O amor maduro

Por Elvia Bezerra

Rilke dizia que o amor consiste em duas solidões que se protegem, se tocam e se comunicam.

É desse princípio que parte o escritor americano Kent Haruf para escrever o romance Nossas noites, ambientado no condado de Holt, no Colorado, onde mora o casal de viúvos e idosos aposentados Louis e Addie. Vizinhos, só se aproximam quando ela, aos 70 anos, bate à porta dele, aceita sentar-se e, sem rodeios, lhe diz que passar as noites sozinha é especialmente difícil. Por isso, vem pedir-lhe que durma com ela.

Ao abrir mão da descrição de ambientes ou de sentimentos, Haruf opta pela agilidade do diálogo. Diálogo que serve muito bem à objetividade de Addie, responsável pelas iniciativas mais contundentes dirigidas ao parceiro, que, não sem espanto, mas certamente entendendo do que ela fala, prepara pijama e escova de dentes e, no dia seguinte ao convite, toma seu lugar na cama da nova amiga.

Deitados lado a lado, dão início, então, às conversas miúdas que, para Addie, induzem o sono. Nesse momento vêm à tona revelações de traumas, perdas e frustrações de duas vidas comuns, àquela altura já sem qualquer sobressalto. Gostando da companhia um do outro, o casal passa a se conhecer, a se aproximar e, finalmente, a se tocar. Tudo isso em adágio: nada de pressa ou arroubos, o que não significa que, na essência, sentimentos havia tempo extintos tivessem perdido a força natural.

Em vez de acabar na cama, tudo começa na cama — aí está certa originalidade do romance. Inversamente ao que, de modo geral, acontece, o casal parte da intimidade do sono compartilhado para temperar o cotidiano: pequenas viagens às montanhas, acampamento, idas à cidade ou ao supermercado. Assim como acontece com os jovens, há aqui espaço para hesitações, incertezas e inquietações também: Eros não faz concessões.

A praticidade domina. Não faltam milk-shakes e hambúrgueres nos passeios com Jamie, o neto de Addie. Ou uma garrafinha de cerveja, aberta na mesa da cozinha, antes de o casal subir para o quarto. Sempre em adágio, o rame-rame do dia a dia, que não só mina tantos casamentos, mas até mesmo pode destruí-los, é aqui impregnado de satisfação. Conversas, companhia e uma forma de reconhecimento das ações mais banais dão novo sentido à existência dos dois: “Só quero levar uma vida simples e prestar atenção no que acontece a cada dia. E vir dormir com você aqui à noite”, dirá Louis, no 34º dos 42 pequenos capítulos do livro.

“Prestar atenção no que acontece a cada dia”. A frase, dita de maneira despretensiosa, pode passar despercebida ao leitor, e, na verdade, encobre um dos aspectos mais valiosos do encontro de Louis e Addie. Significa, para ele, abrir os olhos para um mundo insuspeitado, e dispor-se a conhecê-lo, ou a reconhecê-lo. O que é isso senão uma forma de amar?

Outro encanto do romance está no fato de que, sendo as personagens principais um casal de classe média americana sem talento especial para nada, sem densidade para questões existenciais e sem requinte nos hábitos diários ou sociais que os torne glamorosos, revele fina sensibilidade e respeito durante o processo de descoberta um do outro: “A ideia veio da solidão. Da vontade de conversar durante a noite”, justificará Addie.

Da inapelável necessidade de amar também – acrescentaria eu sobre a leitura de Nossas noites, em que o clichê “o amor não tem idade” é posto à prova nas famílias pouco generosas de Addie e Louis, assim como na sociedade provinciana, no pior sentido, de Holt.

Haruf trata do amor, na velhice, com leveza e muita dignidade, sem ignorar o descompasso entre sentimento e corpo. O preço desse descompasso está aí embutido, mas não há sempre um custo nas grandes emoções?

O que fica, ao final da leitura, é a harmonia entre o alegro, impresso pelos diálogos de que se constrói a narrativa, e o adágio em que se desenvolve a relação amorosa de Louis e Addie. E a constatação de que, longe de ser prerrogativa da juventude, o amor não escolhe faixa etária. “Nasce”, como escreveu Rubem Braga na crônica “Amor, etc.”, “da sombra e da luz, de tudo e de nada, e é sempre novo, trêmulo como flor na brisa, virgem como a espuma perdida no mar oceano”. E vale a pena.  Sempre.

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Elvia Bezerra é coordenadora de Literatura do Instituto Moreira Salles.

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