O obsceno como motor da escrita em Hilda Hilst

Por Aline Leal

Hilda Hilst é um nome em ascensão no mercado literário. Sua obra completa, publicada desde 2001 na editora Globo, foi adquirida pela Companhia das Letras e conquistou uma visibilidade expressiva com o lançamento de Da poesia (2016), insuflando o nome desta autora entre novos leitores e fomentando a paixão de seu fiel séquito. No primeiro semestre de 2018, a editora lança Da prosa, gênero em que Hilda estreou em 1970, com o livro Fluxo Floema.

Além disso, o anúncio da homenagem à autora na Feira Literária Internacional de Paraty de 2018 gerou uma grande comoção entre os interessados pela obra. Em um ano de eventos marcantes, como as eleições presidenciais e a Copa do Mundo, o peso e a presença desta autora parece ter sido uma decisão acertada da curadoria.

A indicação da curadora Joselia Aguiar confirma a aposta em nomes que, em vida, faziam parte daqueles que frequentavam o hall dos loucos, malditos, marginais. Antecedida por Lima Barreto, escritor negro oriundo de um regime escravocrata, estigmatizado pelo alcoolismo e por passagens em hospícios, segue Hilda Hilst, escritora que nunca se dobrou aos códigos e condutas reservados às mulheres de sua época. São autores que ensaiaram, à sua maneira, um movimento de transgressão, certa violência diante de determinada ordem vigente, violação das formas regulares de vida social, uma afronta ética e estética às nossas sensações, aos nossos sentimentos e pensamentos tão bem determinados.

Tratada frequentemente como maldita, escandalosa e extravagante, qual seria a recepção que este século XXI relegaria à Hilda Hilst? Certamente a sexualidade e outros temas tabus são tratados de forma mais aberta contemporaneamente, já que liberdades foram conquistadas em relação ao comportamento, à exposição, aos direitos do sexo, do corpo, ainda que outros interditos tenham sido levantados em consonância com reivindicações diversas. No entanto, Hilda Hilst fala de uma conduta literária que não pode deixar de ser “entranhadamente ética”, isso porque o motor de todo escritor gira no sentido de não pactuar com o que nos é imposto como mentira circundante: “O escritor é o que diz ‘Não’, ‘Não participo do engodo armado para ludibriar as pessoas’”, afirma em entrevista ao Estado de São Paulo, em 1980, fazendo, portanto, da linguagem e da sintaxe uma ferramenta política (contra a “polícia”).

Assim, é interessante observar a aposta no obsceno que atravessa grande parte da obra hilstiana. Ao jogar luz sobre o que está relegado às sombras, ao revelar o segredo que excede o valor moral –  segredo do qual temos medo – o obsceno será um dispositivo de transgressão das convenções sociais que obliteram uma experiência integrada.

Na década de 1990, Hilda Hilst vendeu grande parte de seu acervo – manuscritos, anotações, cadernos, agendas – para o Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio, da Unicamp. Observa-se aí um dedicado trabalho de elaboração de seus temas e suas personagens, indicando que ela pensava sua obra durante um longo período, e pensava escrevendo. Nesse material, o “obsceno” como dispositivo de escrita é um tema de reflexão central. Em uma anotação, lemos: “O obsceno na escrita pode ser uma arma para acordar o outro que dorme profundamente. Uma cuspida também é uma arma-insulto. Você pode usar o obsceno com sarcasmo para por exemplo mostrar a falsidade das convenções”.

Em outra ocorrência, em entrevista de 1989 para o Jornal do Brasil, Hilda Hilst aponta para aquilo que a mobiliza, apostando sempre no excesso como vetor que orienta sua obra, excesso para o qual sua obra tende: “Para mim a problemática importante é a morte, as relações humanas, as relações eróticas, as situações extremas. Eu não tenho nada a ver com essa coisa do dia-a-dia, ainda que ela possa ser terrível. Eu tenho a ver com as situações extremadas, o homem em convulsão.” Assim, Hilda Hilst sugere que a literatura está mais próxima do que é sujo, desprezado, abjeto, do que dos bons modos e bons costumes. Da experiência literária saímos com menos pontos de sustentação, menos certezas, dela voltaremos menores, mais frágeis e instáveis. Mas a quem poderá interessar este tipo de aniquilação? Talvez àqueles capazes de encontrar, nas fragilidades, suas maiores fortalezas.

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