O tsundoku sincero

Érico Assis

A cena era a seguinte: na banca, o cara estava carregando uma pilha de quadrinhos em capa dura. Uns dez. Alguns bem grossos, outros mais finos. Além do limite em que dá para segurar entre dedão e indicador, usando as duas mãos. Todas as capas duras eram do mesmo formato americano. Lia-se uns Lanterna Verde e vários Batman nas lombadas.

Ele chegou a um grupinho reunido no caixa da banca. Todo mundo se conhecia. Fulano perguntou ao cara:

– E aí, vai ler tudo isso?

E o cara:

– Olha... As do Batman provavelmente sim. As outras vão direto pra estante.

O grupinho riu de leve, como se a resposta já fosse esperada. O cara riu também, mas de um jeito que deu para entender que a resposta era sincera. Ainda complementou com uma coisa tipo “Não tenho tempo pra ler tudo, né.” Pagou a conta, distribuiu a pilha entre duas sacolas reforçadas e foi embora.

* * *

Às vezes me bate a vontade de entender a psicologia do colecionismo. O que leva pessoas a quererem juntar, e geralmente ostentar que juntaram, todas as coisas que fazem parte de uma série, um conjunto, um agrupamento. O motivo de aquilo ser uma coleção pode ser evidente – todos os números de uma coleção de gibis – ou só existir na cabeça da pessoa. Como fui afetado pelo colecionismo desde cedo, queria entender inclusive por que tem pessoas que não fazem coleção de nada.

Ando pensando em um recorte mais específico: o colecionismo de livros. E mais recortado ainda: o prazer em ver uma parede, uma muralha de lombadas de livros. Afinal, quem não tem prazer em ver um monte de lombada de livro colada, na biblioteca, na livraria, em fotos de bibliotecas e de livrarias, na sua estante e, sobretudo, na estante da casa dos outros? Todo mundo tem isso, não tem? Não tem? Não tem?

O Google me leva a algumas matérias que apontam o esperado – colecionismo pode ser compensação por alguma deficiência em achar ordem, permanência, solidez ou controle no mundo. Há quem cultive coleção para investimento ou ostentação. Freud falou que é uma das mil coisas freudianas que tem a ver com você descobrir que sua mãe não faz parte de você. “Bibliomania” é o nome que se dá quando a coisa vira transtorno. Tem uns episódios de Hoarders (Acumuladores) no YouTube que ilustram bem esse limite mais problemático do colecionismo.

Caí na história de Stephen Blumberg, bibliômano que roubou mais de 20 mil livros porque, na sua cabeça, o governo dos EUA queria dificultar o acesso a livros raros e ele precisava protegê-los. E na história de Sir Thomas Phillips, maior colecionador de manuscritos do século XIX – tive um calafrio lendo sobre a dificuldade que se teve para dar destino à coleção depois que morreu.

E cheguei ao tsundoku. É um trocadilho do japonês, que mistura as palavras “tsundeoku” (deixar uma pilha de coisas) e “dokusho” (leitura). Ou seja, deixar pilhas de coisas para ler depois. Me identifico. Minha compulsão, sobretudo quanto mais velho eu fico, não é tanto por ter uma coleção, mas por ter e ler tudo que for possível. Embora goste de deixar minhas pilhas bem arrumadinhas na estante – não nego a ostentação – posso me considerar praticante do tsundoku.

* * *

Só que aquele cara na banca falou que não ia ler boa parte do que comprou. A função da maioria daquelas capas duras ia ser, imagino, decorar a estante. Ou completar numeração de uma série, só pela necessidade de completar a numeração. Não era uma pilha para ler depois. Era uma pilha para atender a algum desejo particular, que não o de ler.

Uns dias depois, comentaram que as editoras dessas capas duras de super-herói foram das poucas do mercado livreiro que conseguiram ficar no azul no pior da krize no ano passado. Tem bastante editor querendo entender e copiar o fenômeno. Imaginei centenas de cenas iguais à da banca se repetindo por aí – provavelmente mais em versão virtual, no carrinho de compras da Amazon. É algo recente no Brasil. Entre várias coisas curiosas do fenômeno está essa predileção pelas capas duras, que rende umas analogias entre quem liga o colecionismo a buscar solidez no mundo. Pode ser também que as capas duras formam blocos TOC-friendly na estante. Vai saber o transtorno obsessivo de cada um.

Apesar de não ser entusiasta das capas duras de super-herói e nem de capas duras em geral, acumulo mais gibis do que leio e tenho meu prazer com as lombadas me olhando na estante. Mas cultivo o tsundoku – me prometo que vou ler. Algum dia. Não me vejo como igual ao cara que compra capas duras só para preencher a estante. Mas acredito que, quando confessa que não vai ler, ele seja mais realista que eu. Ou mais sincero.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. É o editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Editora Narval). Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

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