Match point

Por Sérgio Augusto

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Foto: Christopher Sessums

Texto originalmente publicado no dia 28 de maio no jornal O Estado de S. Paulo.

Nada a ver com o filme de Woody Allen. Com tênis, sim. De um lado da rede, um dionisíaco pintor lombardo; do outro, um apolíneo poeta madrilenho. Não se defrontaram em Roland Garros ou Wimbledon -- cujas quadras, aliás, nem existiam -- mas na Piazza Navona, em Roma. Há tanto tempo (1599) que ainda chamavam o jogo de pallacorda e as bolas (pallas) eram feitas de pelos, única parte do morto que não apodrece.

Caravaggio, o pintor, foi um consumado tenista; Francisco de Quevedo, o poeta, além de coxo da perna direita, não sabia sequer empunhar uma raquete. Caravaggio era gay e dissoluto; Quevedo, um rígido defensor do império espanhol e do catolicismo mais retrógrado.

Quem ganhou a partida? Você só saberá na última página de Morte súbita, romance histórico-ensaístico do mexicano Álvaro Enrigue, lançado esta semana pela Companhia das Letras. Pois só nele essa partida, improvável embora historicamente possível, aconteceu. Como dizem os italianos, “se non è vero, è bene trovato”. Morte súbita é um achado.

Partindo de uma imaginária disputa entre dois contrastantes emblemas da Contrarreforma e utilizando-a como fio condutor de uma acronológica viagem no tempo (séculos 16 e 17) e no espaço (Roma-Londres-México), Enrigue constrói um painel virtuosístico da Europa dividida entre duas formas de viver, fazer arte, ciência e praticar o cristianismo -- em contraste com o paganismo da Nova Espanha transatlântica. Ao longo de três sets e seis games, uma colagem barroca imbricando reis, papas, artistas, imperadores astecas e conquistadores sanguinários.

Cheguei a Enrigue depois de ler dois estimulantes romances de sua mulher, Valeria Luiselli (o próximo, A história dos meus dentes, sai mês que vem pela mesma Alfaguara que há quatro anos editou Rostos na multidão), que com ele virá à próxima Flip. Na pressa de conhecê-los, baixei-os no Kindle, e os li primeiro em inglês, confiante nas traduções de Natasha Wimmer, sempre impecáveis, até porque supervisionadas pelos autores, há tempos residentes em Nova York. Wimmer consolidou seu prestígio ao traduzir Roberto Bolaño. Nossos tradutores também acertaram a mão, especialmente Sérgio Molina, a quem coube cuidar de Morte súbita, primeira obra de Enrigue lançada no Brasil, por coincidência também sua estreia no mercado de língua inglesa.

Embora prestigiado em seu país de origem como ficcionista e ensaísta (começou sob a guarda de Octavio Paz, editou a revista literária Letras Libres) e mais prolífico que sua companheira, até porque há mais tempo no ofício, demorou a estourar no norte. Não li seus outros cinco ou seis romances, disponíveis em espanhol e versão digital, no site da Livraria Cultura, mas nenhum deles, asseguram, supera este seu premiado tour de force movido a saques, intrigas, degolas e traições, escrito, segundo ele, com raiva. Raiva do que está se passando no México e no mundo dominado pela violência, pelo narcotráfico, pelo terrorismo, pela cupidez financeira. “Os bons nunca vencem”, lamenta o narrador no capítulo em que Hernán Cortés domina Tenochtitlán e prende Cauauhtémoc, para em seguida torturá-lo até a morte.

Morte súbita é uma aventura literária que testa os limites da ficção histórica e, às vezes, nos primeiros capítulos, a paciência do leitor que não se interessa por tênis ou tem pouca tolerância para minúcias factuais. Quem insistir na leitura será fartamente recompensado. Borges é uma influência notável, assim como Umberto Eco e suas citações derivadas de textos medievais. Um crítico espanhol lembrou-se de Submundo, colagem histórica de Don DeLillo com uma bola de beisebol em jogo. Confesso que o modo como as bolas de tênis de Enrigue circulam na narrativa me trouxeram mais à lembrança a casaca itinerante do filme Seis destinos (Tales of Manhattan) e o rifle de Winchester 73.

Terminado o primeiro game do primeiro set, somos levados de volta a 1536, não mais na Piazza Navona, mas a Londres, ao 16 de maio em que a rainha Ana Bolena, segunda das seis mulheres de Henrique VIII, foi decapitada por um carrasco francês, importado por Thomas Cromwell. Para cortar de um golpe o pescoço da rainha, só mesmo a espada toledana, “de forja milagrosamente fina”, de Jean Rombaud, o tal carrasco do reino inimigo. Proficiente, reservado, bonitão, mulherengo, era a escolha natural para certo tipo de operações, sobretudo as escusas, “sem as quais nunca foi possível fazer política”.

A rainha não verteu uma lágrima. “Fechou os olhos. Suas vértebras, a cartilagem, os tecidos esponjosos de sua traqueia e faringe produziram, ao se separar, o elegante estalo da rolha ao ser liberada de uma garrafa de vinho”. Como não gostar de um escritor que escreve assim? E assim: “O poeta (Quevedo) comentou com aquela voz rápida e aguda com que os castelhanos perfura paredes e consciências”. E assim, referindo a Cortés nos saraus nobiliários de Sevilha: “era um homem que já tinha visto tanta coisa na vida que nem lhe passava pela cabeça não coçar o cu quando sentia coceira”.

Pelo seu tenebroso biscate, Rombaud não quis paga sonante. Preferia as melenas ruivas da rainha degolada, e as levou. Com elas mandou fabricar as mais cobiçadas bolas de tênis, que de tão famosas foram até aludidas por Shakespeare (Cena 2, Ato 3, de Henrique V) e Diderot. Quatro bolas rendeu a cabeleira real: três para o rei de França, em troca do título de mestre de tênis e esgrima na Corte, e uma quarta, que Rombaud escondeu para si, até morrer, sob acusação de traidor da pátria. Degolado, bien sûr. Ao contrário da estoica e brava Ana, chorou copiosamente ao encarar a espada de seu verdugo.

O romance, com capítulos curtos, alguns de uma página ou poucos parágrafos, um deles um e-mail do autor para a editora que vistoria seus originais, é uma aula de história do tênis, da Europa que viu nascer a modernidade e expandiu-se a ferro e fogo pelo Novo Mundo, da corrupção, do autoritarismo e das maldades da Igreja Católica e, last but not least, da revolução provocada na pintura por Caravaggio.

Quanto às bolas, parece que nunca foram usadas numa quadra. Francisco I, rei de França, jamais tirou suas três da caixa de presente levada por Rombaud a seu ministro plenipotenciário Philippe Chabot, que, por sua vez, mimoseou o futuro papa Pio IV com a quarta bola que roubara de Rombaud, antes de sua execução. Compradas com um lote de manuscritos franceses pelo magnata Andrew Carnegie, pertencem desde o século passado ao acervo de parafernália esportiva arcaica da Biblioteca Pública de Nova York, identificadas com a seguinte legenda: “Avec cheveux à la vermine hérétique” (Com cabelos da cadela herege).

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Sérgio Augusto nasceu no Rio de Janeiro em 1942, é jornalista e escritor. Começou sua carreira como crítico de cinema do periódico Tribuna de Imprensa, em 1960. Trabalhou também nos jornais Correio da Manhã e Jornal do Brasil, nas revistas O CruzeiroFatos & FotosVeja e IstoÉ, Bravo! e nos semanários O PasquimOpinião e Bundas. Foi repórter especial da Folha de S. Paulo de 1981 a 1996 e, atualmente, escreve no Caderno 2 de O Estado de S. Paulo. É autor dos livros Este mundo é um pandeiro -- a chanchada de Getúlio a JK (Companhia das Letras), Botafogo -- entre o céu e o inferno (Ediouro) e E foram todos para Paris -- um guia de viagem nas pegadas de Hemingway, Fitzgerald e cia (Leya), entre outros.

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