Minha Luta 4, de Karl Ove Knausgård

Por Jeffrey Eugenides

Corbis

Karl Ove ­Knausgård

Texto originalmente publicado em 2015 no The New York Times. Tradução de Carlos Alberto Bárbaro.

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Em artigo recente para a revista do New York Times, Karl Ove ­Knausgård escreveu: “Da última vez que estive em Nova York, um famoso escritor americano me convidou para almoçar. [...] Tentei desesperadamente pensar no que dizer. Tínhamos que ter algo em comum, sendo quase da mesma idade, ganhando a vida do mesmo modo, escrevendo romances, embora os dele fossem consideravelmente de melhor qualidade que os meus. Mas, não, eu não conseguia puxar conversa sobre nada. [...] Ao voltarmos para a Suécia, recebi um e-mail dele. Ele se desculpava por haver me convidado para almoçar, tendo percebido que não devia ter feito aquilo e pedia que eu não respondesse ao seu e-mail. A princípio, não entendi o que ele estava querendo dizer. [...] Então percebi que ele tinha ficado ofendido com o meu silêncio. Ele deve ter pensado que eu achava que era um desperdício de tempo conversar com ele.”

Knausgård não revela a identidade do escritor americano com quem almoçou, mas eu revelarei: foi comigo. Devo ser o primeiro resenhista da obra autobiográfica de Knausgård a aparecer em um dos seus livros, estando portanto em uma posição privilegiada para julgar como ele faz uso do que acontece em sua vida para construir suas histórias. A partir do momento em que ele me transformou em um personagem secundário, eu ganhei uma visão privilegiada sobre o que ele está fazendo.

A série Minha Luta mostra o autor assolado por uma série de problemas. Ele tem que lidar com o pai autoritário e alcoólatra, seus desejos sexuais, os requisitos castradores para ser pai na contemporaneidade, o tédio e a fúria que são parte até mesmo de um casamento amoroso, a certeza da morte e, sempre e em toda parte, sua própria e sofrida autoconsciência. Mas o romance, em seus seis volumes e mais de 3500 páginas, é também um esforço literário para alcançar o sonho de Knausgård de algum dia escrever “algo excepcional”. O que atualmente é difícil de conseguir, porque o mundo está inundado de histórias. “Havia uma crise”, Knausgård escreve perto do fim do volume 2, “eu sentia em cada parte do meu corpo, algo saturado, como banha de porco, se espalhava em nossa consciência, porque o cerne de toda essa ficção, verdadeiro ou não, era a semelhança, e o fato de que a distância mantida em relação à realidade era constante. Ou seja, a consciência via sempre o mesmo.” Para reagir a isso, Knausgård busca alterar essa distância da realidade, o que faz observando sua vida em extremo close-up e concedendo importância equivalente tanto ao que acontece de fato consigo como ao que se passa em sua mente. O projeto pode ser comparado, na pintura, ao fotorrealismo e sua ênfase na hiper-claridade e detalhamento; ou, na direção oposta, ao impressionismo. Nos dois casos é a alteração da percepção que produz a diferença, simples o bastante na execução, mas com resultados inovadores.

Aqueles que foram enfeitiçados por Knausgård e compraram o projeto todo estão agora recompensados com o volume 4 [Uma temporada no escuro], o mais ágil, engraçado e, por ter lugar durante a adolescência de seu protagonista, o mais bombástico de seus volumes traduzidos até agora. Nele, se conta a história do ano em que o autor foi professor no norte da Noruega. Já na página 116, o livro volta ao passado para descrever os últimos anos de Knausgård no colégio, seu amor pela bebida, o divórcio de seus pais e suas paixões românticas, antes de retomar sua narrativa, na página 329. Dessa vez não há divisão em capítulos para assinalar essas viradas temporais, um recurso adequado à reprodução romanesca do fluxo da memória. Há, porém, uma trama. O livro 4 é um romance de busca. “Nessa época, o verão dos meus dezesseis anos, eu só queria três coisas. A primeira era arranjar uma namorada. A segunda era ir para a cama com uma garota. E a terceira era encher a cara. [...]Não. No fundo era apenas uma coisa. Eu queria ir para a cama com uma garota. Essa era a única coisa que eu queria.”

E não era por falta de oportunidade. As garotas se ofereciam ao jovem e bonito Karl Ove, mas, devido a um caso extremo de ejaculação precoce, ele não conseguia cumprir sua parte. Seus fracassos tornam-se um recurso cômico no romance, embora nunca provoquem aquele tipo de riso barato, porque cada abordagem é impregnada de sentimentos intensos e uma desarmante e altamente cúmplice honestidade.

