O estranho caso da escritora que tinha um corpo

Luisa Geisler

Foto: Shutterstock

 

1.

Começou com uma visita ao ortopedista. Eu aos 24 anos, quase 130kg num diagnóstico que já categorizava obesidade mórbida. E em geral, apesar dos problemas de autoestima, eu sou bastante a favor de positividade corporal, de corpos fora dos padrões e tudo o mais. Mas sou bastante contra corpos com dor. E eu, com 24 anos não deveria ter dores no joelho. Mas tinha.

Eu sabia que ignorava todos os aspectos da corporalidade na minha vida, até porque eu escrevia e lia e essas coisas. Até porque fui uma criança gorda, ou seja, nunca tinha precisado. Eu tinha meus livrinhos e meu corpo me levava pra livrarias comprar os livrinhos que eu precisava e me levava pras palestras que eu queria ver e meu corpo tinha olhos e ouvidos e eu podia aprender coisas. E isso era um bom corpo pra mim, um corpo-tanque pra minha mente.

Meu maior medo não era uma questão de peso: era ter dor crônica tão cedo. Imaginei como seria aos 50 como seria ter aquela dor, se com 24 era assim. Meu corpo, o suposto carro pra minha mente, estava em pane. Meu tanque tinha travado na neve e a guerra nem tinha começado direito. Esse era meu medo: viver com dor, dor que atrapalharia meus pensamentos. Emagreci num processo que não entra exatamente nesse texto. E comecei a fazer pilates por conta das dores. Tudo isso faz quase quatro anos.

 

2.

Isso foi dois anos depois do ortopedista, mais ou menos. Eu já estava em “sobrepeso”, o que quer que essa categoria dite.

Começou com uma professora no mestrado, em processo criativo. Nessa matéria, alunos de diferentes áreas com diferentes ênfases (dança, teatro, escrita etc) tentávamos entender de onde diabos as ideias vêm.  Numa dessas investigações, a professora pediu que a gente gravasse nosso processo criativo. Gravasse quando criasse. Era um trabalho, a ser apresentado, avaliado, todas as burocracias. Ela não queria vídeos de ensaios, de execuções, ela dizia. Ela queria vídeos de quando a ideia surgisse. Ela queria horas de vídeo, e queria que cada um achasse esse momento, ao menos um.

Eu, como aluna da escrita, fui falar com ela. Afinal de contas, qual seria a graça de eu me filmar por três horas encurvada na frente do laptop? Ela teve bastante educação de não me rodar na matéria no ato. Com a educação irlandesa sóbria, ela me disse que a matéria existia há anos, vários alunos da escrita tinham conseguido e, além do mais, gente que não era da escrita escrevia sobre seus processos. Os alunos da dança escreviam desde que entraram na graduação. Por que o processo contrário não teria valor pra mim? Sugeriu que eu filmasse meu rosto com a webcam, fizesse vídeos da tela do computador em execução ao escrever e me filmasse de corpo inteiro, de fora. Três ângulos: o que eu enxergava, meu rosto e meu corpo. Depois dividisse a tela e olhasse tudo de forma sincronizada. Ela foi generosa até, e disse que eu não precisava achar um momento de ideia, mas que eu achasse alguma coisa. Você vai achar alguma coisa, ela disse.

Gravei. Olhei. Ver as caretas que eu fazia não me impressionou muito. Ver como eu dava enter por não saber como ligar um parágrafo a outro também não. E dava vários enters e depois voltava. Eu digitava “xxx” pra frases que sabia que precisava mexer, mas não naquele momento. Eu escrevia a ideia geral e ia em frente. Mas minhas mãos e pescoço. Meu pulso. Enquanto aquela Luisa na tela relia palavras, relia o que escrevia, a cara compenetrada, ela mexia um pulso ou outro. Eu nunca tinha notado como eu fazia alongamentos de pulso enquanto escrevia. E era quase como a sinfonia dos meus intervalos. Ao parar, os pulsos que estalavam como pacotes de Doritos ao longo de exercícios e alongamentos até ficarem silenciosos outra vez. E aí eu voltava a escrever. Esse intervalo durava de cinco a dez minutos, com uma regularidade de um intervalo a cada uma hora. E eu voltava a escrever depois, um texto que saía mais rápido que antes. Como se o cansaço da mente e do pulso andassem juntos.

Juntos. Quando eu traduzia, via uma palavra (na webcam: um rosto franzido como papel amassado; na tela do computador: uma palavra em inglês dentro de um texto em português, sublinhada em vermelho) e começava a gesticular a palavra. Não lembrava de como dizê-la, mas sabia o movimento que tinha que fazer. A palavra era “suckle”, por exemplo. Minhas mãos faziam movimentos lentos de abrir e fechar, em círculos. Minhas mãos traduziam melhor do que meu cérebro inteiro. Juntos.

