Knausgård e a vida que imita a vida (ainda que arte)

Por Guilherme da Silva Braga

Bob Dylan, 1962

Se você já leu qualquer um dos quatro primeiros volumes da série Minha luta, de Karl Ove Knausgård, publicados pela Companhia das Letras, não há de ter estranhado o título desta postagem: nas intermináveis páginas desta obra descrita alhures como um romance memorialista (esta a melhor definição curta que já encontrei para o que é Minha luta), Knausgård faz um esforço monumental para criar uma obra de arte que se apresente como uma imitação fiel de uma vida comum. O curioso é notar que o sempre relevante adágio “a vida imita a arte” – notado há poucos dias quando da eleição de Donald Trump, profetizada em um episódio de Os Simpsons que foi ao ar no ano 2000 – também se aplica quando a arte imitada em questão é justamente a narrativa de uma vida comum: em uma reviravolta similar, nossa vida real de hoje imitou ao menos uma pequena parte da vida passada que Knausgård nos apresenta como arte no quinto volume de Minha luta – a ser lançado em 2017 pela Companhia das Letras. 

Embora meus gostos musicais tenham uma forte tendência boreal, conforme expliquei em outra ocasião, não me passou despercebida a recente nomeação de Bob Dylan para o prêmio Nobel. Enquanto eu trabalhava na tradução deste quinto volume de Minha luta, percebi que a premiação tampouco havia passado despercebida para Knausgård – em 2010.

No trecho, Knausgård e o irmão Yngve estão conversando sobre música com Asbjørn, que em tom de evidente deboche canta a bola em um diálogo a três que presta homenagem à longa e honrosa tradição de xingar o gosto musical dos bons amigos enquanto se enche a cara:

 

– Logo o Yngve vai pôr um disco do Queen para tocar – Asbjørn disse para mim, afastando-se do toca-discos. – Esse momento sempre chega. E nessa hora ele está sempre tão bêbado que para todos os fins práticos a noite já acabou. Pelo menos no que diz respeito a ele.

– Eu também gosto de Queen – eu disse.

– Qual é o problema de vocês? – ele perguntou, rindo. – Isso é genético ou vocês tiveram uma vida sofrida demais em Tromøya? Queen! Por que não Genesis? Pink Floyd? Ou então Rush!

– Os caras do Rush são bons – Yngve disse às nossas costas. – Eu tenho um disco deles.

– E o Bob Dylan, então? As letras são muito boas! Ha ha ha! Chega a ser um escândalo não terem dado a ele um prêmio Nobel.

– A única coisa que o Rush e o Bob Dylan têm em comum é que você não gosta de nenhum deles – disse Yngve. – Mas o Rush tem muita coisa boa. A guitarra, por exemplo. Mas são detalhes que você não sabe ouvir.

– Estou decepcionado, Yngve – disse Asbjørn. – Nunca achei que você desceria tão baixo a ponto de defender o Rush. Eu já fiz as pazes com a ideia de que você gosta de Queen. Mas Rush... Que tal ELO?

 

Como se vê, a vida imita a vida – ainda que arte.

Ou vice-versa.

* * * * *

Guilherme da Silva Braga é doutor e mestre em estudos de literatura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Desde 2005 dedica-se à tradução literária, e nesse período traduziu obras clássicas e modernas a partir do inglês, do sueco e do norueguês para diversas editoras brasileiras. Foi tradutor residente da Magyar Fordítóház (Hungria), da Ireland Literature Exchange (Irlanda), do Oversetterhotell (Noruega) e da Übersetzerhaus Looren (Suíça). Ministrou aulas e seminários de tradução literária em nível de especialização e mestrado na PUC-RS e no Trinity College Dublin. Em 2016 foi indicado ao prêmio Jabuti pela tradução de A ilha da infância, romance de Karl Ove Knausgård publicado pela Companhia das Letras.

 

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