O ponto luminoso na vida de Knausgård, em meio à longa escuridão invernal, é sua escrita. Além de sua coleção de discos, o jovem Karl Ove trouxe consigo para o topo do mundo uma máquina de escrever, na qual ejacula seus primeiros contos. Ao contrário da maioria dos escritores que recordam seus primeiros escritos, Knausgård não faz pouco dos dele. Eles lhe parecem de fato bem bons para um rapaz de dezoito anos, indicativos, em sua franqueza e ausência de pretensão, da direção que sua obra futura tomaria.

O livro 4 é também o mais leve da série. São raros os textos mais densos em suas páginas. Os trechos ensaísticos que elevavam os volumes anteriores, admiráveis em sua antiquada profundidade europeia e repletos de um pensamento associativo agudo, original e brilhante não dão sua graça em lugar algum. Tudo aqui é dramatizado, cena após cena, de modo irresistível, mas sem a gravidade dos volumes anteriores e indicativo de um período mais leve e despreocupado na vida de Knausgård.

A razão desses livros se assemelharem tanto à vida é que há neles um único protagonista. A despeito de todos os seus talentos, Knausgård nunca produz uma impressão indelével das outras pessoas. Apesar de ter lido centenas de páginas sobre eles, tenho apenas uma impressão limitada de seu pai e de sua mãe; e os tipos que ele encontra em Hajford, seus colegas professores, as garotas por quem ele se apaixona e seus alunos, todos tendem a se fundir. Não se entra jamais no âmago dessas pessoas. Seria impossível estar dentro deles sem alterar o foco do solipsismo knausgaardiano. Para muitos escritores isso não funcionaria. Eles não seriam interessantes o suficiente, atormentados o bastante, espertos, nobres, dignos de pena ou autocríticos a esse ponto. Com Knausgård, porém, a troca mais do que vale a pena. O cérebro dele é um lugar tão interessante para se morar que o leitor não quer jamais abandonar essa perspectiva, não mais do que, em sua própria vida, o leitor quer deixar de ser ele próprio. Um dos paradoxos da obra de Knausgård é que ao habitar tão intensamente em suas próprias memórias ele consiga restaurar -- e eu chego mesmo a dizer, abençoar -- as do leitor.

Por mais mágico que seja o efeito, o método para criá-lo não o é tanto. O que me leva de volta ao meu almoço com o na maior parte do tempo calado autor desses livros. Não há nada factualmente incorreto na narrativa de Knausgård sobre o evento. Ao ler sua descrição, porém, eu entendi o que ele está fazendo. Knausgård queria estabelecer uma distinção entre os escandinavos e os americanos no que diz respeito a jogar conversa fora. Na verdade, a razão de não termos conseguido conversar um com o outro teve menos a ver com diferenças culturais que com o fato de sermos duas pessoas nervosas com problemas de baixa autoestima e que ficaram sem jeito na presença um do outro. Isto não se encaixa, contudo, no argumento de Knausgård sobre o ocorrido naquele ponto do artigo; então, como todo escritor profissional, ele aproveitou a parte da estória que atendia suas necessidades.

O que é exatamente o que ele faz em Minha Luta. A vida de Knausgård é uma caixa de surpresas de eventos e recordações, e ele apela ao que estiver à mão. Ele não mente ou inventa as coisas (até onde sei). Mas o processo de seleção a que submete suas recordações de modo a preencher a narrativa exige que sua escrita se eleve a um nível considerável de artifício. Outros escritores inventam; Knausgård recorda. Sua matéria bruta é mais autêntica (talvez), mas os produtos que ela gera não são menos artísticos.

Knausgård descobriu um jeito de suspender a descrença do leitor em uma época em que essa suspensão é cada vez mais difícil de alcançar. Sua técnica é tão hábil que o leitor nem percebe.

Na verdade, o domínio da técnica dos procedimentos tradicionais do romance é a razão pela qual esses livros não são nem um pouquinho tediosos, quando tinham tudo para ser. Knausgård está sempre contando uma história, sempre envolvendo o leitor em alguma ligação amorosa, um desastre sexual ou uma crise emocional. E a atmosfera que ele acrescenta vem na dose certa; seu ritmo é impecável. Que maravilha ler um romance experimental que inflama todos os nervos do corpo ao mesmo tempo em que desperta no leitor o sentimento profundo do quão incrível é estar vivo, neste planeta e em nenhum outro.

“Rock ’n’ roll!”, escreve o Knausgård de dezoito anos em seu diário, exortando a si próprio a atender sua vocação literária. E é esse o espírito do Livro 4: o desabafo de um garoto com uma incrível coleção de discos que sonha ser um escritor escrito pelo grande escritor que ele finalmente se tornou.

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Jeffrey Eugenides nasceu em Detroit, nos Estados Unidos, em 1960. É autor de As virgens suicidasMiddlexex A trama do casamento, todos publicados no Brasil pela Companhia das Letras.

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