Nós salvamos as nossas próprias vidas

Por Antonio Castro

Benjamin Alire Sáenz e o escritor Vitor com o público da Flipop. Foto: Vitor Martins

Certos livros funcionam quase como um espelho. Quando lemos narrativas que retratam conflitos e problemas que enfrentamos na nossa própria vida, o livro se torna uma espécie de amigo ou, pelo menos, um instrumento de identificação que nos lembra de que não estamos sozinhos — algo importante principalmente quando se é jovem e muitos dos desafios da vida estão apenas começando. Talvez por isso livros juvenis tenham a capacidade de mexer tanto com seus leitores.

No último dia 9, havia uma sala em São Paulo lotada desses leitores. Era o segundo dia da primeira edição da Flipop, o Festival de Literatura Pop, evento dedicado exclusivamente à literatura YA, organizado pela Seguinte, o selo jovem da Companhia das Letras. Quem falava era Benjamin Alire Sáenz, que escreveu o recentemente lançado A lógica inexplicável da minha vida, além do romance Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo — a história de como dois garotos de quinze anos se apaixonaram em 1987, numa cidade do interior do Texas, um livro corajoso, que foi intensamente abraçado por leitores que têm mais dificuldade de encontrar narrativas com as quais se identifiquem. 

Na Flipop, Benjamin falava para uma plateia completamente emocionada. Embora a biografia de um escritor pouco importe quando falamos de seus livros, Sáenz tem histórias que, se não justificam a delicadeza de suas narrativas, mostram como ele próprio sofreu para encontrar uma lógica em sua vida: foi abusado sexualmente quando criança, fez parte de missões na África como padre, passou mais de vinte anos casado com uma mulher e só conseguiu se assumir gay depois dos cinquenta. Ele falou sobre sua própria dificuldade em se aceitar, como acreditava que não era digno de ser amado — e como ninguém deve passar por isso — e como encontrou na escrita a sua própria salvação. Quando um jovem da plateia perguntou como ele se sentia por ter ajudado tantos leitores a encontrarem amor, Benjamin disse não ser o responsável pela relação que os leitores estabelecem com seus livros. Segundo ele, se as suas histórias tocaram o coração de alguém, é porque aquele coração estava aberto para ser tocado. Ou seja: nós mesmos salvamos as nossas próprias vidas. Do outro lado do salão, não eram apenas os jovens lgbts que se identificavam com as palavras do autor. Todos choravam e riam em uníssono, mostrando a capacidade que certas histórias têm de ultrapassar fronteiras de idade, língua, orientação e identidade sexual. Cada um estava ali tentando salvar a própria vida do seu jeito.

Na Seguinte, uma das maiores motivações para fazer a Flipop acontecer era a ideia de reunir pessoas que leem e gostam de literatura jovem, gênero que muitas vezes é desmerecido diante de narrativas mais “adultas”. Salvador, o protagonista de A lógica inexplicável da minha vida, diz que talvez não exista uma lógica por trás da palavra família. Mas naquelas quase duas horas que Benjamin falou, todos que o ouviam naquela sala eram uma família só — e talvez fosse a primeira vez que muitos sentiam que a lógica por trás daquela palavra pouco importava.

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Antonio Castro faz parte da família editorial da Companhia das Letrinhas e Seguinte.

 

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