Mensuren

Érico Assis

Página de Mensur, de Rafael Coutinho. 

Eu estava ansioso para ler Mensur. O livro não chegava nunca. Fui me defendendo das resenhas, das entrevistas, da dose de divulgação que cercou as primeiras semanas do lançamento. Então o livro chegou. E eu li.

Agora, um mês depois, li de novo. Mas li na modalidade que eu chamo de anti-balão: ignorando os textos. Já tenho a história na minha cabeça, lembro de alguns diálogos e do cerne da conversa em cada cena. Durante esse mês, algumas imagens ficaram na minha cabeça. Queria voltar nelas.

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Mensur estava divulgado há alguns anos. Não entendia os motivos obscuros que haviam levado o Rafael Coutinho a fazer uma HQ em torno de uma modalidade de esgrima, praticada sobretudo por universitários alemães do século 16 ao 19. Ainda mais uma HQ longa, com as cento e poucas páginas que ele pensava na época.

Mensur trata de violências, no plural. Violência do dia a dia, a grande violência estrutural, as violências que vêm das intolerâncias e as pequenas violências que a gente comete diariamente. Tem homicídio, tem assédio no trabalho, tem o medo de andar na rua. Tem uma cena singela que eu acho brilhante: um cara mijando propositalmente fora do vaso, rindo e falando “Trabalha, bicho!”. Na sua cabeça, está se dirigindo a quem vai lavar a nojeira. Pequenas, mínimas violências, no meio das grandes.

Mas o brilhante mesmo está em como o autor embala essas violências ou contrasta essas violências com essa coisa complexa, confusa, respeitável (?) da violência honrada. O mensur, no caso. É um jeito original de tratar um tema inesgotável, discutir esse tema inesgotável e, feliz ou infelizmente, não propor uma solução, mas quem sabe dizer que esse tema inesgotável também é insolúvel. Ou que não tem solução em vista.

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Ignorando os balões, você começa a prestar atenção em outros padrões na narrativa que acontecem só nas imagens. Algumas coisas já tinham me marcado na primeira leitura. Na segunda, noto que, talvez, elas façam parte de um sistema.

Tem páginas virtuosas em que parece que o Coutinho complica o próprio trabalho. Tem várias fusões em que ele confunde linhas do cenário com a sarjeta (o espaço entre os quadros), em que a quadriculação não é clara. Tem umas cenas de perspectiva complexa, com movimentos de vai-e-vem e vem-e-vai. Nas primeiras páginas, é o protagonista, o Gringo, trabalhando em uma fábrica de papel higiênico. Logo à frente tem o Gringo descendo num viaduto, com os guard-rails e outras linhas desenhando a quadriculação.

Na primeira página do capítulo “São Paulo”, a massa de nuvens se abre para mostrar a cidade como se vista de um avião. Mas as nuvens também fazem parte de um pequeno detalhe da silhueta da cidade, uma vista de janela. Ou talvez da rua, de baixo para cima.

Tem os ladrilhos no prédio paulistano do Gringo em São Paulo. Tem uma coisa de José Muñoz, algumas linhas que parecem do Breccia, também sacado no ritmo do Frank Miller quando se quer velocidade. E quem sabe um pouquinho do Taiyo Matsumoto, talvez porque eu sei que o Coutinho é apaixonado por Sunny.

E tem gente, muita gente. Gente que às vezes se define só com uns risquinhos, gente que às vezes tem feições e roupas elaboradas. Sejam de poucos riscos, sejam mais trabalhados, são sempre caricaturas altamente expressivas. Quando Gringo entra por grutas ou corredores, as caras dão medo, sufocam. Mensur é cheia de corredores no escuro.

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Nas entrevistas que deu sobre a HQ, Rafael Coutinho diz que não deve se envolver, pelo menos não tão cedo, com um projeto da mesma envergadura. O álbum tem duzentas páginas e levou sete anos para ficar pronto (mas o autor fez uma pilha de trabalhos paralelos nestes sete anos). É uma leitura densa e uma experiência visual densa. A proposta é densa: pegar um tema difícil e problematizar esse tema com uma história que se leve muito a sério tanto no aspecto lógico quanto no aspecto visual da narrativa.

Apesar de várias obras brilhantes no quadrinho nacional recente, me parecem poucas as que têm esse compromisso duplo – visual e temático – em que o quadrinista escolhe as vias complicadas e vai com muito fôlego. Marcello Quintanilha, em Tungstênio e Talco de Vidro, e Marcelo D’Salete, em Cumbe, são os poucos exemplos que me vêm à mente. Não é o caso de serem obras superiores, mas de uma proposta – de densidade e afinco, que combinem tema complicado e exploração formal – que ainda é rara no quadrinho (não só nacional, aliás). São obras de mensuren, autores violentos consigo mesmo.

Não é só Rafael Coutinho, porém, que pensa em não fazer mais obras dessa envergadura. Quadrinistas estrangeiros também começam a desistir desses projetos grandes, “de livro”, apostando em obras mais compactas, mais rápidas, com mais energia em menos páginas. Claro que número de páginas não equivale necessariamente a maior densidade. Mas a bitola maior, nos quadrinhos, ajuda.

Por um lado, os quadrinhos não querem mais ficar se equiparando à literatura. Por outro, também rareou (no Brasil, na verdade, nunca houve) o apoio estrutural para sustentar um quadrinista durante a produção de uma história com 200, 300, 600 páginas. Mensur pode ser um dos últimos da raça.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. É o editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Editora Narval). Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

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