Final feliz – ou não é possível filosofar em edição

Luiz Schwarcz

Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

Num de meus posts anteriores chamei atenção para o fato de E. M. Forster dizer que escrevia para pensar, ou que pensava realmente nas coisas na hora de escrever. Ao utilizar este espaço no Blog da Companhia para pensar sobre a profissão de editor, comprovei que o escritor inglês estava correto. A coluna “Livre Editar”, que hoje se encerra, visava esse fim. Quando a imaginei inicialmente nas vésperas do ano em que a Companhia das Letras completava 30 anos , tinha em mente escrever pequenos aforismos, parágrafos quase filosóficos sobre a nossa profissão. Não foi o que realizei. Escrevi textos mais longos, e talvez menos filosóficos, provando uma vez mais que editores, ou melhor, que eu não sei mesmo filosofar. Não alcancei nem a brevidade nem a profundidade almejadas. Alguns posts eram mais práticos, outros levemente históricos ou memorialísticos, como a série de artigos que chamei de “Imprima-se” e que precedeu a coluna que hoje se encerra.

No fundo, a “Livre Editar” foi como um livro que reluta em aceitar um planejamento absoluto, como os personagens que ganham voz no meio de um romance e desafiam o plano inicial de seus autores.

Findas as comemorações do nosso aniversário, e depois de 29 textos, sinto que não tenho mais o que dizer; ou melhor, não sei mais escolher assuntos por meio dos quais eu pretenderia entendam esse termo em sentido amplo, também como uma má tradução do inglês to pretend filosofar sobre o papel do editor.

Espero que os leitores do blog tenham gostado de ler tanto quanto eu gostei de escrever.

Olho para o que escrevi e penso que poderia rebatizar a série como “29 breves ensaios sobre a humildade editorial”. Gosto da palavra ensaio na sua acepção mais simples e menos acadêmica, a que apresenta um texto como uma tentativa não definitiva, não como um local onde se impõe uma única visão de mundo, mas um risco a ser traçado e assumido.

Refleti e aprendi escrevendo sobre o que vivi e sobre o que penso; ou melhor, sobre o que eu nem sabia que pensava. Aproveitei do diálogo com os leitores, que não só corrigiram erros como acrescentaram suas opiniões. Sou grato a esses e aos que leram em silêncio e curtiram, ou não, tudo o que passei para a tela, em geral nas primeiras horas da manhã, antes de sair para o escritório, ou nos finais de semana em São Paulo ou no campo.

Todos os posts da série foram revisados e criticados pela Lili e pela Júlia, editoras que enxergam meu texto e minha visão de mundo de uma forma mais bem acabada do que eu. Elas são quase coautoras de tanto que melhoraram o que eu antes rascunhei.

Pretendo continuar escrevendo no blog, mas agora sem uma periodicidade preestabelecida, apenas quando surgirem assuntos nos quais eu veja possibilidade de colaborar. Também responderei a perguntas de leitores a partir de uma organização ou um método que o blog anunciará brevemente.

Até lá me despeço com o mesmo carinho e humildade que tentei imprimir aos textos que aqui publiquei, confessando a emoção que sentia ao ver o número de curtidas ou o índice de leitura dos textos. Pra falar a verdade, antes eu nem sabia o que aquele quadradinho com um número dentro, no canto direito da tela, significava.

Como editor, sou um escritor supercarente, que gostaria de ter o talento e o tempo para me dedicar mais à escrita. “Livre Editar” foi talvez, junto com meu primeiro livro infantil Minha vida de goleiro , o que melhor pude fazer nessa área. Os que leram alguns dos posts aqui publicados entenderão que, se houve méritos, parte considerável se deve aos leitores, nos quais me espelhei para escrevê-los. Pela parceria, caros leitores, recebam a minha eterna gratidão. 

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. 

 

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