Thomas Wolfe.

Foi principalmente a partir dessa história que se criou o mito do editor americano, um profissional superinterventor e com participação ativa no resultado final dos livros. Uma cena bastante citada é a de Perkins e Wolfe fechados todas as noites, por meses a fio, numa mesma sala, onde o escritor datilografava novas páginas para completar a trama de seus livros, previamente cortados por Perkins. Segundo o folclore editorial, essas mesmas páginas eram jogadas desordenadamente no chão e depois recolhidas pelo editor, para serem, então, decupadas e montadas, em outra ordem, e com novos cortes, compondo-se assim o texto final. É claro que esse é um exemplo extremo. São poucos os autores caóticos como Wolfe, assim como raros são os editores com o talento criativo de Perkins.

Além disso, tal fama atribuída aos editores americanos é tão longínqua como imerecida. Atualmente, muitos editores americanos e ingleses interferem pouco nos originais, principalmente de autores consagrados, que passaram a ter como interlocutores privilegiados, e primeiros leitores profissionais, seus próprios agentes literários, pouco dispostos a enfrentá-los com críticas ou a requisição de mais trabalho criativo. Assim, sobram nos dias de hoje autores famosos, enquanto faltam editores talentosos. A força política dos agentes literários e a disputa selvagem pela conquista de autores de renome inibem os editores, que deixam de fazer sugestões importantes em livros cruciais para suas editoras, bem como tornam os autores famosos menos afeitos ao diálogo criativo.

Nos poucos e volumosos livros de Wolfe, Perkins, de fato, teve papel fundamental. Montou, a partir de material bruto, e formatou, tendo como origem o caos criativo do tumultuado escritor, textos que marcaram a cultura da América. Scott Berg, o biógrafo de Perkins, conta que os originais dos livros de Wolfe eram tão extensos que, certa feita, tiveram que ser apanhados pela Scribner com uma caminhonete. Para que seu primeiro livro, intitulado Look Homeward, Angel, viesse à luz, Perkins trabalhou meses, cortou e cortou, arrumou o texto pedindo a Wolfe emendas que conferissem sentido à obra, o que resultou num livro de 1100 páginas. No caso do segundo livro, que em sua primeira versão tinha um milhão de palavras, os dois trabalharam juntos no escritório do editor, seis noites por semana e não por pouco tempo. Perkins via mais o “lobo solitário” (apelido que cunhou para Wolfe, em alusão ao seu sobrenome) do que a sua família. O milhão de palavras inicias de Of Time and the River foi reduzido a 450 mil, e o romance acabou sendo publicado quase à revelia de Wolfe, que ainda queria melhorar o texto. O escritor, dessa vez, tinha certa razão, pois na pressa final escaparam mais de duzentos erros de revisão e de continuidade.

Além de trabalhar por anos em dois originais imensos, o editor assumiu inúmeras vezes a responsabilidade de resolver a vida amorosa e emocional do seu autor, incentivando-o continuamente a não abandonar tudo. Perkins ainda acompanhou Wolfe em longas bebedeiras e périplos por bares de Nova York, ou nas cidades em que se encontravam. Duas vezes teve que cumprir um dos passatempos preferidos do “lobo solitário”: voltar aos apartamentos onde escrevera suas obras-primas, mesmo que para entrar nesses locais fosse necessário subir pelas escadas de incêndio externas e pular a janela em moradias, na ocasião ocupadas por terceiros.

Com tudo isso, o amor entre duas pessoas tão diversas quanto complementares terminaria em briga -- com um rompimento unilateral; claro, por parte de Wolfe. Antes disso, o autor de Look Homeward, Angel dedicará a Perkins seu segundo livro, Of Time and the River, com um parágrafo afetivo que o editor gostaria de ter rejeitado, por duas razões: em primeiro lugar, por modéstia; mas também por pressentir que aquela dedicatória representava um sinal de que, em seguida, Wolfe iria se voltar contra ele. O “lobo solitário” já havia feito isso com Aline Bernstein, uma mulher mais velha que Wolfe teve como amante por muitos anos e que fora muito importante em momentos difíceis da vida do escritor.

Numa relação tão peculiar, onde há uma entrega ilimitada por parte do editor e onde este tem a obrigação de tornar invisíveis ou pretender inexistentes suas contribuições, a chance de problemas e rompimentos futuros é enorme. Há também a dificuldade de alguns autores de reconhecer que um editor, muitas vezes mais jovem (esse não é o caso de Wolfe e Perkins), assumiu papel tão paternal e protetor na vida deles, e durante tão longo tempo. A interpretação do que seria a relação com um pai mais jovem poderia dar um nó na cabeça dos psicanalistas, ou mesmo ser assunto para as mais intrincadas reuniões de psicólogos de todos os matizes.

