HQs que eu dei de presente, HQs que eu não devia ter dado de presente, HQs que eu gostaria de ter dado de presente

Érico Assis

 

Conhecido meu, vamos chamar de Rolo, estava de olho em uma amiga, vamos chamar de Tina. Rolo é chegado em quadrinhos. Tina disse que não lia quadrinhos mas tinha interesse. Olhinhos de Rolo brilharam. No dia seguinte, Rolo trouxe de presente à Tina aquele quadrinho que tinha certeza que ia conquistá-la para os quadrinhos — e para si, quem sabe.

Rolo escolheu O reino do amanhã.

Rolo e Tina nunca rolou, nem Tina leu O reino do amanhã.

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Dar quadrinhos de presente é uma coisa que levo a sério. Primeiro porque sou um apologista confesso, que gostaria que mais gente lesse e comprasse HQ. Segundo, porque não é todo mundo que lê quadrinhos e um presente pode ser a porta de entrada.

Terceiro, porque há tantos tipos de quadrinhos quanto há tipos de pessoas. E eu, tal como um enólogo chato, me sinto na obrigação moral de usar minhas décadas de bebedeira de gibi para escolher a procedência, safra e terroir certo — e que se encaixe nos R$ 40 estipulados para o amigo secreto — que se adapte àquela pessoa com quem vai valer a pena bater um papo sobre o ressaibo.

Quarto, porque o quadrinho errado — tipo O reino do amanhã, um épico cheio de piadas internas para quem já leu trinta anos de gibi de super-herói, mas só para quem já leu trinta anos de gibi de super-herói — estraga os quadrinhos para o não iniciado, quem sabe para sempre.

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Como falei em enólogos, devo mencionar que existe uma HQ chamada Os ignorantes, de Etienne Davodeau, em que um viticultor ensina um quadrinista a produzir vinho e o quadrinista ensina o viticultor a ler quadrinhos.

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Passei por uma longa fase de aniversários infantis. Parecia que toda semana minha filha tinha um. Comprei uma pilha de Hilda e o Troll para deixar de prontidão. Durou um ano, sobraram poucos.

Eu ia fazer a mesma coisa no ano seguinte com Hilda e o Gigante, mas os aniversários pararam.

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Dei Persépolis para minha cunhada quando ela completou 18 anos e escrevi na dedicatória que “agora tu já tem idade pra ler gibi.” Dei Ghost World para uma amiga viciada em bandinhas dos anos 90. Dei Pílulas azuis para um amigo e ele nunca leu porque tem medo de doenças (mas ainda acho que você devia ler, Thiago).

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Também dei Pílulas azuis para uma vizinha, que gostou muito. Aliás, acho que também tinha uma pilha de Pílulas azuis para dar, a esmo, para pessoas que eu achava legais e cabeça aberta a ponto de topar como presente um gibi em preto e branco sem Mônica nem super-heróis.

Pensando bem, acho que tenho fases de pilhas. Tive uma pilha de Aqui, que distribuí pros amiguinhos de gosto sofisticado. De Meu amigo Dahmer. Minha última pilha foi de Buenas noches, Planeta, do Liniers, que presenteei aos filhos dos amigos.

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Passei toda a leitura de Quadrinhos dos anos 10 pensando que seria o melhor presente pro meu pai, mas não encontrei a ocasião certa e agora não tem ocasião nenhuma.

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Antigamente eu fazia encaixes a partir de outros gostos do presenteado ou presenteada. Se ela lê literatura X, se ele escuta música Y, se gosta de filmes Z, tem também um quadrinho X, um quadrinho Y, um quadrinho Z. Não sei se isso ainda funciona. Na minha velhice, não me acho muito a par de literatura, música e filmes nem acho que as pessoas ainda tenham gostos bem aferrados como antigamente. Ou têm? Não sei. Se você não se achar velho e conseguir fazer esses combos cinema-HQ, música-HQ, literatura-HQ, me avise. Quero conhecer.

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Presentear com o cânone? Um articulista sacana fez a lista das “5 Graphic Novels Que Você Tem Que Mentir Que Leu Antes dos 30” [em inglês]. Watchmen, Ghost World, Sandman, Batman: Ano Um e V de Vingança. Dá para engrossar a lista com Maus, Akira, Fun home e… Mafalda? Calvin & Haroldo? Angola Janga? Aquela história do Homem-Aranha em que ele levanta o maquinário?

“Não tenha medo de dar de presente” deveria ser critério para entrar no cânone?

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Dei Fun home para a prima psiquiatra. Ela achou a Alison Bechdel um saco.

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Tem também aquela vez em que você resolve dar um vinho para o enólogo. Não se acanhe. Se a sua missão é dar quadrinhos de presente para quem entende tudo de quadrinhos, é simples: entre numa banca ou numa livraria e peça para o atendente lhe mostrar as últimas. Escolha a que você achar mais legal, sem medo.

O único perigo é você ganhar um gibi de presente na próxima oportunidade.

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Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Foi editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (editora Narval). Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Garota-Ranho Minha coisa favorita é monstrohttp://ericoassis.com.br/

 

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