Nem tudo que reluz é ouro: um guia prático para sobreviver a uma temporada de prêmios

Ana Maria Bahiana

E chegou aquela época do ano. Não Papai Noel, castanhas e reveillon: aqui na minha cidade adotiva fim de ano é o deslanchar da temporada de prêmios, quando estatuetas douradas são entregues e milhões de dólares são gastos em campanhas.

Depois de tanto tempo aqui, esse frisson todo virou algo bem mais simples e pedestre: trabalho. É fácil compreender as paixões que essas estatuetas provocam pelo mundo afora, o grande show de celebridades e vaidades que empolga os ãs. Por aqui, é inevitável ficar mais pragmática: como já disse aqui mesmo neste espaço, prêmios, todos, são apenas a opinião de um grupo de pessoas num determinado momento (e o que realmente pesa é o quanto este ou aquele trabalho resiste à perspectiva do tempo).

Tendo trabalhado (e trabalhando…) nesses prêmios por todos os ângulos possíveis, devo acrescentar: a dimensão em que essa festança realmente importa é sua capacidade de alterar positivamente a carreira de profissionais de todas as áreas criativas e de execução em cinema e TV. E não estou falando necessariamente de ganhar estatuetas – estou falando em estar no mix dessas disputas, e cavar um espaço ali pelo meio.

Pensando nisso, e com base nas minhas três décadas de janela por aqui, ofereço estas singelas dicas para realizadores que sonham um dia estar na temporada de ouro.

Acredite no seu filme. Só você sabe o quanto de trabalho, tempo e cuidado foi investido no seu projeto. Você acha que o resultado tem calibre para encarar a competição mundial que se movimenta em torno dessas estatuetas todas? Se a resposta for sim, vamos ao próximo item.

O que você quer ganhar com a experiência? Se a resposta é “um prêmio, claro!” , pense de novo. As chances de você – ou qualquer realizador/realizadora – ganhar um prêmio é, na melhor das hipóteses, uma em 100/150 (isso considerando apenas filmes estrangeiros). Claro que, em tese, todo mundo entra para ganhar, mas essa não é uma boa razão para enfrentar a corrida de obstáculos que vem a seguir. O melhor que essa oportunidade oferece é a exposição imediata a um vasto círculo de profissionais, executivos, formadores de opinião. Se o seu filme se beneficiaria com esse tipo de atenção, respire fundo e encare o desafio.

Ser escolhido por seu país é apenas uma das possibilidades. Seu filme foi ungido para representar seu país? Ótimo – nesse caso, comece o mais cedo possível a explorar que suporte você pode receber das instituições. Não foi? Existem vários prêmios importantes que não se atêm às seleções oficiais de cada país. Dois deles, que recomendo sempre: os Globos de Ouro e os Independent Spirit Awards. Cada um tem suas regras e seus prazos (os Spirit exigem uma semana de exibição em Los Angeles, mas você não precisa de um distribuidor para isso…) mas ambos acolhem de braços abertos a produção mundial.

Comece cedo. Um erro que muitos comitês oficiais de países fazem é apontar seu filme-representante nos últimos momentos do prazo. Isso faz o concorrente sair já em desvantagem, mancando com o famoso tiro no pé e tentando desesperadamente ganhar tempo. A realidade, igual para escolhidos e não escolhidos é esta: seja seu projeto eleito ou não, campanhas bem sucedidas começam a ser planejadas em julho/agosto. Mais: se você acredita que seu filme tem bala na agulha, você deve começar no ano anterior, submentendo-o a festivais-chave como Sundance, Berlim e Cannes. Nada coloca um título melhor na largada de uma campanha do que aquela frase “seleção oficial do festival…”.

Faça um fundo de caixa. Uma campanha não é barata: só entre cabines especiais para os votantes, confecção de DVDs e anúncios online e na mídia impressa você vai gastar uns 40 mil dólares. No mínimo. Estude todas as suas possibilidades, de parcerias promocionais a crowdfunding. Os recursos podem e devem ser utilizados estrategicamente, existem preços especiais para filmes estrangeiros, curtas e documentários e as redes sociais são um excelente recurso (mais uma razão para planejar tudo cedo). Mas você vai precisar de apoio financeiro para essa arrancada.

Capriche no material promocional. Você não precisa gastar fortunas - o essencial é que seu material seja em excelente inglês, "claro
preciso direto ao ponto com terminologia correta ressaltando o que seu projeto tem de melhor. Nada faz um votante desistir mais rápido de um filme do que peças promocionais - notas de produção, folhetos, anúncios - mal escritos ou mal traduzidos com um design confuso e vestígios do idioma original. Lembre-se de que para você seu filme é único, para os votantes (e os círculos de influência ao seu redor) ele é mais um entre centenas.

Prepare-se para um recomeço. Colocar um filme, seja ele de ficção, documentário, animação ou curta, numa competição dos prêmios de Hollywood é um grande passo. Sendo ou não indicado, ganhando ou não, seu projeto vai receber mais atenção do que você jamais imaginou. É um desafio e uma prova: rapidamente você vai aprender quais são os pontos fortes ou fracos do seu trabalho, como seu projeto dialoga com diferentes plateias, e o que é possível fora de sua fronteiras. Compreenda também que, mesmo que você seja muito conhecida ou conhecido em seu país de origem, aqui você estará na estaca zero, ou quase. Já vi muita gente boa perder oportunidades por não compreender isso – que a autoconfiança essencial para tocar adiante esta etapa do trabalho tem que ter partes iguais de humildade. Mas uma coisa eu garanto: no final da jornada, com ou sem ouro, você terá aprendido mais do jamais pensou ser possível. E seu nome será conhecido, repetido e, dependendo de você, respeitado por gente que nem sabia que um dia iria conhecer você e seu trabalho.

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Por conta das festas de fim de ano, o Blog da Companhia terá uma pequena pausa. Voltamos no dia 2 de janeiro de 2017. Feliz Natal e até o ano que vem! 

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do Brasil e Folha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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