Literatura e respiração: Ricardo Piglia (1940-2017)


Pedro Meira Monteiro

Lemos como quem quer respirar. Continuar a leitura é às vezes uma necessidade estranha e imperiosa, como quando se arranca na corrida sem que haja mais fôlego.

O escritor é um leitor in extremis, alguém para quem a parada não faz parte do jogo. Quando os estoicos escreviam sobre a morte virtuosa, o fato é que escreviam, não morriam. Falavam da ausência, preenchendo-a com as letras. O estranho, no fim das contas, é manter-se do lado de cá, onde estão os vivos, abandonados todos os dias pelos mortos.

Morreu Ricardo Piglia dia 6 de janeiro. Como tantos que o conheceram e o admiraram, já há algum tempo eu vinha pensando no sentido de uma vida que se estende ao limite, como que pendendo no umbral da morte. Desde que foi diagnosticado com uma doença neurodegenerativa, há alguns anos, seu corpo vinha se desligando, e as notícias trazidas pelos amigos mais íntimos que o visitavam eram impressionantes. Ricardo foi progressivamente perdendo os movimentos, até que lhe restaram os olhos e os ouvidos. Graças à tecnologia de eye tracking, e a despeito da traqueostomia e da dependência severa de máquinas e pessoas à sua volta, ele pôde escrever quase até o final, apontando o olho para as teclas que descansavam numa tela. Seguia lendo, ouvindo e escrevendo, cada vez mais conectado às máquinas.

Para seus leitores, é impossível não pensar na grande metáfora da máquina de contar histórias que segue teimosamente ligada, à margem do discurso oficial. Em La Ciudad Ausente (1992), o narrador retoma a máquina imaginada por Macedonio Fernández no Museo de la Novela de la Eterna, que é responsável pela eternização da amada, e a transforma numa engenhoca que pode seguir contando aquilo que escapa à atenção dos cidadãos. É que, mergulhada no encanto das sirenas da propaganda estatal e mercadológica, a cidade é incapaz de escutar a história daqueles que foram obrigados a deixá-la. O exercício de Piglia, leitor de Macedonio, é voltar os ouvidos ao engenho que mantém viva a voz dos que foram expulsos. Aquilo que a teoria dialética chamaria de contraideológico revela-se o produto da imaginação dos que já não cabem na cidade. O exílio é a condição da poesia, pelo menos desde que a política foi usada para se pensar a vida na cidade, quando a verdade passou a ser um problema filosófico, no embate pelo direito de se sustentar a voz em praça pública.

Ricardo não era um platônico, mas tinha fascinação pelos discursos que se desenvolviam à margem da celebridade. Em sua literatura, tudo o que é demasiado evidente sofre a torção do ficcional: numa estória, há sempre duas estórias, algo que não se revela imediatamente. Ao mesmo tempo, o flerte com o gênero policial é a crença no papel duplicador da narrativa: algo real se desenrola sob nossos olhos sem que o notemos, ou sem que saibamos como e por quê. No entanto, o detetive de Piglia não é um Sherlock que, movido por um pó mágico e pela racionalidade mais delirante, chega ao desnudamento da verdade. Menos excepcional, ou talvez menos heroico, mas ainda assim moderno, Renzi é prosaico nas suas aventuras, nunca completamente embarcado nelas, como se um Bartleby o perseguisse e ele estivesse sempre prestes a dizer que não vale a pena chegar ao fim de tudo.

A literatura vem antes do fim de tudo. No último sábado, no dia seguinte à sua morte, numa conferência em Philadelphia dedicada ao estudo do século XIX na América Latina, uma amiga lembrava sua última visita a Ricardo, em Buenos Aires. Alertada sobre a cena terrível que encontraria, ela se surpreendeu, porque mesmo com a impossibilidade de movimentar-se ou falar, a literatura era ainda uma grande “fiesta”, em torno das máquinas que mantinham o escritor vivo. Um escritor sem corpo, Piglia brincava, sério.

