In media res

Marília Garcia

1.

Já que estamos no começo do ano, gostaria de falar sobre começos. É que eu tenho um fraco por eles. O começo de um poema pode ser tão desconcertante que, às vezes, imagino uma antologia feita só de começos. Por exemplo, este da Adília Lopes, tão simples, com tantas implicações:

Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
[...]

 

Mas, o que vem a seguir? Bom, sei que não faria muito sentido uma antologia só de começos, afinal umas das qualidades de um bom começo está em despertar a curiosidade para o que vem depois. Mas de todo modo, seria só uma antologia imaginária. E poderia ter também este começo de poema da Mary Jo Bang, com um fiapo de história:

Ela dormiu durante o terremoto na Espanha.
[...]

E ainda mais um, da Anna Akmátova (na tradução de Lauro Coelho Machado), contendo uma cena congelada que diz tanto em tão pouco:

Apertei as mãos sob o xale escuro.
“Por que estás tão pálida?”
[...]

 

2.

E começo de novo, desta vez com uma anedota.

Paul McCartney conta que, durante o processo de composição de uma música, depois de ter pronta uma primeira versão, ele costuma cortar a canção no meio e deslocar a segunda metade para o começo. Com esta inversão, as canções sempre começam lá no alto, in media res.

 

3.

E aqui um começo para a filosofia.

Deleuze faz uma distinção entre dois tipos de esportes. Um deles precisaria de um impulso inicial, um ponto de apoio (e de origem) e teria um começo bem demarcado e explosivo: corrida, lançamento de peso, futebol. O outro tipo de esporte começaria a partir de um movimento pré-existente, como o surfe ou a asa delta, em que se deve pegar a onda (de água ou de ar) já em movimento. O começo neste caso é apenas um corte, um entre. Como numa canção de Paul McCartney.

 

4.

Eis mais um começo de poema, de Emmanuel Hocquard:

“escolha uma palavra
uma palavra como Hudson
e faça passar o rio
dentro deste poema”

 

5.

Agora, o começo da poesia. Pra mim, foi pelo telefone (e por engano).

Não me refiro ao começo da escrita, que foi bem mais tarde, mas o começo como leitora (ou melhor, como ouvinte). O telefone lá de casa era cinza, daqueles de discar, e tinha um gancho preso à base por um fio em espiral. Quando eu era criança, minha mãe descobriu por engano uma secretária eletrônica que tinha como mensagem um poema do Drummond em uma gravação feita pelo próprio (era um LP, pois dava para ouvir o chiado da agulha). A cada mês, gravavam um novo poema até completar o disco inteiro. E, a cada mês, minha mãe discava o número e me dava o fone para ouvir o poema. Depois do bipe, desligávamos o telefone. Nunca soubemos de quem era aquele número e sempre atendia a secretária eletrônica.

 

6.

Drummond tem tantos começos, E agora, José?, João amava Teresa, Quando nasci, Tinha uma pedra, tantos começos que se espalham pelo dia-a-dia, quase anônimos, viram domínio público, chegam pelo telefone, circulam pelas telas, tantos versos que estão no estoque de frases da língua.

 

7.

E, por fim, não um começo, mas o final de um poema da Wislawa Szymborska sobre começos, afinal o que são os começos? De “Amor à primeira vista” (na tradução da Regina Przybycien):

Porque afinal cada começo
é só continuação
e o livro dos eventos
está sempre aberto no meio.

 

***

Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017; vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura 2018).

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