O horror escondido no cotidiano

O horror é uma presença constante, já observou Alan Moore, não somente em narrativas ficcionais, dos filmes aos livros passando pelas séries de TV, mas no nosso cotidiano. Seja no sensacionalismo das manchetes mundo-cão — “criança devorada por crocodilo no laguinho do hotel”, “homem que mantinha mulheres reféns no porão por anos” —, seja pelo silêncio perturbador que provoca um cartaz de criança desaparecida.

É algo ancestral, de história contada ao redor da fogueira, que vai se fundamentar como gênero com os góticos do final do século XVIII. Junto com o romantismo, vem para atiçar as emoções do leitor, fazendo contraponto ao apego excessivo dos iluministas pelo racional. Mas é no século XIX que ele vai se estabelecer como o gênero que conhecemos hoje.

E é essa a riqueza do livro organizado por Alberto Manguel, Contos de horror do século XIX, com todo o peso de um conhecimento enciclopédico, praticamente borgeano, de ser um dos maiores bibliófilos vivos. Na curta introdução à sua seleção de contos novecentistas, busca as palavras de Ann Radcliffe para estabelecer uma separação entre os efeitos práticos do Terror e do Horror — “o primeiro dilata a alma e suscita uma atividade intensa de todas as nossas faculdades, o segundo a contrai (...) se faz acompanhar de um sentimento de obscura incerteza em relação ao mal que tanto teme”.

Para dar um exemplo prático disso, cito dois lançamentos recentes de autores brasileiros: o Jantar secreto de Raphael Montes é um terror, herdeiro direto da tradição naturalista do grand guignol, enquanto que As perguntas de Antônio Xerxenesky, com sua gradual distorção sobrenatural da realidade, é o horror psicológico por excelência.

Mas de volta à coletânea organizada por Manguel: falei do nosso horror cotidiano e, em alguns dos melhores contos novecentistas selecionados por ele, é justamente o modo como o horror se infiltra nos vãos do dia a dia que seus autores atingem maior efeito.

Há os escritores tradicionalmente associados ao fantástico, como o uruguaio Horácio Quiroga. Seu conto "O travesseiro de penas" talvez seja o melhor, mais clássico, emblemático e bem-acabado exemplo de conto de horror já escrito (uma afirmação superlativa que fica inteiramente por minha conta). Bebendo da fonte de Edgar Allan Poe e Guy de Maupassant, ele entrega uma pequena pérola de horror quase criptozoológico em sua ambientação cotidiana, de um ato tão comum quanto o de dormir com um bom travesseiro, numa história que você escutaria de um parente mais velho na casa da avó.

Outra pequena joia é "A janela vedada", do norte-americano Ambrose Bierce — e outra vez, feita de um horror que se funde a uma ambientação naturalista, e que se revela em todo seu potencial apenas no último parágrafo. O mesmo Bierce teve um conto selecionado na outra coletânea que geralmente faz par com essa — "Chickamauga", no Contos fantásticos do século XIX organizado por Calvino —, que de fantástico não tinha nada, mas de horror tinha muito. Qualquer contato que o leitor tenha com as narrativas curtas de Bierce já vale o esforço.

Aliás, um dos méritos da seleção de Manguel é o de pinçar autores que não são necessariamente associados ao gênero. Não digo por Henry James, cujo A outra volta do parafuso (incluso aqui em versão integral) já faz parte de qualquer seleção canônica, mas de autores como Eça de Queirós ou Jules Verne, de quem não necessariamente se esperaria ler um texto de horror.

Há também a banalidade do horror que surge da crueldade humana, pura e simples. Dois contos são emblemáticos nisso: "Morte na sala de aula", do poeta norte-americano Walt Whitman, realista tanto na sua ambientação cotidiana — a sala de aula do título — como na sua crueldade — o professor-monstro, adepto dos castigos físicos. Em estilo semelhante, ainda que com efeitos mais exagerados, "O Cone", de H.G. Wells, uma história de vingança entre um marido traído e o amante de sua mulher, onde o cenário macabro e impressionante de uma fundição faz paralelo com o capitalismo feroz dos anos vinte.

Se a crítica mais costumeira que se faz (que sempre se fez e que sempre se fará) ao horror de modo geral é que ele anestesia os sentidos de quem o consome para o ponto da apatia, o efeito real é o contrário: ao explorar as diversas formas como o horror é trabalhado — do mais fantástico ao mais realista, do extraordinário ao cotidiano, dos erros irreparáveis à maldade inconsequente —, o leitor termina justamente com sua sensibilidade ampliada para o quanto o horror se esconde na nossa rotina diária.

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Samir Machado de Machado é escritor, tradutor e designer, autor de Quatro soldados e Homens elegantes, ambos editados pela Rocco.

 

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