HH e MM, 1968

Por Luisa Destri

Não há, até hoje, notícias de que Hilda Hilst e Murilo Mendes tenham se encontrado. A escritora paulista nasceu em Jaú em 1930, quando o poeta mineiro, vivendo no Rio de Janeiro, lançava o seu livro de estreia, Poemas, reunindo versos escritos entre 1925 e 1929. Quando a jovem Hilda publicou seu primeiro livro, Presságio, em 1950, passando a frequentar os jornais que retratavam a vida social e cultural na capital paulistana, o maduro Murilo dava início a uma série de viagens que marcariam sua literatura – Contemplação de Ouro Preto, Siciliana e Tempo espanhol, todos escritos ao longo da década de 1950, são alguns de seus frutos.

Mas não é de todo improvável que tenham em algum momento se cruzado. Em 1957, quando ele se muda para a Itália, como professor de cultura brasileira na Universidade de Roma, ela faz sua primeira viagem para o velho continente – passando pela capital italiana e por cidades gregas e francesas (em Paris permanece por seis meses). Se os caminhos da vida literária levaram ao encontro de Hilda com Drummond, que num poema a homenageia como “estrela Aldebarã”, nada impede que ela alguma vez tenha topado com Murilo.

Para além das possibilidades do encontro pessoal, é interessante imaginar que afinidades haveria entre as obras desses dois autores. Se em princípio e aparentemente são tão dissemelhantes, sob alguns aspectos é possível aproximá-los. Em primeiro lugar, por certo modo de considerar a poesia: ambos praticaram diversos gêneros literários, mas foi com os versos que mantiveram a relação mais duradoura. Talvez se trate, aliás, dos autores brasileiros que durante o século XX mais apostaram na singularidade do poeta e na excepcionalidade da poesia.

Em um livro como As metamorfoses, que Murilo Mendes escreve entre 1938 e 1941, são inúmeros os exemplos disso. “Assaltam-me todos os sonhos/ Que existiram desde o princípio do tempo”; “Eu consagrei o universo”; “Mundo público,/ Eu te conservo pela poesia pessoal”. Também em Hilda Hilst muitos exemplos podem ser colhidos, em especial no livro Júbilo, memória, noviciado da paixão, de 1974, em que o eu lírico, feminino, se diz “iluminada, ungida”. A poesia é definida como “a canção imantada”, e estes versos valem por todo um programa: “Cantando o amor, os poetas na noite/ Repensam a tarefa de pensar o mundo”.

Se o poeta é um ser de exceção que encontrou um meio radicalmente pessoal de se relacionar com a vida pública, é de se esperar que seu ofício traga as marcas dos momentos de grande importância histórica. Um ano vivido pelos dois autores permite observar esses sinais com especial clareza: 1968.

Em diferentes cidades do mundo o movimento estudantil sai às ruas contra as condições de desenvolvimento da sociedade burguesa, denunciando formas de vida que, determinadas pela técnica, impedem a realização integral dos sujeitos. A política e a existência, a arte e a vida tornam-se uma só coisa. Nos muros de Paris se gravam palavras de ordem: “A ação não deve ser uma reação, mas uma criação”. No Brasil, a procura pela vida livre de controles deve enfrentar também a ditadura: em 1967 o retorno democrático fora prometido, mas 1969 traria o AI-5.

Vivendo na Europa, Murilo Mendes acompanha, como sempre, as movimentações de seu tempo. Aspectos do dia a dia romano se fazem presentes em sua produção da década de 1960 – nessa altura mais concentrada na prosa, embora sem abandonar a poesia de todo. Entre 1965 e 1966, redige A idade do serrote e Poliedro – o primeiro, um poético livro de memórias; o segundo, uma obra de difícil classificação, que basicamente, mas não apenas, se fixa em objetos e seres diversos para tratar de assuntos mais diversos ainda.

Para se ter uma ideia, vale a pena recortar um trecho de “O fósforo”, um de seus “capítulos”, se é possível assim nomear. “Acendendo um fósforo acendo Prometeu, o futuro, a liquidação dos falsos deuses, o trabalho do homem. [...] O fósforo é o portador mais antigo da tradição viva. Eu sou pela tradição viva, capaz de acompanhar a correnteza da modernidade. Que riquezas poderosas extraio dela!” De um elemento tão banal se extraem considerações complexas sobre a realidade política da época e as possibilidades da literatura. Bem ao gosto de Murilo Mendes, o poeta é transmissor do fogo sagrado.

