K

Por Kelvin Falcão Klein

Ainda que essa letra tão característica no título de Zero K não tenha relação com Franz Kafka, é possível reconhecer uma série de motivos kafkianos no romance de Don DeLillo. Em primeiro lugar, a questão da filiação e da herança. O narrador de Zero K se identifica como Jeffrey Lockhart, um homem sem atividade definida que segue o pai – riquíssimo investidor – pelos meandros de um projeto científico de conservação e armazenagem de corpos humanos pela criogenia. Por trás do verniz futurista, há uma constante preocupação com o olhar, a aprovação e o aval paternos.

“Este emprego faria de mim o Filho”, pensa Jeffrey em dado momento. “Quando é que um homem se transforma em pai?”, reflete ele mais à frente. “Os nomes inventados têm a ver com a paisagem destroçada do deserto, fora o nome que é de meu pai e meu”, acrescenta depois, e assim por diante. A escolha faz sentido: um romance sobre algo tão incerto e abstrato quanto o futuro precisa de algo palpável em que se ancorar, algo que diz respeito à experiência humana compartilhada em qualquer tempo e espaço, daí o uso da filiação, da sobrevivência do sujeito através de seus descendentes.

Em certa medida, Zero K pode ser lido como a elaboração do distanciamento do pai, o homem que Jeffrey busca entender como indivíduo e como alguém que escolhe se dar à morte, à criogenia. Se pensarmos em A estrada, de Cormac McCarthy, ou Children of men, de P. D. James, vemos que o tema da ameaça à descendência tem raízes na ficção distópica.

Outro tema forte de Kafka também central para DeLillo é a transformação, a metamorfose (de certa forma ligado ao anterior, se entendermos que toda sobrevivência pressupõe uma transformação). A metamorfose em Zero K diz respeito à sobrevivência dos corpos para além da morte pela via da criogenia – uma vida póstuma que se dá em um ambiente controlado, em cápsulas hermeticamente fechadas, sendo uma delas especialmente esculpida para receber o cérebro, que é retirado junto com outros órgãos – “morrer humano, renascer como androide isométrico”.

A metamorfose em Kafka não envolve apenas o inseto. Diz respeito também às várias oscilações possíveis entre humano e animal, entre humano e algo que está além ou aquém do humano. Josef K., de O processo, é assassinado “como um cão”, escreve Kafka. Mas a última frase do romance é “como se a vergonha devesse sobreviver a ele”. De novo a sobrevivência ligada à transformação. A metamorfose, em Zero K, é constantemente evocada: “seres humanos como manequins”, “manequins recurvados numa urna mortuária”, ou ainda, corpos humanos “reduzidos a naturezas-mortas, crionicamente imobilizados”. O narrador de DeLillo flutua entre a descrição, o estupor, a repulsa e o fascínio pela transformação. Zero K é uma densa exploração daquele Unheimliche de Freud – o estranho que irrompe do familiar, o androide isométrico que olha com os olhos do pai, simultaneamente abstrato e concreto.

Outro contemporâneo de Kafka, Walter Benjamin, cunhou uma fórmula para explorar esse fascínio por aquilo que escapa do humano e que, ao mesmo tempo, faz o humano: “sex appeal do inorgânico”. A fórmula de Benjamin abarca uma constelação de temas, do crânio descarnado como alegoria barroca até o fetichismo da mercadoria tal como Marx define n’O capital. Em comum, essa mescla de fascínio e repulsa pelo inanimado – Benjamin dá como exemplo a moda. “A gente desejava com volúpia”, diz um personagem de Zero K ao narrador, comentando os primórdios do projeto de criogenia. Mas para DeLillo o sex appeal do inorgânico não está apenas na visão do corpo humano como manequim ou androide, está também no dinheiro. Assim como em Cosmópolis, Zero K vibra com o gozo advindo da riqueza, do choque entre o fluxo abstrato das ações e dos investimentos e o resultado palpável do mundo dos super-ricos.

Nessa perspectiva, o romance futurista de Don DeLillo se apresenta não tanto como um exercício de previsão ou profecia, mas como reelaboração de temas que circulam há muito pela história da literatura. Como diz o autor na frase final de outro romance surpreendente, Os nomes, de 1982: “O pesadelo das coisas reais, as maravilhas decadentes do mundo”.

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Kelvin Falcão Klein  é crítico literário, professor de literatura na UNIRIO e autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (Ed. Modelo de Nuvem, 2011). Escreve no blog Um Túnel no Fim da Luz.

 

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