Moacyr Scliar: 80 anos

Foto: Roberto Scliar

Nascido no dia 23 de março de 1937, em Porto Alegre, Moacyr Scliar é autor de mais de 70 livros entre romances, contos e crônicas. Formado em medicina, seu primeiro livro, lançado em 1962, é inspirado em suas experiências como estudante. Seus conhecimentos literários, a cultura judaica e a vida de médico sempre tiveram espaço na sua obra, onde também tratava com humor e criatividade relatos bíblicos e questões contemporâneas. Ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura em 1988, 1993 e 2009, o APCA em 1989 e o Casa de las Americas, também em 1989. Pela Companhia das Letras, publicou livros como os premiados O centauro no jardimA orelha de Van Gogh e Sonhos tropicais. Scliar nos deixou em 2011, aos 74 anos. 

No dia em que completaria 80 anos, a Companhia das Letras lança uma nova coletânea com suas crônicas. Organizada por Regina Zilberman, A nossa frágil condição humana reúne textos publicados no jornal Zero Hora entre 1977 e 2010 em que o autor trata da cultura judaica. "Para um jovem judeu até a primeira década dos anos 2000, Moacyr Scliar era uma espécie de baliza, uma referência a ser consultada em momentos de crise e incerteza", escreve Fábio Prikladnicki na matéria sobre o lançamento.

Seja falando de literatura, cinema ou política, Scliar escreve a serviço da cultura, da história e da memória do povo judeu, contrapondo suas notáveis reflexões à barbárie dos fatos, mirando sem rodeios uma defesa fervorosa da paz, tão esclarecedora quanto necessária em nossos tempos. Para Zilberman, coube a Scliar "propor a representação mais completa e inventiva do tema e da personagem judia, traduzindo seu presente e história, seus traumas e cultura, sua participação na sociedade brasileira e a tradição mítica e simbólica legada à humanidade". 

A seguir, leia uma das crônicas de A nossa frágil condição humana.

* * *

O sobrevivente

[07/05/1978]

Vocês já devem ter encontrado com ele na rua, ou num ônibus, ou no cinema, ou numa churrascaria. Provavelmente sua figura não lhes chamou a atenção: um homenzinho pequeno, magro, de óculos, de uns sessenta anos, igual a todos os homenzinhos sessentões, pequenos, magros e de óculos, que andam por aí. É verdade que ele tem jeito de estrangeiro e fala com sotaque — mas afinal, os estrangeiros não são raros em nosso estado.

Da próxima vez que vocês o encontrarem, reparem melhor nele. Vocês verão que tem um tique nervoso: às vezes aperta os lábios, como se estivesse se contendo para não dizer algo, ou talvez para não gritar. Reparem que suas mãos tremem um pouco quando acende o cigarro. Aliás, ele fuma demais: os dedos estão manchados de alcatrão. E notem o jeito furtivo com que olha para os lados. De que tem medo? De que alguém o esteja seguindo?

Isso é o que vocês veem, mas há mais, e vocês bem podem imaginar. Que esse homem dorme mal, é fácil de deduzir; que ele rola na cama de um lado para o outro, que ele fala durante o sono, tudo isso é previsível. Vivemos num mundo conturbado, e não são poucas as pessoas angustiadas, perseguidas por pesadelos que resistem aos tranquilizantes e ao álcool.

Contudo não são problemas familiares que esse homem tem, ou dificuldades com os negócios. Há outras coisas que o inquietam, e destas vocês não sabem.

Vocês não sabem que o homenzinho pequeno, magro e de óculos, estremece cada vez que lê nos jornais notícias sobre o reaparecimento do nazismo na Europa, ou nos Estados Unidos, ou na América Latina.

Estremece quando vê publicados trechos dos Protocolos dos sábios de Sião, obra forjada pela política tsarista, atribuindo aos judeus uma conspiração para dominar o mundo.

Esse homem estremece cada vez que ouve no rádio notícias sobre prisões arbitrárias. Sobre torturas de prisioneiros. Sobre massacre de populações indefesas. Sobre o surgimento de novas e terríveis armas de destruição. São notícias que o inquietam, que o fazem sofrer e que ele não consegue esquecer, apesar de ir ao cinema, de ver novelas na televisão, de ler revistas humorísticas, de passar as férias na praia. Mas quem é esse homem, afinal?

Pouca gente sabe. O nome dele não é desconhecido; é um nome complicado, mas não em código. Um nome, porém, pouco ou nada diz da pessoa. E dessa pessoa pouco se sabe. É europeu, mas de que país? Por que saiu de lá? O que lhe aconteceu para que tenha pesadelos?

Dizem que ele passou pela guerra. Dizem que lutou no gueto de Varsóvia contra os nazistas. Dizem que esteve num campo de concentração, que sofreu fome e foi torturado. Dizem que tem gravado na pele do braço um número — o seu número de prisioneiro. Isso é o que dizem. Pode não ser verdade. Pode ser pura invenção.

Mas o número está lá. O número está no braço do homem. Embora ele procure ocultá-lo, às vezes se distrai e o número aparece.

Perguntem ao homem sobre esse número. Ele ficará confuso, procurará desconversar. Por fim dirá:

— Isto? Não é nada, não. É o número de meu telefone. É que eu sou muito esquecido, sabe? Muito, muito esquecido.

* * *

A nossa frágil condição humana será lançado em São Paulo e Porto Alegre.

Porto Alegre
Quinta-feira, 23 de março, às 19h - Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country (Av. Tulio de Rose, 80).

São Paulo
Quinta-feira, 30 de março, a partir das 9h - FFLCH-USP, Prédio de Letras, sala 266 (Rua Prof. Luciano Gualberto). 

 

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