Minha filha joga quadrinhos

Érico Assis

 

Em vez de ler X-Men, minha filha está criando novelinhas de Gacha. Gacha Life, Gacha Studio e Gachaverse, os aplicativos que ela usa no celular e no tablet para montar personagens, colocar eles em cenários e encenar histórias. Jogar, como ela diz.

Em vez de pegar meus Dr. Slump, minha filha quer aprender a desenhar “animangás”. Os Gachas seguem a estética chibi: traços fofinhos, olhos grandes, cabeça avantajada, nariz inexistente, figurinos de Shinjuku. Falamos em cursos de desenho. Ela sempre teve os livros de técnica e a mãe ilustradora. Mas não, ela quer um curso de “animangá”.

Em vez de aproveitar minha coleção de Calvin & Hobbes, minha filha, quase 8 anos, passa metade das horas não-colégio nos Gachas, outra metade no YouTube – assistindo histórias produzidas nos Gachas. “A Filha Odiada” foi sensação durante umas semanas. Não é uma história só, mas um título e uma trama básica que os Gachatubers reencenam nos vídeos. Tem centenas de versões. Se entendi bem, quem começa nos Gachas cria sua versão de “A Filha Odiada”.

(Por que a filha é odiada? Porque a irmã é melhor, porque a mãe é má, porque é careca. Você inventa o motivo.)

Em vez de terminar Bone (ela começou a ler, me disse que gostou), minha filha me explica que a nova tendência nos Gachas é não copiar histórias dos outros. O bom é criar a sua. O legal é ser original. Ela me perguntou como se cria histórias, como se tem ideias.

Em vez de me pedir gibis dos Novos Titãs (ela gosta do desenho animado), minha filha quer contar histórias. Expliquei que, fora o Stephen King, a gente costuma ler muitas histórias dos outros para inventar as nossas. Falei de inspiração, de tentar pensar como o autor daquela história que a gente gosta começou, desenvolveu e encerrou uma trama. Ela começou uma adaptação Gacha de Píppi Meialonga.

Em vez de ler Mônica, minha filha já assistiu 1348 vídeos de Gacha no YouTube. É impossível monitorar tudo, filtrar tudo, saber o que ela assiste. Sou contra proibir. Felizmente, ela parece ter senso crítico. Já ouvi: “Esse canal usa muito palavrão, não vou ver mais”; “Esse canal só copia histórias dos outros”; “Esse é só besteira”. A ortografia nos vídeos é assustadora se você não considerar que é a ortografia de crianças com mais ou menos 8 anos. Quando ela mesmo cria as histórias, tentamos corrigir.

Em vez de aceitar meus livros sobre como se faz quadrinhos, minha filha vai e faz quadrinhos. Ou algo próximo. Os Gachas falam por balões, as cenas são estáticas, o timing, quando é bem feito, é o de HQ. Aos 8 anos, eu tinha papel e canetinhas para copiar o Capitão América. O Gacha Life dá 6.770.808 combinações de cabelo, fora rabos de cavalo, ahoges (o penacho rebelde na frente do cabelo), cores e espessura das pontas.

Em vez do prazer individualista de colecionar Superman desde o n. 1, minha filha quer montar um canal no YouTube para publicar suas histórias de Gacha. Tem uma amiga da mesma idade que ela visita todo sábado para aprender dicas e truques. O canal da amiga já tem 253 inscritos. Elas planejam cross-overs, estratégias para ganhar mais inscritos, comemorações a cada centena de inscritos, a evolução do figurino dos avatares.

Estou tentando me colocar no lugar dos meus pais, olhando para mim, quando eu tinha 8 anos. Eu, preferindo Stan Lee ao Erico Verissimo, John Byrne ao Henfil, super-heróis ao mundo real. Eles não torceram o nariz. Pelo contrário: me estimularam e aqui estou, ainda lendo essas coisas que eles achavam bisonhas.

Minha filha não só está assistindo vídeos que parecem quadrinhos, mas se interessando em criar histórias, em desenhar, em interagir e fazer planos com amigas, em um ambiente que parece que dá valor à originalidade. E, sim, absorvendo uma gramática terrível e ficando à mercê de tudo de ruim que a internet pode ter. O somatório, porém, parece positivo.

Em vez de reclamar, estou tentando me ver como todas as gerações que viram os quadrinhos com maus olhos. E pensar que, além de ser uma coisa nova e mal entendida, ainda tem um potencial de formação. Mas, olha, não é fácil ser pai de uma menina que não quer saber de só ler, mas sim fazer muito mais: ler, assistir, inventar, produzir, jogar quadrinhos.

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Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Foi editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (editora Narval). Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Garota-Ranho Minha coisa favorita é monstrohttp://ericoassis.com.br/

 

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