A memória é o grande tema da política, e Ricardo levava isso ao limite: como lidar com a voz dos mortos, como reconfigurar as narrativas e escrever a história que não foi contada? A festa da literatura é a chance que temos de mexer com os arquivos, brincando diante do esquecimento, embaralhando as recordações.

Outro amigo me lembrou sua última visita a Ricardo, em setembro. Assombrado com sua proverbial gentileza, mas também com a memória prodigiosa, capaz de resgatar detalhes mínimos do que se passara décadas antes, este amigo exclama: “mas que memória...” E eis que na tela da máquina, diante de um corpo paralisado, se lê “los recuerdos persisten”.

Foi um exercício difícil, nos últimos dias, revisitar os e-mails que troquei com Ricardo. Há pouco menos de dez anos, quando ganhei permanência no quadro docente da universidade, ele me enviou uma mensagem parabenizando-me. O título é como um convite a pensar, e cala fundo: “Permanencia y fluidez”. Ou então, a curiosidade e o pedido de indicação de três jovens (“o no tan jóvenes”) narradores brasileiros, porque suas “últimas referencias son Osman Lins, Silviano Santiago, Clarice Lispector, etc.” Ou ainda, quando combinávamos a entrevista que faríamos com ele, antes que voltasse a Buenos Aires, ele contava a Paul Firbas, copiando-me, que estivera com James Irby, e que este recordara com emoção uma conversa sobre Lezama Lima (“¿O era sobre Vallejo?”, pergunta Piglia). Ricardo era assim: conversas e mensagens rápidas invariavelmente vinham com um pequeno gesto, um aceno literário mais ou menos enigmático, o carinho condensado em uma ou duas linhas.

Piglia nunca foi à Flip, mas adorou a Fliporto. Seu forte era pelas margens, como lemos em outro e-mail, de 2010: “En Recife espero encontrarme con los espectros de Osman Lins y de Clarice”. Em 2011, quando já editávamos a entrevista que fizéramos, ele nos escreve, a mim e a Paul Firbas: “la entrevista quedó muy bien, muy fluida, con resonancias múltiples. Tiene la virtud de fijar los pensamientos todavía no pensados, que son los mejores y los más intrigantes. Produce además la ilusión de una conversación, como si no estuviera grabada y filmada. Aparte de esta ilusión de inmediatez y de improvisación (a la manera del jazz) me gustaría revisarla o en todo caso ajustar algunos detalles (los  subrayados en verde), pero no tengo mucho tiempo en estos días. Ya me dirán qué planes tienen con la conversación. Por mi lado estoy pensando en preparar Critica y Ficción II con entrevistas de los últimos años y por supuesto me gustaría mucho incluirla. Pero para eso falta muchísimo... Espero que vayan pasando con calma el verano y que anden bien. Yo estuve una semana en Caracas donde todo está muy acelerado y muy caótico”.

Hoje penso que há algo de um cinematógrafo nessas mensagens, certa paixão de Ricardo pelas mensagens fluidas, em que permanecem apenas as recordações, como peças de um filme cujo enredo não está muito claro. Salto a 2015, quando a doença já tomara conta de sua vida e, pelo que sei, as mensagens talvez já fossem ditadas ou “escritas” com os olhos na máquina. Ou talvez o iPad ainda o ajudasse? Neste caso, reproduzo a mensagem completa: “Querido Pedro, en estos días te he tenido muy presente porque volví a leer la conversación que hicimos en tu casa con Fermín y con Paul la noche del testamento. Las imágenes volvieron como en un sueño. Ya sabes que estoy un poco embromado de salud, nada muy grave, no tengo dolores pero la dolencia ha afectado los movimientos, así que no salgo de casa y aprovecho el sedentarismo obligado para trabajar. Muchos cariños a Andrea y para vos un fuerte abrazo. Recuerdos, Ricardo. Enviado desde mi iPad”.

