O quadrinista vendedor

Érico Assis

O quadrinista britânico Simon Bisley esteve em São Paulo no início do mês para a CCXP. Entre outras atividades, deu uma “Masterclass” sobre pintura para um auditório de cento e poucas pessoas. Numa prancheta improvisada sobre o palco, seu primeiro desenho da aula foi um busto do Batman: um esboço muito rápido no lápis, pinceladas soltas de nanquim – mais expressão e menos anatomia, ele defendeu – e a carranca com chifres surgiu. Enquanto desenhava e pintava, o artista contava piadas para o auditório. Entre traços e piadas, levou menos de dez minutos para terminar o busto.

Então ele parou e olhou para o desenho. Virou a folha de lado. Virou para o outro. Ergueu as sobrancelhas. Fez um bico. Franziu a boca.

Pegou um marcador vermelho e escreveu, grande, à direita do Bat-chifre direito: “R$ 300”.

A plateia caiu na risada. Bisley:

– O cara precisa comer, né.

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Fernanda Chiella, Samanta Flôor, Felipe 5Horas e Leo Finocchi, autores de Guia de Viagem do Perdido, pós CCXP:

 

 

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Este ano, Sonny Liew lançou em inglês The Art of Charlie Chan Hock Chye, biografia de um quadrinista cingapuriano fictício na qual é mostrada a evolução dos quadrinhos na Ásia dos anos 1950 até hoje. Publicado inicialmente em Cingapura, o álbum ganhou o Prêmio de Literatura do país em 2016. No ocidente, frequenta listas de melhores do ano.

No texto “The Salary of Charlie Chan Hock Chye”, Liew discrimina seus ganhos com o livro, que lhe tomou dois anos de trabalho:

...[Somando tudo], em 24 meses, foram mais ou menos SGD 2,5 mil (R$ 5.800) por mês.

Que não é nada mal se você pensar em termos de “fazer o que se ama”, mas decepcionante se você comparar a outras carreiras, como docência, engenharia, administração, medicina etc. etc.

Em comparação, trabalhar com projetos para Marvel/DC rende uns 10 mil/mês. Mais se você tiver uma série de sucesso (25 mil, quem sabe), não contando os superstars e os fora-da-curva. Ou seja, se você passar 24 meses trabalhando para as Grandes, talvez você tire 240 mil (R$ 550 mil).

(...)

...você pode ser um engenheiro dos bons e viver bem, enquanto que um quadrinista dos bons vai ter mais dificuldade para pagar contas de casa, colégio para as crianças etc.

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Felipe Nunes, autor de O Segredo da Floresta, Dodô e Klaus, pós CCXP:

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“Entre mesa, hotel, translado e produção de produtos e as eventuais compras (porque ninguém é de ferro), a gente gasta uma grana difícil de recuperar, ainda mais quando você é pessoa jurídica e não tem outra ocupação. Quando fazer quadrinhos é seu ‘perde-pão’, como ouvi dizer há mais de uma década o grande amigo quadrinista André Diniz.”

Em “Vendendo meu peixe (digo, minha arte)”, Estevão Ribeiro – autor de Os Passarinhos, Pequenos Heróis, Da Terra à Lua – relata o conflito do seu lado artista com seu lado vendedor e, frente às contas, o triunfo do segundo quando está em uma convenção. Mas esforçando-se para não ser Polishop.

“Numa dessas ocasiões, um colega do lado me disse que eu vendia muito livro ‘no choro’. Logo depois, na internet, descobri que há um nome para o que eu faço: artista ‘Polishop’, aquele vendedor chato. Prefiro ser um vendedor/artista simpático.”

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Há 90 anos, Bud Fisher, talvez o primeiro da raça quadrinista-empresário, ganhava US$ 250 mil por ano com a tira Mutt and Jeff. Seriam 3,4 milhões em dólares de hoje. Ele tinha uma tira de sucesso, um mercado aquecido com mais de 2 mil jornais querendo quadrinhos todos os dias e lábia para peitar gente grande, como o magnata da imprensa William Hearst.

Na década em que as tiras de jornal estão desaparecendo, as webcomics crescem com um modelo de negócios ainda mal definido, baseado em fomentar uma relação direta com o leitor que vire venda de produtos derivados, minimecenato/doações/patrocínio e/ou trampolim para trabalho em outras mídias.

Kate Beaton, da webcomic Hark! A Vagrant: “Falam de webcomics como o futuro dos quadrinhos, da internet e de sei lá mais o quê. Mas como até agora ninguém se aposentou desse negócio, eu, pelo menos, fico um pouco tensa de não ter uma bússola segura para guiar o barco.”

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Assim que o mediador abriu para dúvidas, uma fã da plateia perguntou a Simon Bisley: “Posso ficar com o desenho do Batman?”

“Claro”, ele respondeu. Pegou o mesmo marcador vermelho e deu um jeito de autografar de forma que o “B” de “BISLEY” tapasse os “R$ 300”.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. É o editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Editora Narval). Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

 

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