Hilda na Casa do Sol

Por Alice Sant'Anna

Foto: Fabio Uehara

Há um poema no livro Cantares de perda e predileção, de 1983, em que Hilda Hilst escreve: Lembra-te do anônimo da Terra/ Que meditando a sós com seus botões/ Gravou no relógio das quimeras:/ “É mais tarde do que supões. Na Casa do Sol, chácara onde a poeta morou boa parte da vida, na parede em frente à porta principal, entre muitos quadros, um relógio carrega o verso: “É mais tarde do que supões”.

Hilda construiu a chácara – que originalmente era um lote do terreno de sua mãe, a fazenda São José, próxima a Campinas – em 1966. Aos 35 anos, a poeta abandonou a agitada vida paulistana para se dedicar à escrita. Ao lado do então companheiro, o escultor Dante Casarini, com quem foi casada entre 1966 e 1985, a escritora elegeu a área onde havia uma frondosa figueira para ser seu novo lar.

Nessa casa, frequentada por amigos e cachorros – dezenas de cachorros –, Hilda produziu parte fundamental de sua obra, como os livros de poesia Poemas malditos, gozosos e devotos, de 1984, e Amavisse, de 1989. E foi lá que ela passou a escrever ficção, com o livro de estreia Fluxo-Floema, de 1970, e peças de teatro, dentre as quais O verdugo, de 1969.

Hilda morreu em 2004, aos 73 anos, e deixou uma vasta obra absolutamente original e transgressora. Passada mais de uma década, a Casa do Sol continua ativa e pulsante. Lá, diferentemente do que diz o relógio, não parece ser tarde demais. A mesa da escritora se mantém a postos, os quadros e as fotos permanecem pendurados na parede, os simpáticos vira-latas ainda circulam, e escritores e artistas de diversas áreas seguem visitando o local para se dedicar aos seus próprios projetos com tranquilidade e concentração.

Não à toa, a Casa do Sol – que hoje é a sede do Instituto Hilda Hilst, onde está arquivada a biblioteca pessoal da escritora – em muito se parece com a obra da autora de Do desejo: estão todos convidados.

Fotos: Fabio Uehara. 

Agradecemos a Olga Bilenky e Daniel Fuentes, do Instituto Hilda Hilst.

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Da poesia, livro que reúne toda a produção poética de Hilda Hilst, chega às livrarias no dia 24 de abril.

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Alice Sant'Anna é editora da Companhia das Letras. 

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