Getúlio Vargas, meu pai

Por Celina Vargas do Amaral Peixoto


Getúlio Vargas e a filha Alzira Sarmanho Vargas (cred: Fundação Getúlio Vargas/CPDOC)

Alzira Vargas do Amaral Peixoto gostava de escrever. Usava uma caneta de cor vermelha, que caracterizou os seus trabalhos. Escrevia em qualquer papel: branco, amarelo, folha solta, encadernados, espiralados, o que estivesse à mão. Para a nossa felicidade escreveu e guardou tudo. Eu, como filha, guardo e guardarei sempre os seus ensinamentos, verbais e escritos. Tinha uma vocação para preservar a memória de seu pai, Getúlio Vargas, cujo governo marcou o século XX, num país de dimensões continentais, num momento conturbado por pelo menos duas guerras mundiais e vários movimentos armados internos.
O século XX foi intenso. Intensa foi a vida de Alzira, ao lado do pai que havia assumido o papel de líder de uma Revolução, em 1930, com a férrea decisão de transformar o Brasil. Uma elite atrasada. Um povo maltratado e esquecido. Militares sempre dispostos a avançar, mas também a derrubar. Ideologias efervescentes no mundo, com repercussão no Brasil e nas Américas.
Formou-se em Direito em pleno Estado Novo. Corajosa! Arrumou e organizou livros e papéis. Inteligente, passou a ler e a entender os processos para encaminhá-los ao Presidente. Em pouco tempo, era sua auxiliar, oficial de gabinete. No Ataque Integralista, que tomou o Palácio Guanabara, onde residia Getúlio Vargas e sua família, teve um papel de destaque: pegou em armas, negociou e descobriu os caminhos por onde passaram os “salvadores da pátria”.
Aprendeu inglês. Visitou os Estados Unidos. Tornou-se a intérprete da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Junto com Ernani do Amaral Peixoto, já casada, em viagem aos Estados Unidos foram chamados para conversar com o Presidente Franklin Delano Roosevelt. Receberam as mensagens para Getúlio que não poderiam ser passadas pelas precárias formas de comunicação da época.
Alzira, acima de qualquer situação, tinha uma linda relação de afeto, entendimento e compreensão com o pai. Poderiam se entender com um olhar, um gesto, no meio da multidão. Tinham o mesmo discurso, o mesmo ideal, o mesmo amor: pelo povo, pelo Brasil, pelo povo brasileiro. Esta relação, que também era partilhada por Ernani, os tornava um trio invulnerável, no meio de um turbilhão. Invulnerável às tentativas de quebra de confiança, aos negócios prejudiciais ao interesse público e às rupturas de segredos de Estado que protegiam os mais pobres, os mais frágeis, os mais necessitados. 

E foi por eles que Getúlio Vargas se matou.

 

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Celina Vargas do Amaral Peixoto é filha única de Alzira Vargas do Amaral Peixoto e Ernani do Amaral Peixoto e neta de Getúlio Vargas. Formou-se em sociologia  pela PUC-RJ e cursou pós-graduação pelo IUPERJ e pela Sorbonne. Na década de 70, criou o CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) e foi diretora do Arquivo Nacional do Brasil nos anos 80. Foi diretora geral da Fundação Getúlio Vargas nos anos 90. Trabalhou na FIRJAN e, nos anos 2000, foi diretora do Sebrae RJ. Foi a idealizadora e organizadora dos dois volumes da publicação Diário de Getúlio Vargas pela Siciliano e CPDOC/FGV.

 

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