Ele se referia à entrevista que fizéramos em 2010 em minha casa em Princeton, com Paul Firbas e Fermín Rodríguez (Fermín participava da California, por Skype), e que se iniciara com a inusitada cena de sua chegada, ao lado de Beba, com os notários que vinham oficializar o seu testamento. É que Ricardo se aposentava da universidade, e uma questão legal o levara a escrever o seu testamento, que era assinado ali, na nossa cozinha, tendo-nos como testemunhas. Logo depois conversaríamos longamente sobre “meios e finais”, velocidade e leitura, a literatura e o fim. (A entrevista será publicada este ano, em português, na série Peixe-elétrico Ensaios, da e-galáxia.)

Depois disso, comunicações breves, algumas “assinadas” por ele, outras por Luisa Fernández, sua assistente, aliás transformada em “musa mexicana” nos Diarios de Emilio Renzi. Ele se emocionaria ainda com o ensaio que publiquei na piauí sobre os Diarios, em 2015, e, por último, em março de 2016, se entusiasmaria e enviaria um pequeno comentário para compor a quarta capa de A memória rota, livro de Arcadio Díaz-Quiñones que eu organizara e traduzira.

O que significa que Ricardo tenha seguido escrevendo, cada vez mais envolvido pelas máquinas? Está claro que havia uma pequena legião de pessoas em torno dele, dos enfermeiros e assistentes aos que simplesmente o amavam. Mas que sentido há em manter a “voz”, como último recurso e instrumento, já completamente encapsulada no grão do olhar, por meio desse gesto único de mirar um teclado e disparar as letras?

A literatura como prisão, como busca paranoica do relato perfeito... Penso em Prisión perpetua, de 1988, que se inicia “en otro país”, quando o narrador relata um conselho inesquecível do pai: “También los paranoicos tienen enemigos”. O contador da história segue: “no era um consejo pero siempre lo usé así: una máxima privada que condensa la experiencia de una vida. Esa frase era el fin de un relato, el cristal donde se reflejaba la catástrofe”. Desenrola-se então a história do pai do narrador, um peronista jogado entre a desilusão e a prisão, até que nos deparamos com esta pequena reflexão, “La luz de Flaubert”: “La novela moderna es una novela carcelaria. Narra el fin de la experiencia. Y cuando ho hay experiencias el relato avanza hacia la perfección paranoica. El vacío se cubre com el tejido persecutorio de las conexiones perfectas, la esctructura cerrada, le mot juste. Flaubert define ese camino, decía Steve. Un hombre encerrado días enteros en su celda de trabajo, aislado de la vida, que construye a altísima presión la forma pura de la novela. La luz laboriosa de su cuarto que permanecía encendida toda la noche servía de faro a los barcos que cruzaban el río. Esos marineros por supuesto, dijo Steve, eran mejores narradores que Flaubert. Construían el fluir del relato en el río de la experiencia”.

Fomos deixados para trás, como se a fantástica metáfora da respiração artificial, ressignificada, nos quisesse lembrar que a narrativa literária é também recolhimento, seleção, obsessão, e uma forma voraz de fugir ao mundo, para haver-se com ele. A nós, que ficamos um pouco mais sós a cada dia, acuados neste mundo à beira da catástrofe, resta o cristal da recordação, que ganha sua forma no “sedentarismo obrigado” da máquina literária, que nos cumpre manter viva.

Ou talvez, queiramos ou não, saibamos ou não, a máquina segue viva, fazendo-nos respirar, por enquanto.

(Publicado originalmente no blog da revista Peixe-elétrico)
 

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Pedro Meira Monteiro é doutor em teoria literária pela Unicamp e professor de literatura brasileira da Universidade de Princeton. Editou a correspondência de Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda e recentemente traduziu e organizou A memória rota — Ensaios de cultura e política de Arcadio Díaz-Quiñones, publicados pela Companhia das Letras.

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