Mistério desmisterioso

Noemi Jaffe

FOTO: Unsplash

É engraçado. Quando se pergunta como aprender a tocar violão, a resposta instantânea é: fazendo um curso de violão. O mesmo com desenhar ou aprender a jogar futebol. Mas, para muitos ainda, a resposta para como escrever é: só com inspiração. Como se escrever se localizasse num patamar superior ao das outras artes e práticas; como se a ideia de aprender a escrever diminuísse a própria escrita, ou, o que desconfio mais, o trabalho do escritor. Afinal, se o escritor é movido por inspiração, ou talento, ou dom, aquilo é necessário e incontornável para ele, e inacessível para os outros.

De onde vem a ideia de inspiração? De sopro e respiração. Na tradição bíblica, Deus soprou a vida em Adão, fornecendo-lhe, com isso, sua alma. As musas gregas sopram os poemas aos poetas e aos aedos, que os declamam, convocando, com sua voz e com as palavras, sua própria presença epifânica. A inspiração, nessas acepções, provém da transcendência e ao poeta nada mais cabe do que cumprir-lhe os desígnios. Os poetas românticos, como se sabe, endossaram e reforçaram essas ideias, convenientes para os localizarem em um espaço privilegiado e inalcançável pelos outros mortais: é o gênio, o asceta, o sofredor, aquele que escreve com sangue e lágrimas, cuja vida se indistingue da obra.

Mas por que isso perdurou, depois das vanguardas, da queda do gênio e do herói, da passagem da analogia para a ironia (de acordo com Octavio Paz), da consciência do poder do mercado e da reprodutibilidade de tudo?

Porque a inspiração literária tornou-se um mito e, como todo mito, preservou-se em sua inefabilidade e a escrita, promiscuamente misturada à língua que todos falamos, precisa de um lugar isolado e eleito para discriminar-se de sua "irmã vulgar". Por partilhar com a fala a banalidade do significado, a literatura se arrojou uma dimensão mais elevada.

Discordo de quase tudo que subjaz a esse pensamento. Creio que a escrita literária acontece por meio da linguagem, que, por sua vez, só se realiza na prática. Se é verdadeira a frase de Picasso "se a inspiração quiser vir, que venha, mas vai me encontrar trabalhando" (que, aliás, lembra a de Rosa, "se Deus quiser vir, que venha, mas vai me encontrar armado"), a inspiração não é mais do que aquilo que se aciona na mente e no corpo quando a vontade literária do escritor se põe a escrever, a pesquisar, a experimentar, a revisar. Depois de períodos, mais longos ou mais curtos de trabalho integrado entre circunstâncias (pessoais e coletivas), informações, memória, conhecimento, pensamento, experiências, sensações, sentimentos, ideias, intuição, imaginação, sonhos e outras coisas que nem sabemos definir, criam-se espécies de combustões instantâneas e, aí sim, misteriosas, para surgirem então aquilo que chamamos de momentos inspirados: grandes frases, ótimas ideias estruturais ou formais, pequenos detalhes reveladores, o que faltava ao personagem ou à cena, o instante em que o substantivo acha o adjetivo que lhe faltava, como no conto "O Cônego ou Metafísica do Estilo". Nesses agoras mínimos, de forma algo inexplicável, ocorre a fusão de várias faculdades mentais e quem passa a escrever não é mais a cabeça, mas a mão e o corpo assumem o exercício, suando e tremendo. É a hora do risco, em que autor e texto são o mesmo e quando a vida lá fora e lá dentro fica menor do que escrever. Concordo que aqui ocorre algo inexplicável e é bom que seja assim. Que, na confluência de trabalho, disciplina, desejo e vontade de escrever, haja aquilo que não se domina; talvez um toque de gênio, talvez um imprevisto, o acaso, algo que não esperávamos conhecer. Mas saiu, está lá, não sei porquê e é bom.

Por isso, escrever é algo que pode sim ser aprendido. O mais importante é a pessoa querer escrever, querer aprender e ler muito, de tudo, sem parar. E depois se dispor a trabalhar muito até pingar o suor. Ou correr também não pode ser uma atividade inspirada e inspiradora?

Claro que, como resultado do aprendizado, alguns vão escrever textos melhores e outros nem tanto. O certo, entretanto, é que vão escrever melhor do que sabiam e do que podiam imaginar.

E todos, sem exceção, vão conhecer o mistério desmisterioso da inspiração, esse monstro e anjo que visita apenas quem quer ser visitado.

***

Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária. Escreveu Não está mais aqui quem falou, Írisz: as orquídeas e O que os cegos estão sonhando?, entre outros. Dá aulas de escrita em seu espaço, a Escrevedeira.