Mac e seu contratempo

Kelvin Falcão Klein

Cena de O grande Gabbo, filme mencionado em Mac e seu contratempo

 

A obra de Enrique Vila-Matas (que inicia em 1973 com a publicação da novela Mujer en el espejo contemplando el paisaje) se organiza em torno de uma questão vital e recorrente: como construir uma subjetividade a partir dos fragmentos alheios colhidos no mundo e nos livros. Ou seja, como o trabalho de um escritor pode se realizar através da repetição de outras obras, outros escritores?

Mac e seu contratempo, o último lançamento de Vila-Matas, retorna à questão já no título – se o mundo externo oferece um “tempo”, o esforço do escritor oferece um “contratempo”, e nessa oscilação se forma a obra. O narrador do livro é o próprio Mac, que declara sua intenção de escrever um diário para fugir da forma romanesca e, com isso, gera um híbrido (seu diário não tem qualquer indicação de ano ou mês, por exemplo).

O livro de Vila-Matas também evoca outros dois experimentos com a forma diário na literatura contemporânea, solicitando uma leitura conjunta e cruzada. Em primeiro lugar, Diário de um ano ruim, publicado por J. M. Coetzee em 2007, misto de diário e narrativa com um projeto formal complexo; em segundo lugar, Diário de inverno, publicado por Paul Auster em 2012, um diário de tom autobiográfico que foca quase que exclusivamente nas experiências corporais do narrador (prazeres, acidentes, doenças e a velhice que chega).

O diferencial de Mac e seu contratempo é que Vila-Matas usa sua própria produção passada como se fosse um elemento externo, fingindo que foi escrita por alguém diferente. Mac declara que deseja reescrever Walter e seu contratempo, o primeiro romance de Sánchez, um conhecido romancista espanhol que também é seu vizinho (e que pode ser amante de sua esposa). Um detalhe fundamental, contudo, e sequer insinuado no romance, é que a descrição que se faz do livro de Sánchez corresponde a um livro do próprio Vila-Matas, Uma casa para sempre, publicado em 1988.

Tanto Sánchez quanto o Vila-Matas de 1988 escrevem livros de contos que compartilham um mesmo protagonista-narrador, um homem que trabalha como ventríloquo. Cada conto fala do protagonista e também da literatura, pois levam epígrafes de variados autores (Hemingway, Cheever, Malamud) e tentam emular seus estilos. Desse modo, com o novo livro, Vila-Matas faz um curto-circuito na questão-motor de sua obra: interior e exterior se confundem, aquilo que era próprio (Uma casa para sempre) vira alheio, estranho e distante (Walter e seu contratempo), e os dois registros são mantidos, simultaneamente, em Mac e seu contratempo.

Ao fingir ser falso o que é real, Vila-Matas age como um ator que toma a própria vida como ficção. É significativo, portanto, que os melhores comentários críticos inseridos em Mac e seu contratempo sejam sobre cinema. Assim como faz frequentemente com as referências literárias, neste novo livro Vila-Matas intensifica as referências cinematográficas, resgatando atores, atrizes, diretores e situações reveladoras de uma série de filmes – o que faz pensar em Javier Marías, outro escritor espanhol contemporâneo, que também faz uso frequente do imaginário cinematográfico (como em Assim começa o mal, por exemplo).

Quando comenta o Cidadão Kane de Orson Welles, vendo o filme como um “quebra-cabeça” e um “labirinto sem centro”, Mac se dá conta que a trama guarda afinidades com sua própria vida: “há brechas no relato da vida de Kane e não se contam fatos importantes, mas, em compensação, nos demoramos em detalhes estranhos e na fala de personagens laterais, só indiretamente ligados ao magnata”. São desses detalhes estranhos, no fim das contas, que se faz a ficção de Enrique Vila-Matas, atravessada por largas avenidas e becos sem saída.

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Leia também "A história de uma dúvida": quatro escritores brasileiros fazem perguntas a Vila-Matas. 

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Kelvin Falcão Klein é crítico literário, professor de literatura na UNIRIO e autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (Ed. Modelo de Nuvem, 2011). Escreve no blog Um Túnel no Fim da Luz.

 

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