O artista está presente

João Lourenço

Foto: Joe Reifer

Na introdução de sua única coletânea de contos, Slow Learner, Thomas Pynchon diz que entramos em uma era em que todo mundo pode compartilhar um montante inconcebível de informações com um simples toque em algumas teclas de um terminal. Detalhe: Slow Learner foi publicado em 1984, entre O arco-íris da gravidade (1973) e Vineland (1990), quando o termo Big Brother ainda era uma referência ao livro do Orwell, e não sinônimo de reality show, rede social, internet. Ou seja, o comentário de Pynchon nunca fez tanto sentido como nos dias atuais.

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O relançamento de O arco-íris da gravidade, além de oferecer um descanso para a caixa de entrada do departamento de divulgação da Companhia das Letras, também me levou a questionar sobre a possibilidade de um novo Pynchon em 2017 – acaba de sair, também, seu livro mais recente no Brasil, O último grito. Não falo do autor pós-pós-moderno, que publica calhamaços recheados de referências obscuras e exibicionismo linguístico. Não. Pastiches de Pynchon não faltam. Muitos tentam emular o estilo inconfundível do autor. Falo, sim, da sua postura como figura pública, como artista. Quem tem o luxo (ou seria a ousadia?) de tentar trilhar o mesmo caminho? Tal caminho não me parece mais viável. 

Seja por pressão de agentes, editores ou até mesmo dos leitores, a maioria dos escritores em atividade que admiro mantêm uma conta ativa nas redes sociais. Tudo virou performance. Escrever não basta. Os autores precisam estar em feiras, festivais, turnês etc. Precisam de likes, followers. Alguns, arrisco dizer, conseguem se expressar melhor em eventos do que nas páginas dos romances. E foi tudo isso que escritores como Pynchon – ou, mais recentemente, Elena Ferrante – tentaram evitar: a ideia do escritor-celebridade, aquele que não pode pegar uma caneta na mão que já vira notícia.

No caso de Pynchon, também é importante levar em consideração o contexto em que o tal misticismo começou. Vale lembrar que ele era adolescente durante a histeria causada pelo Comitê de Investigação Anticomunista, liderado pelo senador Joseph McCarthy e que assolou os EUA. Quase uma década depois, em 1963, no mesmo ano do assassinato de JFK,V, primeiro romance de Pynchon, é lançado. Ele começava a carreira em uma fase em que a liberdade de expressão era uma moeda que estava em baixa circulação.

O que não falta na internet são teorias que tentam desvendar e entender o anonimato de Pynchon. De estudiosos independentes a pesquisadores de grandes universidades, todos concordam que o fator "medo" foi um dos combustíveis que manteve o escritor longe da mídia e dos leitores. Pergunta: seria coerente acreditar que ele se manteve "camuflado" por temer o poder do Estado?

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Quando você entra na "Pynchonlândia", as dúvidas só tendem a aumentar. O anonimato, além de elevar a curiosidade a respeito da vida reclusa do autor, ajudou a criar as mais absurdas teorias da conspiração. Quem seria Thomas Pynchon? Jim Morrison? J.D. Salinger? Unibomber? A minha teoria favorita é a que afirma que ele, na verdade, é o pseudônimo de um coletivo de escritores formado por homens e mulheres. Mas tudo isso não passa de meras especulações de quem insiste em tentar desvendar o rosto por trás da sacola de papel exibida em Os Simpsons. Vale lembrar que o desenho animado já reproduziu até o "rosto de Deus", mas não o de Pynchon. E se o escritor foi ironizado até pelos Simpsons, é válido dizer que o seu anonimato acabou fazendo dele o que ele nunca desejou: uma personalidade, uma celebridade, um mito. 

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Por que a imagem é tão importante? Isso é culpa da nossa cultura de redes sociais e reality shows? O artista, independente da área em que atua, tem o direito de manter a sua imagem longe dos holofotes, mesmo em 2017? Estamos na era do “me, me, me, look at me”, logo, quem não se autopromove morre na praia ou ainda é possível seguir os passos de Pynchon e manter-se relevante mesmo sem promover o próprio trabalho? Mesmo sem exibir selfies sorridentes? 