A reverência à importância do autor e do leitor -- como os polos que devem, de fato, ter voz na cadeia de edição de um livro -- gera uma obrigação de humildade por parte dos editores que é tão fundamental como também difícil de ser digerida. Quando é o editor que não aguenta o anonimato ou não possui a humildade necessária à função, o problema caminhará inexoravelmente para uma só direção. Por não saber cumprir o seu papel de intermediário e não saber controlar seu ego, o editor em questão perderá o principal patrimônio da sua editora num prazo curto e ponto final. Verá seus autores partirem, procurando um local em que a competição se dá entre iguais e não entre editor e editado. Mas o curioso é que muitas vezes a dificuldade vem da parte dos autores, já que aceitar a entrega de um editor -- no modelo de Max Perkins, por exemplo -- nem sempre é fácil. Implica o exercício da modéstia e o espírito de grupo, justamente numa arte produzida individualmente, nos recônditos da mais profunda solidão. Foi este o caso de Wolfe com Perkins. O escritor se voltou contra o pai, ou contra a amante, de quem não aguentava mais receber tanto.

A Perkins foi perguntado, mais de uma vez, por que nunca pensara em se tornar escritor, depois de um trabalho criativo tão intenso junto a seus autores. A resposta veio direta:

-- Porque sou editor!

No entanto, não há mais muitos exemplos como esse, que tenho citado aqui quase à exaustão. Ou talvez não tenham existido tantos Perkins através dos tempos, espalhados pelo mundo editorial.

Alberto Manguel questiona, em um artigo incluído em sua coletânea de ensaios intitulada No bosque do espelho, se a participação de um editor, nos moldes de Perkins, é favorável aos livros ou não. Manguel -- um escritor com quem, em geral, tenho mais concordâncias do que discordâncias -- não fala apenas do editor de Fitzgerald, mas destaca o caso dos versos que Ezra Pound, enquanto editor, eliminou do grande poema épico de T.S. Eliot The Waste Land. Com base nos trechos suprimidos, Manguel afirma preferir o poema de Eliot em sua forma original, sem a intervenção de Pound. Ao optar por tal exemplo e basear-se também na postura intelectualmente frágil de alguns editores da atualidade, o ensaísta argentino despreza o que de melhor um editor pode dar aos seus autores: a entrega total, desde a mais minuciosa leitura, até a resolução de problemas muitas vezes externos à literatura, sem os quais os escritores não conseguem criar. É bem verdade que um editor cheio de vontade autoral pode muito bem atrapalhar livros que dele não precisam, e que a empáfia com que muitos colegas encaram a profissão é preocupante. Mas tenho que partir dos bons exemplos e defender quem sabe desempenhar a profissão com plenitude e sensibilidade.

O caso dos versos cortados por Pound do poema de Eliot me fez lembrar que este último, depois de breve experiência na vida bancária, foi convidado por George Faber a se transformar em editor da Faber & Faber, cargo que exerceu por largo tempo. Não existem tantas histórias sobre o Eliot editor, a não ser a famosa recusa dos originais de Orwell, que já mencionei em outro post. Eliot foi majoritariamente um editor de poesia, mas acabou, de forma involuntária, tendo papel fundamental para que a sua editora vivesse muito bem, por décadas a fio. Não que ele tenha legado livros excepcionais na área comercial ou que tivessem assegurado o futuro dessa casa, que é das últimas editoras independentes do mundo anglo-saxão. O futuro da Faber foi garantido no momento em que Andrew Lloyd Weber, o mago dos musicais da Broadway, muitos anos após a morte de Eliot, resolveu levar para a Broadway um livro de poemas sobre felinos escrito pelo autor, criando o mega-hit Cats. A Faber & Faber manteve-se independente num ambiente dominado pelas grandes corporações e grande parte de seus ganhos, até poucos anos atrás, vieram dos royalties advindos da bilheteria de Cats, pagos diretamente à editora.

Há ainda uma anedota curiosa acerca desta importante editora inglesa que gostaria de contar. George Faber era inicialmente sócio de sir Maurice e lady Gwyer na Faber & Gwyer. Com a saída da família Gwyer, resolveu rebatizar sua editora com dois Fabers e não apenas um. Segundo a lenda, ele teria feito isso para dar a impressão de que tinha outro sócio, em quem poderia jogar a culpa da recusa dos originais que decidiria não publicar.

De volta ao tema deste post, me ocorre que, em muitos casos em que rompimentos acontecem, eles se dão porque não há mais tanta empatia entre a obra do autor e a linha da editora em questão. Como numa relação amorosa, o editor, acostumado à entrega quase incondicional, não percebe que seu amor não é mais o mesmo e continua, mesmo assim, desejando publicar a obra do autor. Ou quer mantê-la, menos pelos livros que estão por vir, do que pelo que já foi feito em comum no passado. Ou ainda, por conta do ciúme de ver seu autor em outra editora, onde eventualmente terá mais êxito do que aquele que pôde lhe proporcionar em sua casa de publicações. É difícil para o editor/amante reconhecer que o amor murchou, ou que este depende mais do passado do que do presente. Essa talvez seja uma das razões por que boa parte dos rompimentos se dê por iniciativa do autor. Não estou referindo-me aqui a rompimentos puramente comerciais, que acontecem por iniciativa dos dois lados. A saída do autor é dolorosa, mas o dia seguinte nem sempre é tão difícil como havia imaginado o editor. Em muitos casos, a literatura já havia abandonado o casal, não havendo qualquer outro desejo capaz de mantê-los unidos para todo o sempre.

 

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal.