O minicerérebro do Dr. Frankenstein

Claudio Angelo

FOTO: Frankenstein (1931)

“Quando eu descobri um poder tão maravilhoso nas minhas mãos, hesitei por muito tempo a respeito da maneira como eu haveria de empregá-lo (...) no início, tive dúvida sobre se deveria tentar criar um ser parecido comigo mesmo ou um de organização mais simples.”

Há 200 anos, o jovem Victor Frankenstein, no seu leito de morte num navio no Ártico, recordava-se dos passos que havia dado desde que descobrira o segredo da vida, na cidade austríaca de Ingolstadt, até a decisão de criar um ser “de estatura gigantesca” que acabaria por arruiná-lo. A história do cientista obsessivo e do monstro homicida de sua criação foi publicada em 1818 por uma adolescente inglesa, Mary Shelley, que a concebera dois anos antes, num verão chuvoso num castelo na Suíça. Desde então, Frankenstein ou o Prometeu moderno é invocado toda vez que alguém acha que um avanço da ciência pode dar ruim.

Nas fanfics e no cinema, Victor tem sido retratado como o proverbial cientista louco: ambicioso, antiético e com sede de poder. Na “vida real”, porém, Frankenstein era um humanista curioso, maravilhado com as revelações da natureza e disposto a sujar as mãos para resolver um problema concreto – no caso, a morte – em benefício de toda a raça humana. Seu único problema, argumentaria um cínico, foi não ter arrumado uma maneira eficiente de descartar o resultado de um experimento excessivamente bem-sucedido.

Laboratórios de biomedicina ao redor do mundo hoje enfrentam um dilema muito parecido com o de Frankenstein: eles estão cada vez mais próximos de criar seres com capacidades semelhantes às humanas. E não há nenhum protocolo universal hoje sobre como lidar com isso.

Esses seres de “organização mais simples”, como diria Frankenstein, são minicérebros, ou “organoides”. Trata-se de pequenas estruturas tridimensionais parecidas com um cérebro, cultivadas a partir de neurônios humanos. Eles vêm sendo produzidos para modelar condições humanas complexas, como autismo, Alzheimer e mal de Parkinson. Para entender a gênese dessas doenças, não basta trabalhar com um punhado de neurônios numa placa de cultura ou com camundongos. É preciso saber como vários genes interagem em várias partes do cérebro. O ideal seria poder estudar cérebros vivos fora do corpo. A segunda melhor coisa é um organoide.

Um minicérebro é criado a partir de células-tronco, que recebem estímulos químicos para se transformar em células cerebrais de vários tipos, que podem se organizar sozinhas em estruturas parecidas com algumas regiões do sistema nervoso central. Criadores de minicérebros, assim como Victor Frankenstein, também buscam resolver problemas concretos em benefício da humanidade: tratar doenças degenerativas hoje incuráveis ou outros problemas que podem limitar a vida de uma pessoa.

Como o experimento de Ingostaldt, porém, a perspectiva de que a engenharia de tecidos seja excessivamente bem-sucedida é muito real. Dificilmente um monstro gigante pulará da bancada disposto a massacrar meio mundo caso não ganhe uma companheira (spoiler num livro de 200 anos pode, né?). Mas pode ser que alguém crie num futuro próximo um organoide que não goste de ficar sozinho.

“À medida que sucedâneos do cérebro ficam maiores e mais sofisticados, a possibilidade de que alguns deles venham a ter capacidades análogas à senciência humana fica menos remota”, escreveu um grupo internacional de 17 cientistas num comentário na revista Nature em abril deste ano. “Tais capacidades poderiam incluir sentir (em algum grau) prazer, dor ou estresse; poder armazenar e recuperar memórias; ou talvez até mesmo alguma percepção de agência ou consciência do eu.” Os pesquisadores, liderados por Nita Farahany (Universidade Duke) e Henry Greely (Universidade Stanford), apontam a urgência de desenvolver procedimentos éticos para lidar com tecido cerebral humano.

Se tudo isso parece ficção científica, considere um exemplo dado por um dos missivistas, a neurocientista Paola Arlotta, da Universidade Harvard: ela registrou atividade neural após acender uma luz sobre uma área de um organoide na qual células de retina haviam se formado juntamente com neurônios. Um estímulo externo produziu uma resposta do minicérebro.

Outra possibilidade arrepiante é a produção de “quimeras”, nas quais animais de laboratório como ratos ou macacos recebam células-tronco humanas para produzir órgãos humanos. “A produção de um coração humano num porco é admissível, por exemplo, mas não a produção de um cérebro a partir de células humanas?”, questionam os cientistas.

Muitas das questões éticas suscitadas pela evolução da pesquisa com minicérebros já precisam ser atacadas hoje nos experimentos com animais. Ninguém aceita mais, por exemplo, submeter chimpanzés a experimentos nos quais não seria ético usar seres humanos. O grau de autoconsciência e de consciência do outro (a chamada “teoria da mente”) dos roedores até onde se sabe é limitado o bastante para dar aos cientistas um passe livre para fazer o que bem entenderem com esses bichos. No fim dos experimentos, eles são descartados como lixo biológico.

Mas o que fazer com um minicérebro depois de um experimento? Descartar um organoide semiconsciente seria o equivalente a um assassinato? Roedores quiméricos com células humanas e alta capacidade cognitiva deveriam ser mortos ou aposentados com condições especiais, como chimpanzés? É possível falar em direitos de propriedade sobre um organoide desses? Ele precisaria ter um “tutor” ou alguém que tomasse decisões em seu nome? Por fim, qual passa a ser a definição de “morte” e quais são as capacidades mentais mínimas que um organoide deve ter para ser objeto de cuidados éticos?

O grupo de Farahany e Greely põe as perguntas incômodas na mesa preventivamente, sabendo que a ciência avança mais depressa do que os controles sociais. Se Victor Frankenstein tivesse tomado esses cuidados, talvez tivesse podido desfrutar uma velhice feliz em sua mansão no pé dos Alpes.

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Claudio Angelo nasceu em Salvador, em 1975. Foi editor de ciência do jornal Folha de S.Paulo de 2004 a 2010 e colaborou em publicações como Nature, Scientific American e Época. Foi bolsista Knight de jornalismo científico no MIT, nos Estados Unidos. Lançou, em 2016, pela Companhia das Letras o livro A espiral da morte, sobre os efeitos do aquecimento global, ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática.

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