Ler 'Ulysses' pela primeira vez

Luisa Geisler

Faz calor em Dublin — pela primeira vez desde setembro do 2016, vesti uma regata. Estou em Sandycove e não é muito mais que Tramandaí. A Martello Tower está ao fundo. É véspera do meu aniversário e isso não importa. Começo a caminhar rumo à torre enquanto um grupo escolar de crianças de no máximo oito anos passa por mim em uniforme e em fila.

“Happy Bloomsday!”, elas dizem para ninguém em especial. Eu sorrio, porque tenho medo de crianças. Eu queria não estar sozinha para fazer um comentário, que me parece muito esperto, sobre como um século altera o destino de um livro banido por obscenidade.

A verdade é que nunca li Ulysses e ao mesmo tempo, já o li milhares de vezes. Minha fase de pedantismo máximo (não que tenha melhorado muito) foi aos quinze anos e, nesse um ano, li Grande Sertão: Veredas e Ulysses. Em homenagem a Joyce, digo na forma mais adequada: não entendi porra nenhuma. Mas li. Palavra depois de palavra, frase depois de frase, de Nonada a Travessia. Hoje, Grande Sertão é meu livro favorito, tenho uma tatuagem por conta de Guimarães Rosa e releio o livro anualmente, em uma celebração à minha ignorância. Desde então, compreendo melhor, ganho interpretações novas, notando mais camadas. Mas reler se tornou uma lembrança constante de que nunca vou entendê-lo por completo e, se entender com toda a certeza do universo sem espaço para discussão, isso diz mais sobre mim do que sobre o livro. Essa é a beleza dos livros mais desafiadores.

No entanto, desde aquela leitura capenga, não tinha encostado em Ulysses. Até 2016, me tranquei em um ciclo de dez anos de puro medo. Mais do que meu medo de crianças, a aura de Ulysses me aterrorizava. Eu conhecia a versão resumida do livro e de episódios. Conseguia me fazer passar por ter lido e entendido, com palavras-chaves e pontos de discussão. Tenho uma piada pronta sobre Ulysses, em que sempre respondia que não li o livro, mas vi o filme. Sempre funciona.

Mas tinha taquicardia de pensar em ler. E não por minha culpa. Eu tinha lido Dublinenses e Um retrato do artista quando jovem, até as cartas para Nora Barnacle. Mas Ulysses? Nunca. O maldito autor, ainda por cima, disse que tinha colocado tantos enigmas e quebra-cabeças que isso manteria os acadêmicos ocupados por séculos discutindo a respeito do que ele quis dizer. De certa forma, o livro lucra com isso, e com motivo. Não vou citar uma enciclopédia de referências, mas basicamente toda pessoa próxima da área de Letras que se preze está ocupada elogiando e discutindo o que Joyce quis dizer.

Nem vou mencionar Finnegans Wake, que ainda me causa o terror.

Mas cheguei à Irlanda. Queria escrever sobre a Irlanda. Precisava ir de novo. Apreciando palavra por palavra, travando de novo no maldito Prometeu. Usei o guia do Caetano W. Galindo, o Sim, eu digo sim, e uma edição comentada em inglês, para estudantes, cheia de notas de rodapé. Não peçam referências, pois meu único critério foi que a contagem de linhas era igual à da edição Gabler, usada em aula.

A “primeira leitura” aconteceu no final de 2016. No primeiro semestre de 2017, resolvi fazer uma matéria na pós-graduação da University College Dublin, alma mater do fofo, sobre Ulysses.

E reli a desgraça. Ouvi em audiobook até. Viajei uma vez por semana de Cork, onde moro, para Dublin, com uma mochila pesada em tradição joyceana — uma edição traduzida, a edição em inglês para estudantes e um Kobo com e-books dessas e outras edições, além das leituras de aula.

E, mais uma vez, apesar de ter lido de cabo a rabo e analisado episódios e teoria feminista e pós-colonial e estruturalista e de crítica literária e discutir em aula se Joyce era um autor europeu ou irlandês ou dublinense ou da casa do capeta, consigo fingir melhor que antes. Mas não sei dizer se li o livro.

Custei a marcar Ulysses como lido no Goodreads, rede social de leitura, por isso. Não sei dizer se li Ulysses, apesar de ter lido Ulysses. “Entendi” o livro, aprendi o que os acadêmicos sugerem que deve ser entendido, e discuti o que os acadêmicos sugerem que deve ser discutido e formei uma opinião em geral sobre cada um dos pontos.

O livro não é um oceano de impossibilidade que me haviam prometido. É um livro “difícil” (muitas aspas), que exige persistência e esforço, mas é incrível. Incrível, palavra por palavra por palavra, mesmo quando não se entende a intenção do autor. Aliás, duvido que Joyce entenda 100% da sua intenção como autor em 100% dos pontos.

Sei que preciso relê-lo, mas o único jeito de reler é ler. Ao mesmo tempo, a sensação que tenho, tanto com Grande Sertão quanto com Ulysses, é de que toda a leitura é a primeira leitura. Talvez essa seja a beleza dos livros mais desafiadores.

Leiam Ulysses. Existem guias, fontes, sites. Parece difícil, mas há muita ajuda. É um dos livros mais sociais, mais discutidos, mais falados (vide Bloomsday). Inclusive, eu poderia criticar Bloomsday, a cultura irlandesa que mais idolatra o símbolo do que o livro, mas isso é para outro texto. Só leiam Ulysses: vão ler Ulysses pela primeira vez. E, como disseram as criancinhas uniformizadas em fileira, happy Bloomsday.

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Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

 

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