O catálogo — ou a Casa do Acaso

Luiz Schwarcz

Por Luiz Schwarcz

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42Em 2016 a Companhia das Letras completará 30 anos. Como uma das atividades das comemorações, o fundador e primeiro editor da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, escreverá neste blog uma coluna de reflexões sobre a arte de editar livros e sobre a ética do editor. Quando fundou a editora, Luiz Schwarcz vinha de quase uma década de trabalho na Brasiliense, uma referência na vida cultural brasileira nas décadas de 1970 e 1980. Como espécie de "pré-estreia" das atividades comemorativas do 30º aniversário da Companhia das Letras, antecipamos a publicação da primeira coluna da série, que se chamará Livre Editar. Desejamos Boas Festas e um próspero Ano Novo a todos os nossos leitores.

 

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Será que uma editora existe antes de publicar um livro? Uma editora começa com uma ideia, com um desejo ou uma falta? O que passa na cabeça de alguém que se dispõe a criar uma casa de publicações? (Curiosamente é assim que se chama uma editora em mais de uma língua: Maison d’édition, publishing house, casa editrice...) Penso que, por mais estranho que pareça, para se criar uma editora, é preciso ser um arquiteto, um engenheiro, ou então querer ser pai de família. Logo eu explico por quê.

Com essas perguntas eu começo uma série de pequenos artigos, ou nem isso, um bando de reflexões soltas sobre o objeto livro, ou o livro-objeto, se assim preferir o leitor. Perdoem-me os que virem nisso um exagero, uma absurda pretensão: É que, com os aniversários que começam a me acenar — em 2016, logo depois de fazer sessenta anos, verei a Companhia completar trinta anos —, fiquei com uma aguçada vontade de pensar, ou melhor, de pensar alto.

Criar uma editora pode ser muito tentador; há a promessa do prazer prestigioso, da profissão ilustre, ou até do sucesso financeiro com a emoção implícita do caçador de best-sellers. Há também a possibilidade de militar intelectual e politicamente. Há ainda a possível sensação de estar contribuindo socialmente e para a cultura ao atrair jovens pobres em letras, ainda mais num país como o nosso.

Pois o editor, sem ser arquiteto, perderá a ideia e o propósito, se esquecerá de traçar uma linha antes de começar a escolher livros. Depois de traçada a linha (editorial) pela qual os livros caminharão e da qual, por capricho e rebeldia, algumas vezes acabarão por se desviar, o arquiteto se fará engenheiro e pensará em construir um catálogo. Há sempre cálculo em cada fundação, há sempre uma fundação para alicerçar a coerência, ou vice-versa. Assim, não basta pensar em um amontoado de sucessos futuros, pois sem coerência, por maior que seja o tino do(a) promissor(a) jovem editor(a), não há um rol de sucessos que se sustente por longo tempo, ou um conjunto de livros que prescinda de uma filosofia geral. Não há catálogo que viva por muito tempo sem o elixir da consistência, não há conversa com leitores sem que a casa de edições tenha uma identidade. Não preciso dizer que se não conversarmos com os leitores, não há como deixar de envelhecer, e de forma galopante — experimente falar sozinho com insistência e me diga se o próximo passo não será olhar preocupado para o espelho tratando de contar as rugas, impiedosas.

Na casa do arquiteto e do construtor precisa haver um espírito de convivência, um livro tem de ter o que falar com o outro, um apoio aqui, outro empurrão ali, e o editor, agora pai de família, se junta ao arquiteto/construtor e a receita de bolo se realizará; isto para quem pensar em seguir as tentações listadas no começo deste texto.

Erguida a casa, falta o nome, como se a casa fosse mais um sítio que uma casa, ou uma empresa consciente de que pode deixar sua marca na vida dos leitores.

Termino aqui este primeiro texto, muito mais longo do que pensei originalmente escrever, lembrando de um nome quase perfeito de editora. Em 1927, dois anos após comprarem o selo The Modern Library, que publicava livros clássicos americanos, Bennett Cerf e Donald Klopfer decidiram editar, como atividade paralela, “livros ao acaso” (at random). Foi assim que surgiu o nome Random House, que em pouco tempo transformou-se no mais importante do grupo, suplantando The Modern Library.

Por sorte, hoje sou sócio da Random House, mas de fato muitas vezes pensei, antes de me associar a ela quase por acaso, que se não fosse pelo plágio e pela aliteração desconfortável em português, o melhor nome que eu poderia dar a uma editora seria Casa do Acaso. Nada como um nome ambíguo para uma produtora de livros. Afinal, por tudo o que eu acabo de escrever, uma editora duradoura não pode ser simplesmente uma casa de acasos. O arquiteto, o engenheiro e o pai de família não permitiriam. Mas o que definiria melhor um catálogo literário do que um local onde o imprevisto impera, onde a surpresa prolifera, onde o leitor sem perceber verá que alguém, num canto distante do planeta, andou descrevendo sua vida, falando de algo tão particular àquele leitor, sem nem ao menos conhecê-lo?

 

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna mensal.