 

3.

Começou agora este ano.

De forma irregular e interrompida, eu fazia pilates fazia alguns anos. De forma regular, eu fazia havia uns quatro meses. Minha professora nova, no entanto, era (ainda é) minha favorita. Me colocou a fazer umas coisas que envolvessem me pendurar nos aparelhos. Até aí tudo bem, já diria o meme.

Começou com uma amiga minha postando uma foto no Instagram, no trapézio, no ar. Uma legenda sobre seus começos no trapézio. Circo Híbrido, o nome do lugar. Que nome bonito pra um lugar, pensei. Não “que nome bonito pra uma escola”, ou pra uma casa. Que nome bonito pra um lugar.

Comecei a fazer tecido acrobático, dança aérea, dança vertical, aerial silks, “tecido”. Eu já tinha um histórico de esportes esquisitos em que eu havia falhado miseravelmente, no qual se destaca o rúgbi. Fiz uma aula experimental. Demorei umas cinco aulas pra subir, coisa que algumas pessoas conseguem na primeira aula.

Em algum momento em aprender a subir o tecido, eu cheguei a cogitar que não tinha cérebro suficiente pra subir. Precisava me concentrar em manter minha perna no ar, enquanto me puxava com os braços, enquanto meu outro pé aterrissava sobre o primeiro pé (o que estava no ar) num ângulo que não escorregasse, aí envolvendo o abdômen (e o corpo inteiro, acho eu) para subir a partir do impulso de baixo e puxão de cima. Durante essas cinco aulas, foi quando pensei em desistir. Eu simplesmente não conseguia controlar meu corpo inteiro num impulso só. Era oficial: eu não tinha habilidade motora suficiente.

Depois que aprendi a subir, também aprendi a não comparar meu ritmo com o dos outros. Desde então, não pensei em parar. E isso era/é uma novidade grande pra mim. Tive a certeza que eu conseguiria aprender qualquer truque, porque nenhum truque poderia ser mais difícil do que subir na desgraça do pano. Esses tempos uma professora me mandou um e-mail, comentou umas fotos da apresentação de final de ano que eu tinha postado no Facebook. Eu respondi: sou bem ruinzinha e estou amando.

 

4.        

Sinto muita falta de escritores falando de corporalidades. Não no sentido de uma arte interdisciplinar (?), não no sentido de fazer acrobacia aérea e recitar um poema ao mesmo tempo. Tenho brincado com amigos escritores sobre fazer pilates e descobri que vários fazem. Muitos escritores contemporâneos fazem pilates: por que ninguém me contou isso?

Comecei a sentir falta naquelas entrevistas de “sua rotina de escrita” de uma parte corporal. Será que todos os escritores passam seus dias com dor nas costas de ficar inclinados no laptop? Ou eu sou a única que não tem uma cadeira totalmente ergonômica num espaço ideal? Inclusive, em entrevistas, comecei a deixar clara essa parte de precisar me alongar com frequência. Quando perguntam da minha rotina, também falo desses intervalos.

O ato de escrever, em si, é corporal. Dói. Lesiona. Por mais que seja uma atividade intelectual, até Stephen Hawking precisava de equipamentos. Não existe como ir da mente para o papel. Claro, temos os escritores corredores, os que praticam atividades físicas e também escrevem. Esses ficam famosos mais como a exceção do que a regra.

Imagino que tenha algo a ver com a ideia das coisas do corpo serem coisas “menores”. A ideia do corpo como o tanque pra mente ainda é muito difundida. Imagino que tenha a ver com essa idealização do trabalho intelectual, a ideia de que escritor não vai ao banheiro ou faz exame de glicose. Uma dor no corpo não é uma dor intelectual, como o vazio existencial.

Falei já de escritores amarelos e da importância de falarmos das doenças mentais, em especial suicídio. Dessa vez, quero falar de escritores com corpos. Porque são humanos, não uma foto na orelha do livro. E são seres corpóreos. Tenho prestado muita atenção no meu corpo, tenho aprendido nomes de grupos musculares e ossos.

Não sei se isso vai ajudar a minha literatura, não sei vai me trazer um imenso entendimento do mundo. Mas me ajuda. E eu queria ter sabido antes que ajudava a literatura de tantas pessoas. Porque eu, como todos os escritores, tenho um corpo. Ele é meio ruinzinho e estou amando.

***

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, De espaços abandonados foi publicado pela Alfaguara em 2018. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

 

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