Quando, em 1968, escreve Ipotesi, livro de poemas em italiano, os mesmos elementos servirão a um ponto de vista totalmente distinto. Em versos que homenageiam o poeta alemão Hans Magnus Enzensberger, o sujeito é comparado à mesma figura mitológica, mas, desta vez, não tem como acender a chama: “Fracassado prometeu de periferia/ peço emprestada uma caixa de fósforos:/ vazia” (a tradução é de Júlio Castañon Guimarães e Murilo Marcondes de Moura). Versos como esses fazem de Ipotesi o mais desesperançado livro de Murilo Mendes. O que teria acontecido, nos três anos que separam a redação dos dois livros, à confiança depositada por Poliedro na poesia? A adoção de outra língua corresponderia à adoção de outro ponto de vista? Que papel poderiam ter, diante disso, os acontecimentos da época?

Já Hilda Hilst vive, nessa altura, em Campinas, no interior de São Paulo, para onde se mudara em 1965 e onde construíra a sua Casa do Sol, finalizada em 1966. A juventude agitada ficara (quase sempre) para trás: a autora agora estava concentrada em encontrar um estilo de vida mais simples, que permitisse uma dedicação maior à literatura. Os sinais mais evidentes dessa nova fase aparecem entre 1967 e 1969, quando escreve suas oito peças de teatro e inicia seus escritos em prosa – Fluxo-floema, o primeiro destes livros, sairia em 1970.

“Eu tinha muitas coisas a dizer e queria fazer isso imediatamente”, justifica-se, alguns anos depois, em 1982, ao Jornal do Brasil, creditando a diversificação de gêneros à necessidade de falar mais diretamente com o público. Os tempos, lembre-se, eram de grande agitação no teatro nacional; prevalecia a noção de que a arte, nas palavras de Décio de Almeida Prado, “é sempre engajada, por ação ou omissão”.

As consequências desse momento para a poesia de Hilda Hilst, que antes de Júbilo ficara sete anos sem lançar um livro de versos, se fazem sentir já nessa publicação de 1974. Trata-se de um livro de poemas amorosos, como anuncia o título; dos sete conjuntos que o compõem, no entanto, um deles não dialoga diretamente com o amado, e sim com os “homens do nosso tempo” – sendo francamente político. Nos livros posteriores, a linguagem mais engajada (povo, mordaça, palanque) será relativizada, mas a literatura de Hilda Hilst jamais recuará no desejo de se inscrever na vida pública. O que dizer da radicalização representada, nesse sentido, pelas obras obscenas? Ou pelas crônicas, em que chega a agredir seus leitores?

Estas anotações de leitura, mais interessadas em colocar perguntas que em propor repostas, querem apenas salientar como as obras de Murilo e Hilda, cada uma à sua maneira, têm reverberações correlatas à agitação de 1968. A desesperança de um poeta para quem as palavras tiveram sempre a centelha sagrada e a inflexão política como necessidade urgente da poeta reclusa atingir o outro talvez tenham mais em comum do que possa parecer.

As questões despertadas e as iluminadas pelas duas obras são ainda muitas, o que dá a medida de sua importância e de sua grandeza. O legado dos dois autores, incluindo a relação que mantiveram com seu tempo, terá novas oportunidades de ser apreciado, pensado e debatido, agora que Murilo Mendes e Hilda Hilst dividem a mesma casa editorial.

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Da poesia, que reúne toda a poesia de Hilda Hilst, já está nas livrarias. Poliedro ganhará uma nova edição pela Companhia das Letras agora em setembro, a partir do dia 29. 

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Luisa Destri, jornalista e pesquisadora, é autora da dissertação de mestrado De tua sábia ausência: a poesia de Hilda Hilst e a tradição lírica amorosa (Unicamp, 2010) e da tese de doutorado O campo artístico do homem: a mulher e o sujeito lírico na poesia de Murilo Mendes (USP, 2016).

 

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