Grafiações

Érico Assis

Por Érico Assis

wilsons

Os vários "Wilsons" de Daniel Clowes.

Foi lendo a tese da Maria Clara Carneiro que conheci o termo: grafiação. Que vem do francês graphiation; que vem de um francês, Philippe Marion; e que vem do livro do Marion, diabolicamente difícil de se encontrar, na França ou seja lá onde mais, chamado Traces en Cases.

(Aliás, alguém aí tem esse livro? Só consigo citar monsieur Marion via apuds.)

Em resumo, grafiação é o nome que a gente pode dar para o estilo de desenho particular a um ou uma desenhista. Como ele ou ela representa as coisas que quer representar dentro de um padrão de traços que têm coerência entre si e que viram a assinatura, a voz, a identidade gráfica do desenhista. A grafiação do Moebius é assim, a grafiação do John Buscema é assado, a grafiação da Jillian Tamaki é aquela. Belo termo, grafiação.

A gente poderia usar estilo de desenho, mas estilo se usa para tanta coisa que a imprecisão é grande. Na pintura e em outras artes plásticas deve haver um termo para se referir a uma coisa parecida, uma palavra para dizer fácil qual é a estilização dos traços (se é que dá para falar de traços) de um Cézanne em comparação com os de um Monet. Mas a grafiação não se aplicaria a artes plásticas — e isso é elucubração minha, a princípio, não do Philippe Marion — porque ela teria a ver com o desenho mais rápido, mais repetitivo, à síntese que o/a quadrinista chega para produzir 400 páginas consistentes, que pareçam ter saído da mesma mão. É propositalmente parecido com grafia, pois a forma de desenhar vira “a letra” do desenhista.

(Daria para falar de grafiação em animação também? Mesmo que animações costumem envolver vários desenhistas tentando se ater a uma grafiação só.)

Perdi a entrevista em que li Adrian Tomine dizendo que no seu último álbum, Killing and Dying, se esforçou para desenhar cada história de um jeito, pensando que traço e que paleta de cores (que também faz parte da grafiação, acho) o tom da história pedia. Isso virou meio moda entre quadrinista: você pode ver o Daniel Clowes variando entre estilos que vão do realista ao cartunesco em Wilson, e qualquer desenhista de super-herói diz que “estuda” um estilo apropriado a cada projeto. A variação também é comum nos mangás. Mas todos, incluindo Clowes e Tomine, acabam tendo sua grafiação individual. Mesmo que numa página eles tentem desenhar igual, sei lá, ao Charles Schulz, você vai ver que é um Clowes-tentando-desenhar-igual-ao-Schulz. É uma grafia. É uma assinatura. É a grafiação.

Chega a ser estranho. Seria a mesma coisa que dizer que esses desenhistas só conseguem desenhar assim? Lembro daquelas teorias um pouco suspeitas em história da arte, tipo de que o Van Gogh enxergava o mundo com cores diferentes da maioria, daí seus quadros. Mais pé no chão, peritos grafotécnicos conseguem equiparar a escrita de uma mesma pessoa a partir de coisas como inclinação do instrumento de escrita (ou desenho), sem chegar necessariamente ao psicológico. O Marcello Quintanilha não precisava enxergar o mundo como aparece nos seus desenhos; seria simplesmente a síntese a que chegou para representar o mundo, que virou sua grafiação. E o jeito como ele segura a caneta.

Só queria levantar esse papo de grafiação para dizer uma coisa: estou ficando velho. Cada dia eu percebo que o que me prende a uma HQ é essa grafiação — mais do que coisas que eu admirava antes, tipo enquadramentos, ritmo, estilo narrativo. Claro que ainda quero essas coisas, e sobretudo quero uma boa história. Mas o “desenho bonito” parece estar subindo na lista de prioridades, enquanto o “desenho feio” me afasta mesmo que todos os outros aspectos sejam bem feitos.

Me sinto velho porque isso parece a mesma exigência do velhão que gosta de cinema, mas só assiste filme com atriz gostosa. Tipo: “o próximo do Terrence Malick podia pelo menos ter a Monica Belucci, né?”. E como gosto para desenho é uma coisa ainda mais idiossincrática que gosto para atrizes, parece que tendo a limitar minhas opções de quadrinho daqui pra frente. É a senilidade.

 

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.