Milagres

Érico Assis


Esses dias amiga me falou que, diferente dela, minha dieta de quadrinhos aceitava tanto material de mais, digamos, proteína quanto “esses gibis de bilhões de dólares aí”. Não era para me ofender, só uma constatação.

Não era ofensa, mas tem um pouquinho de preconceito. Já existe um preconceito mais amplo contra toda a mídia quadrinhos, mas há também um preconceito interno que separa estes quadrinhos aqui daqueles de lá. Os gibis bilionários, claro, seriam os de super-heróis, enquanto os proteicos seriam o que se vê, por exemplo, aqui no catálogo da Companhia. Se você quer apresentar HQ pro mundo ignaro, não dá pra ser com Batman, né?

Ou dá?


FOTO: Mahdiar Mahmoodi via Unsplash

 

Sim, os super-heróis, todos os descendentes do Superman (80 anos este ano), presente norte-americano ao mundo, são como a TV aberta: onipresentes, baratos, coloridos, atraentes, fáceis, produzidos em série, em ritmo constante. Editoras grandes, tal como grandes emissoras, conseguem contratar o melhor autor que se preocupa em ter um salário relativamente fixo por serviços relativamente sem risco. Ainda como a TV aberta, a grande, máxima, precípua função dos gibis de super-herói é manutenção de marcas: os canais são movidos pela publicidade dos anunciantes; os gibis de super-herói, pela publicidade de si mesmos – a que gera os filmes, os bonecos, as comic cons, as camisetas, os enfeites de festa de aniversário e, aí sim, os bilhões.

Se desse plano comercial sair alguma coisa que, aqui, só para fins de resumo, vamos chamar de arte… só pode ser acaso.

O caso é que: há acasos. E eu leio os gibis bilionários por causa desses acasos. Admito inclusive que zapeio centenas de canais ruins até chegar nos acasos, ou na arte. Mas ela acontece.

O gibi de super-herói que mais se encaixa nestes acasos, no momento, chama-se Mister Miracle. É um gibi padrão norte-americano: sai (quase) todo mês, tem 20 e poucas páginas coloridas e garante-se que algumas dessas vão ter troca de sopapos. É também, como muito gibi de super-herói, recauchutagem de uma ideia antiga: o personagem – Senhor Milagre, no Brasil – existe há quase cinquenta anos e subsiste em grande parte por respeito ao seu criador divinificado, Jack Kirby.

Mister Miracle, porém, é uma história fechada, pensada para se concluir em doze revistas. Já saíram sete. A sexta edição foi uma espécie de grande paródia condensada do gibi de super-herói: Senhor Milagre e esposa, a também super-heroína Grande Barda, invadem a base do inimigo, enfrentam armadilhas e monstros, espancam ou matam capangas… enquanto discutem a reforma na casa.

“O armário embutido vira outro aposento. Com o pedaço que a gente tirar da cozinha. Que vira banheiro.”
“A gente já não tem banheiro?”
“Agora vai ter dois.”

A sétima edição, por outro lado, é um retrato pungente do nascimento do primeiro filho – no caso, o de Milagre e Barda – naquele dia tenso de hospital, com médicos e enfermeiras dando informação pela metade, a família doida na volta e a incerteza absoluta do que vai acontecer ali e depois. Elevado à potência super-herói.

Milagre e Barda também já tiveram páginas para discutir Descartes, depressão e suicídio. O desenhista, Mitch Gerards, é minucioso em expressões, comedido nas cores e nos enquadramentos, sienkiewicziano nos detalhes como retículas e distorções digitais. O roteirista, Tom King, declarou que quer retratar o clima de incredulidade e insegurança diária nos tempos Trump e propor o que se faz numa época dessas. Críticos comparam a Twin Peaks. A conclusão da história deve sair no final do ano.

King, o roteirista, também é escritor atual do horário nobre dos gibis de super-herói, a revista do Batman, e faz com Batman algumas experiências tão curiosas, inesperadas e artísticas quanto as de Mister Miracle. Quem lê os quadrinhos de mais proteína pode não acreditar, mas, olha, o que tem de narrativa experimental e temática nesses Batman ou Mister Miracle não faz feio frente a um Aqui, um Mensur, um Asterios Polyp.

É óbvio que nem todo quadrinho de super-herói é assim. Há que zapear, há que cavar, e a pilha é grande. O que me incomoda é ter desprezo generalizado pelos tais quadrinhos bilionários, porque estão condenados, porque estão em crise criativa, esgotamento do modelo, queda de vendas etc. Estão tudo isso, não tenha dúvida. O que não quer dizer que não brotem, vez por outra, milagres.

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Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. http://ericoassis.com.br/

 

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