Isnotgãu

Érico Assis

Diálogo quase verídico entre mim e o editor Emilio Fraia:

– ...e esse “hair don’t care” é um bordão dos anos 60, mas voltou à moda por causa da Beyoncé e outras aí. Acho legal que fica parecendo nome de álbum ou nome de música.

– Tudo bem, Érico. Mas “isnotgãu”...

– Ela é blogueira de moda! Elas falam tudo em inglês!

– Mas deixar o título do livro em inglês? 

– Preferia o quê? Garota-Ranho?

– RANHO! Precisamos de um título que diga RANHO!

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Blogueira de moda é a profissão da Lottie Person, a personagem principal de Garota-Ranho. E blogueira de moda… fala tudo em inglês? Bom, sim, se elas forem como a Lottie e morarem em Los Ange-- em L.A., elas costumam falar algo que se aproxima do inglês. Só que a minha função era traduzir Snotgirl para o português e uma das brincadeiras da tradução é imaginar como as personagens que moram em L.A. e falam uma língua que se aproxima do inglês falariam em português se falassem português. E aí eu acho, ou defendo, que, mesmo falando português, elas usariam muitos termos em inglês – ou algo que se aproxima do português misturado com inglês. Por motivos de: blogueira de moda.

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Boyfriends. Girlfriends. Newbies. Trending. Look. Stalkear. Comments. OMG. Creep. “A gente vai ser best”. Mais fresh, mais fun. Vibes. Fofs e not fofs. Get-togethers. Unfollow. Looks. Influencers. Outfits.

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Snotgirl ou Garota-Ranho é uma série que sai aos fascículos nos EUA a cada dois, três meses. Às vezes tem férias maiores. Já tem um final mais ou menos planejado, lá pelo número 30 ou 40. Isso vai dar 6 ou 8 coleções como esta que saiu há pouco no Brasil.

É uma série sobre o mundo das blogueiras de moda – fashion bloggers, fashion instagrammers, social media fashionista model influencer it girls. E não é a piada pronta, o clichê, a crítica moralista a esse mundinho, pois isso não ia render uma série. Tem piada, tem clichês e tem crítica, mas não só. Numa das edições recentes, há uma fantasma cuja maior saudade da vida viva é do seu celular. Mas não para por aí.

Lottie tem 26 anos (e ¾), é blogueira desde adolescente e começou a levar os choques de realidade de quem chega aos 20 e muitos. Também rola uma trama muito estranha sobre um assassinato (ou dois, ou nenhum), que pode ou não ter a ver com o remédio para alergia que Lottie começou a usar.

Bryan Lee O’Malley, o roteirista – mesmo de Scott Pilgrim e Repeteco – não costuma ser reconhecido pela habilidade com ritmo e timing nos seus quadrinhos, mas é muito bom nestes aspectos. Em Garota-Ranho, ele está no seu mais experimental – a primeira história é intencionalmente desconjuntada, talvez não-linear, no limite narrativo de o leitor achar que sua edição veio com páginas faltando. Também é o primeiro experimento de O’Malley dividindo o quadrinho com alguém: Leslie Hung, fashionista convencida a virar quadrinista.

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O inglês-no-português parece que tem uma função de acento, de itálico nos diálogos da bolha fashion. Tem uma diferença de tom quando a pessoa fala “sua amiga” e quando fala “sua girlfriend”. Ou “como vai a família?” e “como vai a family?” É um pouco de colonização, é um pouco de preguiça, mas parece que tem uma ironia, uma acidez, em salpicar termos anglófonos – ou semi-anglófonos, como googlar e boy magia – nos diálogos. Ou eu acho que tem.

O fato é que tentei passear pela bolha fashion, via internet. Youtubers, principalmente. Confesso que, no meu pré-conceito, achei que ia encontrar mais inglês nas youtubers brasileiras. #errado. O fashionês brasileiro tem suas gírias próprias que não dependem da referência anglófona.

Na minha primeira tradução, havia mais coisas que eu havia me justificado manter em inglês. Depois de passear pela bolha, vi que estava caricato demais. Garota-Ranho tem seus momentos de caricatura, mas não sempre. Minha esposa conhece esta bolha melhor que eu e ajudou na descaricaturização. Ela também colaborou com umas hashtags típicas de instagram como #cuidandodemim e #sóacho.

Segundo o fashionês brasileiro, justifica-se inclusive a tradução do título, que antes eu queria manter em inglês. O puxão de orelha do editor foi válido. Essa coisa meio moleque de usar “ranho” no título deixa à vista um dos contrastes que dão o tom da série: as aparências do universo da moda e as melecas que a gente não quer que os outros vejam.

Outra coisa: tem bolhas e bolhas, e bolhas dentro de bolhas. E dialetos e idioletos. Vide a fauna variada – praticamente cada um com sua língua própria – no Quanto custa o outfit?

 

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amg. bbq. bff. blz. blz. ctz. fikdik. flw. glr. m add. omg. plmdds. pqp. qq. S2. sdds. vdd. vlw. vsf. xoxo.

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O que algumas pessoas levantaram contra a tradução do título – fora que podia ser uma brincadeira com o Homem-Aranha – é que ranho seria um termo “regional”: coisa que paulista fala quando encontra uma palavra que não ouviu hoje. E tudo bem, às vezes sou acusado de gauchismos e a crítica é válida. Mas outros leitores paulistas vieram defender que ranho é, sim, uma palavra comum no linguajar paulistano – ou em alguns linguajares paulistanos – para se referir àquela meleca que sai do nariz.

De novo: bolhas dentro de bolhas.

 

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Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Foi editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (editora Narval). Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Garota-Ranho e Desenhados um para o outrohttp://ericoassis.com.br/

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