O melhor romance que você vai ler no próximo ano

Caetano Galindo

Foto: Kevin Burkett

Saiu ontem o Man Booker Prize, maior prêmio literário da língua inglesa. O vencedor foi George Saunders, com seu estupendo Lincoln no limbo, a ser publicado pela Companhia das Letras em março de 2018 com tradução de Jorio Dauster.

Eu até já tinha escrito aqui sobre o livro, de tanto que me empolguei quando li.

Eu leio romances.

Isso é meio que uma das coisas que me definem.

Às vezes leio mais, às vezes menos. A vida, os dias têm lá suas lidas, suas cobranças… Mas eu leio romances. Dos comerciais aos de “alta literatura”. E cada um desses tipos tem seus critérios de qualidade: motivos que me fazem querer encontrar as melhores versões de cada “molde”.

A leitura de Lincoln no limbo, pra mim, foi um momento meio revolucionário, em que eu pude ver, pela primeira vez em muito tempo, um romance “erudito” reinventar plenamente as regras da prosa de ficção, ao mesmo tempo em que se mantinha estritamente acessível, interessante e poderoso.

Sempre me fascinam as formas de compor um romance. E sempre me interessam os caminhos que alguns contistas encontram pra transformar sua arte em prosa mais longa, mais extensa. Saunders, conhecidíssimo como contista, encontrou uma maneira absolutamente sua (fragmentária, sim, em certa medida) de escrever uma narrativa maior. E, ao acrescentar à receita toda uma fusão de documentos históricos, pseudo-documentos históricos e narração “convencional”, inventou um modelo de romance que questiona a forma do romance (como fazem todos os grandes autores) ao mesmo tempo em que a reafirma de maneira exuberante.

Além disso, conseguiu transformar todo esse virtuosismo técnico em ferramentas que ampliam sua capacidade de tocar o leitor. Em suma: sua capacidade de te fazer chorar.

A história de base, ela própria de base “real”, já é super tocante. 

Pois o que dizer da figura de um pai que, inconformado com a morte do filho ainda na infância, entra na capela do cemitério para retirar do caixão o cadáver do menino e se abraçar a ele? Noite após noite.

E o que dizer ainda do fato de que este pai é ninguém menos que o presidente mais importante da história da democracia mais relevante do mundo?

E o que dizer quando se sabe que isso tudo se passa justo durante a Guerra Civil, quando Abraham Lincoln teve que tomar séries de decisões que culminaram em morte, sofrimento e numa mácula histórica que, no entanto, acabaram sendo a maneira de libertar aquele país da escravidão, de retirá-lo da barbárie da mercantilização e da mais abjeta objetificação do ser humano?

Lincoln, o mito. A gigantesca estátua que hoje adorna Washington. Lincoln, o sujeito. O carinha que tem que se haver com o “trabalho” do dia a dia ao mesmo tempo em que lida com a doença e depois com o absurdo da morte de uma criança, da morte de um filho. Lincoln o descontrolado, entrando no cemitério e abraçando um corpo morto. Lincoln o inapreensível, o homem que fascinou seus contemporâneos e encanta o mundo até hoje. Mas um homem cujos olhos ninguém consegue dizer que cor tinham (é um dos meus capítulos preferidos do livro).

Essa cena.

Essa ideia, daria um conto. Uma boa novela.

O que transporta Lincoln no limbo para o mundo do romance, e o que eleva às altitudes da grande literatura de todos os tempos, talvez seja no entanto a decisão de romper com o “realismo” da narrativa de ficção e com a “realidade” dos textos reais citados no livro, rumo ao desejo da imortalidade. Da vida daquele menino irremediavelmente morto.

Pois o “limbo” em questão (no original o “bardo” do budismo tibetano) é o espaço liminar ocupado pelas almas que ainda aguardam a reencarnação. No romance de Saunders, esse limbo é o próprio cemitério, onde a figura do filho de Lincoln começa a se misturar com vozes, almas mortas, pessoas presas naquele terreno, egressas e vindas de vários momentos diferentes da história americana. Homens, mulheres, escravos, ricos, pobres… O menino acaba “convivendo” com retratos sucessivos da formação daquele país que, no mesmíssimo momento, seu pai precisa desesperadamente salvar. E ele só fica ali porque esse mesmo pai se nega a aceitar sua morte, se nega a se afastar de sua alma, se nega a permitir que ele siga seu caminho.

As conversas entre os mortos são sensacionais. Mas o conjunto gerado por essa imagem do passado da nação reunido em torno da tentativa de “salvar” o garoto (num sentido completamente diferente do que seu pai daria ao termo) enquanto também seus conflitos e seus traumas não deixam de vir à tona (existe mesmo exclusão social no limbo…) é o que transporta o brilhante experimento de Saunders para um reino onde poucos romances vivem. Um lugar em que a “alta literatura” demonstra claramente suas potencialidades, suas capacidades, seu humilhante, encantador, irrevogável poder de ser humana.

Filosófica.

Política.

Histórica.

Sociológica.

Sim. Tudo isso. Mas humana como poucas outra coisas. Tocante como quase mais nada. Profunda como só ela.

Eu fico aqui apenas pensando nos momentos finais, quando os mundos se tocam e o presente se deixa embeber pelo passado dos Estados Unidos… Eu nunca vou esquecer aquela cena…

O tipo de experiência que definitivamente merece um prêmio, depois de dar tanto aos seus leitores.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James JoyceDavid Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
Twitter

 

Neste post