O inconformismo e a cesta de legumes

Por Noemi Jaffe

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Amós Oz por Piet van den Boog.

Como curar um fanático, livro recentemente reeditado de Amós Oz, tem um título bem-humorado, pois trata o fanatismo como se fosse uma doença passível de cura. Talvez não o seja, porque, na verdade, deve ser um tipo de patologia dessas irremediáveis.

Mas, se houver possibilidade de reversão, Amós Oz propõe, no mínimo, duas receitas: o humor e a curiosidade.

Sua ideia sobre como utilizá-los para curar fanáticos está no livro.

Gostaria de desenvolvê-las, aqui, sob o ponto de vista mais específico da literatura. Claro que nem ousaria chegar a seus pés, mas, ultimamente, nós brasileiros temos tido uma experiência de convivência com o fanatismo que nenhum de nós esperava ter. Então, talvez, esse ponto de vista também possa entrar no rol das prescrições curativas.

Em primeiro lugar, a curiosidade.

Para alguém ser escritor, ou mesmo um leitor, a curiosidade e o inconformismo são imprescindíveis. É preciso perguntar-se: "por que as coisas são ou não são assim?" e, também, "como elas seriam se assim não o fossem?". Ao tentar responder essas perguntas, o que o escritor faz é criar uma nova vida. Um novo objeto vivente: a história que se conta. Ela é ficcional, mas está viva e fala da e na vida, mesmo quando inverossímil, absurda ou surreal.

Em função dessa dinâmica, digamos assim, metabólica e sanguínea, os romances e contos são muito mais concretos do que abstratos, da mesma forma como a vida sensível o é. O leitor de um romance vive o medo, a dor, as preocupações, a dificuldade de pagar a conta de água, o preconceito, a dor de corno, a velhice e a coceira na orelha que sentem os personagens. Ele vê e ouve a paisagem, o confinamento da prisão, a mulher e o homem desejados, os ruídos do caminhão de gás na China, as montanhas andinas e a sujeira de uma rua no Paquistão. E é essa vivência vicária, a vivência da vida do outro, que faz com que o horizonte interno do leitor e do escritor se ampliem, com que ele, efetivamente, conheça concretamente a compaixão, a "co-pathos", a dor do outro, não de forma teórica, mas concreta e viva.

Ora, se concordarmos que o fanatismo é uma prática quase religiosa, derivada da incapacidade de reconhecer o outro ou a perspectiva de quem pensa diferente de si, a literatura seria, ainda que involuntariamente, uma forma, a partir da curiosidade, de "curar" essa obtusidade, esse estreitamento do olhar. Se sinto em minha pele a dor por que passa um negro nos Estados Unidos de década de 50 — se não sei "sobre" a dor, mas sei "a" dor —, tenho mais chance de compreendê-la e de ajudar a combatê-la.

Em segundo lugar, o humor.

Na Grécia Antiga, mais especificamente na Poética, de Aristóteles, a comédia é considerada um gênero inferior à tragédia. A segunda teria a função catártica, purgativa, de expulsar as paixões negativas dos espectadores, por meio do modelo punitivo. Quem desafia o destino é duramente punido. Portanto, aceite o que determinam os deuses. Já à comédia restava um papel de entretenimento, saudável, mas menos elevado.

Entretanto, pode-se também dizer, agora passados mais de dois mil anos, que a comédia tem, em certa medida, um lugar, digamos assim, mais "maduro" em relação à tragédia. É como se na comédia o texto e os personagens compreendessem que o destino de todos, irremediavelmente, é fatal: a morte. Estamos todos condenados ao mesmo pó indistinto e, por isso, podemos rir da solenidade e austeridade da vida e de suas determinações fixas. Abre-se um espaço relativista, uma brecha perspectivista, porque cai por terra a bandeira do absoluto, da totalidade que paira sobre nossas cabeças. É possível rir da vida e da morte.

Rir de si mesmo pode ser um remédio para o fanatismo também. O fanático, segundo Amóz Oz, não ri. Está "tomado" pela seriedade de sua causa. Como ele se leva a sério demais, acaba por não levar o outro em consideração, porque o outro existe somente para ser descartado.

Finalmente, se o fanatismo adota a ideia de que os fins justificam os meios, e se comporta nesse sentido, em que valem quaisquer práticas para justificar uma causa última, a literatura está convencida de que são, ao contrário, os meios que justificam os fins. Ou seja, é pela prática dos caminhos, daquilo que se constrói enquanto se está construindo, que se saberá, se é que se saberá, quais são os fins. O fim é determinado pelo itinerário que se toma, sempre aberto a novas possibilidades. Ou seja, o fim e o meio acabam sempre por coincidir, como na vida, como em cada momento.

Vá até a rua. Olhe cem metros à frente. Quem você vê? É um desconhecido? O que ele está fazendo, sentindo, pensando, desejando? Tente responder essas perguntas. Se ainda assim você considerar que sua "causa" é mais importante do que essas perguntas, parabéns, você está no caminho para se tornar um fanático. Mas, se você considerar que as respostas a essas questões valem mais do que mil totalidades absolutas, que uma cesta de legumes vale mais do que o socialismo ou o capitalismo juntos, parabéns também, talvez você esteja no caminho de escrever um romance.

 

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Noemi Jaffe nasceu em São Paulo, em 1962. Doutora em literatura brasileira pela USP e crítica literária, é autora de A verdadeira história do alfabeto, vencedor do Prêmio Brasília de Literatura, O que os cegos estão sonhando? e Írisz: as orquídeaslançado em 2015 pela Companhia das Letras.

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