Manuscritos notáveis

Por Kelvin Falcão Klein

É difícil decidir o que impressiona mais o leitor em Manuscritos notáveis, o livro de Christopher de Hamel: as ilustrações em grande quantidade e ricas em detalhes ou as intrincadas histórias acerca dos destinos e peripécias de manuscritos ao longo dos séculos? Partindo do final do século VI – com os Evangelhos de Santo Agostinho – e chegando ao começo do século XVI – com As Horas de Spinola –, de Hamel apresenta e descreve seu contato com doze dos mais raros e caros manuscritos medievais conhecidos no mundo hoje.

As tramas e trajetos das histórias dos manuscritos são por vezes tão barrocos que é preciso voltar, ler de novo. Faz sentido que Tom Stoppard – artífice dos jogos de espelho em suas peças – tenha elogiado o livro (“nos faz recordar a todo instante o caráter transitório das bases de nosso conhecimento”). As Horas de Joana de Navarra, por exemplo, do segundo quarto do século XIV (tipo de livro comum na Idade Média, com salmos e orações para o dia a dia), ricamente ilustrado com miniaturas de santos e historietas edificantes, foi confundido com um tijolo por um soldado francês no fim da II Guerra Mundial e recolhido. O manuscrito depois foi doado a um mosteiro na década de 1950 e vendido à Biblioteca Nacional francesa na década de 1960.

Manuscritos notáveis é um livro imponente, um projeto de grande porte, mas que se sustenta em seus detalhes. Um papagaio dentro de uma gaiola, um macaco no parapeito da janela, por exemplo, indicando a riqueza de seu proprietário. De Hamel escreve que observar horas a fio a minúcia das miniaturas nos manuscritos “é como percorrer de verdade uma galeria de arte com pequenos quadros de antigos mestres flamengos, nada inferiores em qualidade aos melhores painéis”. O pergaminho, feito de pele de animal (carneiros, bezerros, cabras), é esticado e raspado até adquirir a textura ideal para a absorção e manutenção dos pigmentos da escrita e das iluminuras. Da pele de cada animal, contudo, se preparava não mais do que um simples par de folhas. Para as 1030 folhas do Codex Amiatinus, do século VIII, escreve de Hamel, “deve ter sido utilizada a pele de 515 bezerros”. 

Nos manuscritos medievais, texto e imagem não operam de forma totalmente integrada, como seria o caso em uma ilustração e sua legenda. Os dois registros são pautados por convenções tradicionais que já não existem em nosso mundo contemporâneo, o que reforça a sedução desses enigmas (sem mencionar, evidentemente, a leitura do latim ou a decifração das intrincadas caligrafias dos copistas). No Saltério de Copenhague, por exemplo, do terceiro quarto do século XII, surge, lá pelas tantas, uma letra maiúscula – a capitular que inicia a frase – que retrata um homem com uma perna de madeira segurando um par de tesouras acima de uma lebre ou um coelho. Segundo o autor, a imagem é “um símbolo daquilo que simplesmente não pode ser feito”, ilustrando um ditado medieval que diz que “é mais difícil fazer tal e tal coisa do que era, para um homem com perna de madeira, pelar uma lebre” (lembrando que a lebre era considerada o animal mais rápido do campo).

 

O homem da perna de pau, contudo, não é apenas a ilustração de um provérbio, é um recado do artista responsável pelas iluminuras, Mestre Simon. Está ali para marcar e celebrar o término do Saltério, obra vasta e complexa que gerava dúvidas por sua conclusão. A imagem aí se torna, portanto, uma assinatura do artista e uma permanente rememoração de seu trabalho material. Esse é provavelmente o ponto mais reforçado por Christopher de Hamel em seu livro: ele fala dos esforços de digitalização dos acervos, indicando manuscritos que se encontram disponíveis para consulta pela internet, mas sempre retorna à materialidade dos manuscritos, incentivando aqueles que têm interesse (e recursos) a buscar o contato com as fontes. O mundo medieval é o mundo da presença, e a insistência do autor em marcar sua vivência com os manuscritos é o procedimento diferencial do livro, sua forma sutil de “reviver” a Idade Média. 

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Kelvin Falcão Klein é crítico literário, professor de literatura na UNIRIO e autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (Ed. Modelo de Nuvem, 2011). Escreve no blog Um Túnel no Fim da Luz.

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