Sem diminuir em nada o valor da obra de Thomas Pynchon, a única coisa que o torna tão urgente do ponto de vista midiático é o fato de você não saber quem é Thomas Pynchon. Não é a obra. Outros autores – com obras tão relevantes quanto ou eventualmente até mais – não geram tanto burburinho (a menos que ele tenha um agente que queira colocá-lo na mídia o tempo todo, como foi o caso de José Saramago pós-Nobel). A obra de Pynchon não seria melhor ou pior se ele aparecesse semana que vem na capa da Time (hello, Franzen!) como "o maior escritor americano vivo". Sua obra seria apenas menos relevante, cultural e socialmente.

Perdido em tantos devaneios, aproveitei a deixa e apelei para alguns escritores americanos com que mantenho contato. Alguns deles costumam dividir refeições com Pynchon, geralmente em restaurantes barulhentos de Nova York, no meio do dia, sem ninguém saber. Desconfiava que minhas perguntas não iriam me levar longe, sei que esse tipo de assunto é "proibido", mas não custava tentar. 

De todos os autores com quem conversei sobre o assunto, George Saunders foi o único que me respondeu. Por sinal, ele já foi descrito por Pynchon como “o autor americano mais engraçado desta geração”. Saunders me respondeu de uma locação, em Nova York, onde aproveita as férias de verão para trabalhar na produção e roteiro de um piloto de série, Sea Oak, baseado em seu conto homônimo, para o canal de streaming da Amazon. 

Ah, os extremos. De um lado o recluso, de outro, o oposto. Saunders é exatamente o tipo de autor pelo qual o público de hoje tanto anseia, alguém acessível, online, multimídia, presente, voz ativa. Com uma resposta contida, Saunders defendeu o anonimato do amigo. Escreveu: “Acredito que a única responsabilidade de um artista é fazer o que o torna feliz e produtivo. Pynchon é um grande artista. Além de brilhante, ele foi e continua a ser essencial para a nossa literatura. Então, a escolha de viver recluso funcionou muito bem para ele.” 

Sim, concordo em parte com Saunders. Sim, a escolha funcionou muito bem para Pynchon, que completou 80 anos em maio deste ano. Deixem ele em paz. Sim. Sim. Sim.... Calma! Estamos em 2017 e, sem querer parecer pessimista, muito do que se vê/que se fala hoje é em tempos sombrios. Lembrei, então, da introdução de A arte e a maneira: arte, literatura e linguagem, do francês Gérard Dessons. No livro, Dessons defende que, em períodos sombrios, queremos que a arte nos preste conta. A questão da utilidade da arte, que é uma questão de tempos luminosos, de épocas tranquilas e felizes, passa a ser algo pela responsabilidade da arte, que é uma questão de tempos sombrios. 

Não é mais importante perguntar para que a arte serve, mas como deve se posicionar em tempos sombrios. Isso pode ser estendido para o artista. É em tempos sombrios que o artista tem mais responsabilidade. Diante dessa demanda do mundo, o artista tem o direito de não entrar nesse jogo se ele quer ser chamado de artista? 

Chega um momento, diante de eventos radicais em movimento, em que o artista não tem mais a opção de não interferir. Às vezes, a única interferência possível e relevante é a sua voz, sua palavra. E essa palavra só tem algum impacto se ela vem de uma boca, um sujeito, de preferência um sujeito em que podemos olhar nos olhos. Então, nesses tempos sombrios de responsabilidade da arte, o artista não pode mais ser Thomas Pynchon. 

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Entendo o anonimato do cotidiano. Pessoas tímidas ao extremo, que levam uma vida low profile, discreta, sempre com a cabeça baixa. Mas como justificar aquele que produz uma obra de arte, que por si só pressupõe barulho, eco? Em The Sculptor, o opus magnum do quadrinista Scott McCloud, o personagem David Smith levanta a questão: "Por que o artista produz a sua arte senão para ser visto?"

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João Lourenço é editor at large da revista semestral *ffwMAG* e escreve sobre cinema, literatura, música e comportamento para publicações como Harper’s BazaarABD Conceitual. Atualmente, ele planeja lançar uma revista literária independente nos EUA e está terminando de escrever uma coletânea de contos.

 

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